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Monstro explosivo

Com um espetáculo apoteótico e abusando da pirotecnia, o quarentão Kiss fechou, no último domingo (18), a turnê latino-americana "Monster Tour". A coluna Sound acompanhou tudo, no Rio

Sem frescura e direto ao ponto. Desde que anunciou que comemoraria seus 40 anos na estrada, com várias ações comemorativas à data, o Kiss mostrou que é uma banda de ação e pouca enrolação.

Gene Simmons, Tommy Thayer e Paul Stanley, em show apoteótico do Kiss Fotos: Reuters

Sem tempo (e dinheiro) a perder, o quarteto americano finalizou álbum inédito (o elogiado "Monster"), relançou edição de luxo de "Destroyer" (alusivo aos 35 anos do disco), lançou "Monster Book", um enorme livro de fotografias (91,4 cm de altura por 76,2m de largura) e, paralelamente, voltou aos palcos. Tudo isso só em 2012. Essa proatividade conta muito a favor em um cenário de veteranos, cada vez mais acomodados e bancando os difíceis, que têm muito discurso e pouca criação.

No palco, os sessentões do Kiss mostraram que ainda têm vigor para um show poderoso.

Declaradamente comercial, nem por isso menos profissional, os demoníacos sessentões provaram, na arena do HSBC, no Rio, que manjam ainda muito bem do "negócio" da música.

Paul Stanley (voz e guitarra), Genne Simmons (baixo), Tommy Thayer (guitarra) e Eric Singer (bateria) entraram em cena por volta das 21h, após o breve show de abertura do Viper.

Com a porrada "Detroit Rock City", os "cavaleiros das trevas", munidos dos indefectíveis figurinos e das maquiagens bizarras, protagonizaram uma entrada triunfal, descendo de uma plataforma e com uma sucessões de fogos de artifício, que marcariam toda a apresentação.

Com 40 anos de carreira, os "monstros" do rock continuam conquistando fãs e fazendo a galera delirar


Antes de engatar a estreante e sexy "Hell or Hallelujah" (de "Monster"), que teve recepção positiva dos fãs, Stanley lembra que fazia um tempão que o Kiss não tocava no Rio (na última passagem do pelo Brasil, em 2009, a cidade tinha ficado fora do roteiro), promete uma noite histórica e se declara: "Eu não falo português, mas o nosso coração é de vocês!".

A apresentação vai literalmente esquentando. A execução de "Hotter Than Hell" atesta essa sensação. Empunhando uma espada em chamas, o baixista emendou "I Love it Loud". Os solos de guitarra, bateria e baixo dão as caras após "Outta This World". Deles, o destaque ficou por conta do "boss" Simmons que, naquele momento, parecia mesmo ter encarnado a própria figura do diabo!

O som pesado e o ar de psicopata do famoso linguarudo deram o tom sinistro da performance, que culminaria com uma boca toda ensaguentada - de "mentirinha", claro!

Em um dado momento tocando com a língua e cuspindo um líquido vermelho, ele "voa" para depois parar no topo da estrutura do palco. Bizarro e delirante. É o cenário ideal para a execução de "God of Thunder", logo seguida por "Psycho Circus".

Depois da beligerante "War Machine", que traz no telão uma animação com o exército de soldados do Kiss, Stanley é ovacionado em "Love Gun". Por meio de uma tirolesa, o vocalista deixa a banda para sobrevoar o palco, de um ponto a outro, no intuito de ficar mais perto do público. Em um púlpito montado para a ocasião, o cantor comanda a multidão enlouquecida de tanto gritar. É a deixa perfeita para "Black Diamond", uma das preferidas dos fãs. Já quase no fim, eles ameaçam tocar "Stairway to Heaven", do Led Zeppelin.

O set list enxuto, com 16 canções, em um show de 1h45min, vai evoluindo para um desfecho extasiante, terminando com o bis "Lick It Up" (homenagem ao The Who em passagem instrumental de "We Won´t Get Fooled Again"), "I Was Made For Lovin´ You" e a cereja do bolo: "Rock and Roll All Nite".

O maior sucesso do Kiss foi responsável por uma comoção geral em meio à chuva de papel picado. Grupos de amigos e pessoas que nunca se viram na vida pulavam juntos para celebrar a noite do rock.

Do início ao fim, os integrantes interagiram e instigaram a galera, que correspondia calorosamente àquele "circo de horrores". Sem deixar a peteca cair, não houve espaço para os temidos momentos mornos de um show, mesmo para alguns presentes, que não conheciam a fundo a obra do Kiss.

Os americanos sabiam que estavam lá para agradar e não para se autoafirmarem. Musicalmente, exibiram boa forma e um som poderoso e viril - qualidade cada vez mais rara nas bandas de rock dos dias atuais...

Teatral, visual e sexual (teve gente que definiu o show com o termo "orgástico")... Então, se é assim, o Kiss cumpriu com o seu objetivo: entreter e dar prazer sem limites.

Set list

Monster Tour

"Detroit Rock City"

"Shout It Out Loud"

"Calling Dr. Love"

"Hell or Hallelujah"

"Wall of Sound"

"Hotter Than Hell"

"I Love It Loud"

"Outta This World"

(Solo de guitarra e bateria)

(Solo de baixo)

"God of Thunder"

"Psycho Circus"

"War Machine"

"Love Gun"

"Black Diamond"

Bis

"Lick It Up"

"I Was Made for Lovin´ You"

"Rock and Roll All Nite"

Público: Exército de seguidores do Kiss

Natália Klein e Lucas Hoffman: famosos na plateia

A apresentação carioca, a terceira e última da turnê brasileira do Kiss (que passou também por Porto Alegre e São Paulo), reuniu também fãs do Nordeste. Seguidor da banda desde os 11 anos, o estudante de arquitetura Fillipe Cavalcante, de 26, contou que o show correspondeu totalmente às suas expectativas.

"O Kiss quer vender o show, o espetáculo. Pelo que eu já tinha visto em DVD e clipe, eu sabia que eles iam botar para quebrar. Nada como ter a experiência ao vivo e em cores. Só acho que o show poderia ter mais uns 20 minutos. No mais, foi tudo maravilhoso. Som, produção de palco, performance da banda, eles interagindo com o público. Foram muito carismáticos. Todos eles tocam muito. Um show muito animado, pra cima. Não teve um ponto baixo", considerou, citando a música "I Love It Loud" como um dos ápices da noite.

De Pernambuco, o estudante de produção fonográfica Ítalo Cirne, 23, e o administrador Fred Sarinho, 24, estavam ansiosos para conferir de perto a lendária banda pela primeira vez. "Nossa, vai ser emocionante vê-los ao vivo executando os grandes clássicos. Eu gostaria que eles tocassem ´Magic Touch´, mas sei que não entrou no repertório. Mas tem ´Black Diamond´, que é muito boa. Eu tinha que vir. Pode ser que seja a última turnê deles, nunca se sabe", comentou Ítalo, pouco antes da performance começar.

Os caras pintadas, com maquiagens alusivas ao Kiss, marcaram presença em peso. Não era raro esbarrar com algum desses fãs irreverentes. O professor Rafael Pinna, 32, e o engenheiro Pedro Porto, 34, brincaram dizendo que passaram a tarde toda só cuidando do visual. "Contamos até com ajuda de profissional! (risos)", brinca Pinna.

Outro que estava empolgado com o show era o empresário carioca Cláudio Ferreira, 44, apesar de ter suas ressalvas com o atual momento do grupo. "Curto os caras desde os meus 11 anos e já fui para todas as turnês do grupo no Brasil: em 1983, 1994, 1998 e 2009. Mas, você sabe que só restaram dois integrantes da formação original... Então, eles não tocam as melhores músicas, que são as dos anos 70, mais especificamente do álbum ´Alive I´ (1975) e ´Alive II´ (1977). Fã de verdade do Kiss gosta das canções dessa época", afirmou.

Tinha até gente famosa na plateia. A atriz Natália Klein, estrela de "Adorável Psicose", série do Multishow, foi com o namorado, o roteirista Lucas Hoffman. "Antes de vir, essa semana, teve a maratona Kiss. Ele é mais fã do que eu, me ajudou na preparação (risos)", declarou.