“De-Vir” wird nach Berlin*

Divulgação
O espetáculo “De-Vir”, do coreógrafo cearense Fauller, é um dos dez selecionados para o III Festival Brasil Move Berlim

Mal chegou de mais uma temporada na Europa, cumprindo turnê no elenco de “Cover”, montagem da companhia francesa Fin Novembre, capitaneada pelo coreógrafo Rachid Ouramdane, e o cearense Fauller já está com data marcada para voltar. Entre 12 e 22 de abril próximo, ele e sua Cia. da Dita Dança são destaques na programação da terceira edição do Festival Brasil Move Berlim.

Criada em 2003, a mostra - ação de intercâmbio cultural Brasil/Alemanha - tem reunido na capital alemã um rico recorte da recente produção brasileira em dança contemporânea. Pela primeira vez na programação do evento, o Ceará entra em cena com “De-Vir”. Beirando os cinco anos de vida, o espetáculo é uma das crias mais simbólicas da efervescência cultural que acompanhou os passos do saudoso Colégio de Dança do Ceará, ligado ao antigo Instituto Dragão do Mar.

Tendo marcado a estréia da Cia. da Dita Dança, “De-Vir” carrega em si lembranças mil. Os movimentos rubricados por Fauller (até a criação do trabalho, uma figura praticamente anônima até mesmo no contexto local da produção em dança) remetem, por exemplo, ao bom e velho Projeto Porão (foi lá que um experimento inicial foi compartilhado com o público), que até 2002 funcionara no Theatro José de Alencar. Afamado pelas platéias imensas que contabilizou em todas suas andanças e, também, pelas críticas positivas que atraíra de muitos especialistas, “De-Vir” é um belo encontro entre movimento e reflexão.

Em sua pesquisa, a montagem aproxima nomes como a “não-artista” mineira Lygia Clark (1920-1980) e o filósofo português José Gil. Dela, a Cia. da Dita Dança se agarra a um repensar o corpo, questionando limites e procurando compreender os pormenores de nossa poética física/mecânica. Dele, Fauller e seus bailarinos transitaram pelas páginas de “Os Monstros”, publicado em 1994. Assim, desde o seu nascimento, “De-Vir” assumira um tom contestador. Questionar o estranhamento do homem diante do seu próprio corpo é atentar para a incompreensão humana de sua própria condição de ser/existir.

Nessa primeira visita à terra estrangeira (em 2004, fora destaque na mostra Fora do Eixo, organizada pelo Sesc Ipiranga, de São Paulo), o espetáculo segue tal e qual fora criado. No elenco, além de Fauller, estão Marcelo Hortêncio, Reinaldo Afonso e Willemara Barros. Nome referencial na história da dança no Ceará, Willemara Barros está em cena já há mais de 30 anos, tendo passado por todos os grandes atos do panorama local ao longo desse período. Em parte, a força de “De-Vir” deve-se à desconstrução dela, uma bailarina clássica por formação, permitindo-se outros vôos em propostas de verve mais contemporânea.

Brasil Move Berlim

Co-produzido pelo ator e bailarino mineiro Wagner Carvalho, radicado na Europa há 16 anos, e pelo alemão Dirk Schulüter, o Festival Brasil Move Berlim recebe, nessa sua terceira edição, outros nove espetáculos de diferentes estados brasileiros. O paulista Luiz de Abreu apresenta “Máquina de comer gente”; os goianos da Quasar Cia. de Dança “Uma história invisível”; Maria Alice Poppe e Maurício de Oliveira “Tempo Líquido”; o paranaense Ricardo Marinelli “Eu tenho a autorização da polícia para ficar pelado aqui”; Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira se desdobram em “Outras formas” e “Como?”; e a Membros Cia. de Dança de Macaé no Rio de Janeiro com “Raio X” e “Meio Fio”. O Festival Brasil Move Berlim acontece de 12 a 22 de abril. Outras informações estão disponíveis no site: www.moveberlim.de.

MAGELA LIMA
Repórter

ENTREVISTA - WAGNER CARVALHO*
´No fundo, sabe-se muito pouco do Brasil por esses lados de cá´

Por que apostar na produção contemporânea para além do eixo Rio-São Paulo?
Destacando “centros periféricos´, a diversidade se afirma e ganha um outro contorno no contexto berlinense, solicitando do espectador/especialista uma mudança do foco do olhar, constituindo aí um “corpo político”, pois as imagens são outras e o tratamento delas estabeleceu novas perspectivas de “entendimento” desse continente chamado Brasil. Quem aqui vive, opta, em muitos casos, por mecanismos superficiais no que diz respeito à cultura brasileira.

A partir das suas andanças Brasil afora, a procura dos artistas para compor o Move Berlim, que cenário você pode traçar sobre a dança produzida aqui?
Não denominamos a nossa ação como “procura”. É encontro e, em alguns casos, reencontro. O que leva o momento para uma outra esfera. Temos uma efervescência de grupos por todos os cantos do Brasil. É impressionante a capacidade de realização desses grupos, sem a estrutura de fomento adequada às suas necessidades. A aproximação se dá através da relação com a própria história/individualidade inserida no contexto “nacional”. Tem gente se vendo primeiro, para depois ir ao encontro do outro. Logicamente, existem pessoas que estão partindo do “de fora pra dentro” e, com isso, ampliando a comunicação com o seu ambiente.

O que mais pesa na escolha final dos grupos? A necessidade brasileira de se colocar no circuito europeu ou a urgência de se rever um certo estereótipo europeu sobre a dança do Brasil?
Temos preocupações do tipo: como poderemos criar o espaço fundamental para que esse trabalho seja apresentado em Berlim? Como iremos dialogar com essa proposta? Por mais que nós, como um todo, queiramos romper com a visão estereotipada do Brasil, vai ter sempre um resquício de “exotismo” no encontro. Cabe aos interlocutores o papel de estabelecer outros fóruns e plataformas, onde o “intercâmbio cultural” se dará sem muitas perdas. No fundo, sabe-se muito pouco do Brasil por esses lados de cá. Acredita-se que ao ser pronunciado Brasil, tenha-se um quadro sobre o país bem definido. E aí que começa o primeiro tropeço. E a queda é fundamental nesse aspecto, pois assusta e abre a porta para um “bisbilhotar” mais detalhado.

O Move Berlim é uma ação em parceria entre o Brasil e a Alemanha. Em que medida se traduz financeiramente?
O Move Berlim, sob a perspectiva econômica. é financiado por instituições alemãs. Falo do dinheiro “vivo”. Em 2003 e 2005, fomos financiados pelo Fundo Cultural da Capital Federal. Agora, a Fundação Nacional de Cultura é a nossa fonte maior de recursos: 240 mil euros; o Hebbel am Ufer entrou com o montante de 35 mil euros como co-produção. E o Ministério da Cultura do Brasil fornecerá a grande parte das passagens para os grupos e pesquisadores. Em momento algum do histórico do festival, recebemos dinheiro em espécie de instituições brasileiras.

Desde a primeira edição, o Move Berlim tem se destacado por uma programação que mistura criação com reflexão artística. Por que?
Entendemos o conjunto das coisas. Não separamos uma da outra. Fazem parte do mesmo contexto e determinam inter-relações. A “tal dança contemporânea” acontece em todo lugar, no território brasileiro. Os meios utilizados para a sua viabilização refletem os estágios onde se insere. Há correntes de pensamentos diversos reivindicando os seus espaços tanto teóricos quanto práticos. E tem gente fazendo as duas coisas juntas. Para nós, são inseparáveis; se complementam.

Passadas já duas edições da mostra, que avaliação você faz no que diz respeito a inserção recente de grupos brasileiros aí na Europa?
O Move Berlim aproximou pessoas e instituições. Alguns grupos circularam e circularão por outros países. Aconteceu o primeiro curso sobre dança contemporânea brasileira, no semestre passado, na Universidade Livre de Berlim (Freie Universität zu Berlin). Em abril iniciará a primeira turma de estudantes no Centro Integrado de Universidade de Dança (Hochschulübergreifendes Zentrum Tanz Berlin) com os workshops do Luiz de Abreu, Taís Vieira e Paulo Azevedo. Dessa maneira, descrevo a importância que o festival assumiu por aqui.

* Organizador do Festival Move Berlim