Com antigas pendências, Museu do Ceará aguarda novo diretor

Cristina Holanda, agora ex-diretora do museu, entregou o cargo no último sábado. A Secult ainda estuda substituto

Há dez anos integrando a equipe do Museu do Ceará, e desde 2008 como diretora, a saída da historiadora Cristina Holanda do equipamento pegou todos de surpresa. Ela entregou o cargo no último sábado. A exoneração, no entanto, já estava assinada desde o dia 30 de junho. Cristina pediu dispensa à Secretaria da Cultura pra assumir o cargo de consultora do Programa Pontos de Memória da Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), em Brasília.

"Eu comuniquei há duas segundas-feiras. O programa contratou de 12 a 15 consultores para dar assessorias especializadas em questões museológicas como museus quilombolas, indígenas, ou museu com a temática LGBT, ou ministrar oficina de museu, memória e cidadania. Meu trabalho será de acompanhar o trabalho desses consultores", explica a historiadora, que já está em Brasília onde assume, hoje, o novo cargo.

Até o momento, a Secretaria da Cultura ainda não tem um nome para assumir o cargo, que inclui, além da direção do Museu do Ceará, a direção do Museu Sacro São José de Ribamar, em Aquiraz, que é vinculado ao primeiro, e a direção do Sistema Estadual de Museus.

Cristina Holanda deixou a diretoria no último sábado. Ela aponta a urgência de um grande restauro. Acima, infiltração na parede do Museu do Ceará Foto: Fabiane de Paula / Alex Costa

Balanço

"Em 2006, ainda na gestão do Regis (Lopes), assumi gerencia do Sistema Estadual de Museus, que tinha sido criado em 2004. Em 2007, me afastei, mas reassumi no final do ano e em 2008, o Regis pediu afastamento e eu assumi, acumulando as três direções", remonta Cristina, que também não sabe se há nomes já cotados pela secretaria para o cargo.

Entre as ações desenvolvidas por sua gestão, ela destaca pontos como o restauro do prédio do Museu Sacro, incluindo equipagem e instalação de exposição de longa duração, e a inserção do Ceará na política nacional de museus, estreitando os laços com o Ibram.

"Em Aquiraz, acompanhamos o restauro, conseguimos alugar o anexo - a ideia é que o Estado compre o prédio - para implantação da reserva técnica. Com recurso da Petrobras, em 2011, compramos mobiliário especial, montagem os dois primeiros módulos da nova exposição e deixamos engatilhado para três novos módulos que serão abertos ao público em novembro", destaca a ex-gestora.

Em relação ao trabalho no Museu do Ceará, Cristina pontua ainda a continuidade do trabalho editorial, que inclui lançamento de livros das séries "Coleção Outras Histórias" e "Cadernos Paulo Freire"; e, por meio do Sistema Estadual de Museus, a aproximação do Museu do Ceará com comunidades indígenas, quilombolas, terreiros, para pensar museus junto a esses segmentos, trabalhando memória nas comunidades e fortalecendo o sistema estadual.

"Também demos continuidade ao projeto educativo do museu, com as visitas orientadas, oficinas para professores. Mas a grande marca da gestão foi essa aproximação com os movimentos étnicos, que incluiu a realização de muitas exposições, seminários, entre outras ações conjuntas", destaca a historiadora.

Pendências

Três pontos fundamentais ao Museu do Ceará ainda ficaram por fazer, avalia Cristina Holanda: o restauro do prédio, que apresenta problemas especialmente na parte hidráulica, com goteiras e infiltrações que já comprometem o acervo; a aquisição de um anexo para reserva técnica; e a elaboração de um plano museológico, que segundo o Estatuto dos Museus, sancionado em 2009, é obrigatório que seja consolidado até junho do ano que vem.

"É urgente efetivar o projeto de restauro. O Museu do Ceará tem problemas muito sérios. A parte elétrica está boa, porque foi inteiramente trocada em 2008, mas a parte hidráulica está comprometendo muito o prédio e o acervo. A climatização do andar superior também está comprometida", alerta a historiadora, reforçando que a obra é uma pendência antiga e que já foi prometida pela Governo do Estado. "O projeto está quase finalizado no Departamento de Arquitetura e Engenharia (DAE). O Iphan está acompanhando. Mas é preciso garantir que de fato o restauro saia. Até porque o recurso de R$ 1,2 milhões foi anunciado pelo Governo ano passado", reforça Cristina.

Quanto ao anexo, lembra, é uma demanda também antiga, que já se arrasta de gestões anteriores. "O Sobrado Dr. José Lourenço já foi pensado para ser esse anexo, mas com a mudança de gestão acabou virando um espaço para as artes visuais. Existe o prédio do antigo Hotel Brasil, que acreditamos, também poderia abrigar o anexo. Há muito tempo o museu precisa desse espaço onde se poderia ampliar a área de exposição e abrigar uma sala de conservação, que não temos, sala de aula e uma reserva técnica", defende Cristina Holanda.

Por fim, o plano museológico, explica a ex-gestora, que é um planejamento do equipamento a médio e longo prazo. "Por conta da demanda grande não fizemos o nosso. Temos capacitação técnica, mas não demos conta de fazer. Aqui no Ceará só o MAUC (Museu de Arte Contemporânea da Universidade Federal do Ceará) e o Memorial da Cultura Cearense (no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura) tem esse documento. E a lei obriga que seja elaborado em todos os museus, públicos ou particulares", alerta.

FÁBIO MARQUES
REPÓRTER