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Esse cabra é arretado

Na estreia da tour brasileira de "On The Run", em Recife, Paul McCartney surpreendeu mais uma vez os fãs com o seu carisma, vitalidade e até sotaque nordestino, visse?!? A Sound esteve lá!

Primeira escala da nova turnê de Macca, Recife mostrou que o Nordeste está preparado para receber shows internacionais de grande porte, ao contrário do que a imprensa sulista chegou a questionar. Além de encabeçar o roteiro de apresentações, a capital pernambucana teve o privilégio de sediar duas das três datas previstas no cronograma, no último fim de semana.

Após uma lotada estreia no sábado, com 50 mil ingressos vendidos, o espetáculo do domingo foi mais tranquilo, porém não menos eletrizante. Em quase 2h45 minutos de show e 35 músicas, o astro britânico, de 69 anos, surpreendeu a plateia pela energia no palco, pela atenção com os fãs e pelo português esforçado.

Seus seguidores iam ao delírio quando o cantor invocava expressões da cultura local, fosse nos momentos em que chamava o público de Recife de "povo arretado", nas vezes em que soltava um charmoso e desajeitado "oxente" ou "vocês são uns cabras da peste" até elogiando Pernambuco, "a terra de Luiz Gonzaga". No primeiro bis do show, hasteou a bandeira do Estado.

O show

O repertório até lembra o da "Up and Coming Tour", que visitou o Brasil em 2010 (São Paulo e Porto Alegre) e 2011 (Rio de Janeiro), mas Paul McCartney fez questão de dar uma burilada: incluiu faixas nunca antes tocadas em solo nacional como "The Night Before" (do disco "Help!"-1965) e o medley "Golden Slumbers", "Carry That Weight" e "The End" ("Abbey Road"-1969).

Diferente da performance do dia anterior, o músico substituiu "Magical Mystery Tour", faixa de abertura, por "Hello, Goodbye". "Go To Get You Into My Life", também da fase Beatles, foi trocada por "Drive My Car". "Helter Skelter" ficou de fora para dar vez a "I Saw Her Standing There".

Para não fugir à tradição, o famoso cover instrumental de "Foxy Lady", de Jimi Hendrix, foi executado depois de "Let Me Roll It". No piano, McCartney emendou "The Long and Winding Road", "1985" (do Wings), "My Valentine" e "Maybe I´m Amazed!". Apesar de inédito, o novo single, que faz parte do último disco, o jazzístico-retrô "Kisses On The Bottom", arrebatou os fãs.

"Escrevi essa música para a minha esposa, Nancy", dedicou. Detalhe curioso é que nessa faixa, em que o primeiro trecho diz "What if it rainedWe didn´t care (e se chovesse Não nos importaríamos), inspirado em um comentário da então namorada durante férias do casal, o céu sob o estádio do Arruda ameaça chuva. Mas, assim como Nancy, os fãs também pouco se importavam se "caísse um toró" numa noite que, para eles, parecia ser mágica.

"Maybe, I´m Amazed" também é de derreter os corações. "Essa é para você, Linda", disse, homenageando sua primeira mulher. Na projeção do telão, surgia um vídeo antigo de Paul feliz com os filhos pequenos. Difícil não se emocionar.

O esperado tributo a John Lennon é feito em "Here Today", canção sobre a amizade dos dois. "Essa eu compus para o meu parceiro John. Surgiu de uma conversa que tivemos", explica ele. Nesse momento, está sozinho no palco com apenas um violão.

Em "Dance Tonight", o já empolgado baterista Abe Laboriel Jr. arranca risos da plateia. Enquanto assume as baquetas, faz umas dancinhas non-sense, mistura de "Macarena" com "Vogue". Paul acha graça do colega e dá a dica para os fãs: "Quando vocês forem a uma festa, lembrem-se desses passinhos".

"Something", dedicada a George Harrison, é um dos pontos altos da noite. Acompanhado de um ukelele, o cantor faz uma introdução leve, no melhor estilo havaiano, para depois a banda voltar, trazendo toda a densidade e carga dramática presente na canção do Beatle mais existencialista e espiritualizado do quarteto de Liverpool.

Não é novidade que um dos momentos preferidos de Paul durante o espetáculo é "Hey, Jude", hit do "Fab Four". O público sabe bem disso e procura corresponder às expectativas do rock star cantando a plenos pulmões o refrão "Na Na Na Na Na Na". Na pirotécnica "Live And Let Die", a multidão fica embasbacada com o show de fogos no palco.

Sorte dos fãs

Sem fugir do protocolo, a produção selecionou fãs para conhecer o artista. Com o cartaz em inglês, "Paul, estive em seu show em Liverpool, por favor assine o meu braço", o cantor acata o desejo da brasiliense Cecília, que planejava tatuar seu nome. E, no final, conseguiu!

No quesito criatividade, quem ganhou medalha de ouro foi o médico Hermilo Borba e o filho Rafael com os dizeres: "Paul, você só convida as garotas para subir ao palco. Chame um pai e um filho". A gargalhada foi geral.

Apesar do calor não ter poupado Paul McCartney e em alguns momentos ele aparentar cansaço e um pouco de rouquidão, o cantor provou porque é um ídolo que atravessa gerações. Ao lado de uma banda competente e de um público devotado, o showman deu mostras que não tem motivos para se aposentar tão cedo. Talvez, apenas diminuir o ritmo das turnês, como fez na excursão mais recente pela América Latina.

Set list do show

Domingo (dia 22)
1. Hello goodbye
2. Junior´s farm
3. All my loving
4. Jet
5. Drive my car
6. Sing the changes
7. The night before
8. Let me roll it
9. Paperback writer
10. The Long and Winding Road
11. 1985
12. My Valentine
13. Maybe I´m Amazed
14. I´ve Just Seen a Face
15. And I Love Her
16. Blackbird
17. Here today
18. Dance tonight
19. Mrs. Vanderbilt
20. Eleanor Rigby
21. Something
22. Band on the run
23. Ob-la-di, ob-la-da
24. Back in the USSR
25. I´ve got a feeling
26. A day in the life/Give peace a chance
27. Let it be
28. Live and let die
29. Hey Jude

Bis 1
30. Lady Madonna
31. Day tripper
32. Get back

Bis 2
33. Yesterday
34. I saw her standing there
35. Golden slumbers/ Carry that weight/ The end

Show
Os fãs fazem a festa

Antes de começar o show, no sábado, dia 21, os fãs de Macca (grande parte repetiu a dose no domingo) eram pura ansiedade. O pernambucano Gilvan José Barbosa Jr., 46 anos, já tinha conferido turnês anteriores, mas era a primeira vez que levava o filho de 10 anos, Lucas dos Santos Barbosa para ver o ex-Beatle. Os dois vestiam a simpática camisa "My Kid Is On The Run", criada pelo próprio publicitário. "Se pudesse, acompanhava todos os shows dele no mundo, mas infelizmente não dá".A paixão de Gilvan pela obra de Paul é tão grande que já foi motivo de ciumeira em casa. "Quando o Lucas era pequeno, tinha ciúmes. Ele achava que eu gostava mais dos Beatles do que dele. Por causa disso, teve uma certa resistência no começo, mas se rendeu depois de reconhecer as músicas nos filmes. No ´Shrek´, adorou ´Live and Let Die´", disse.

"Esse menino foi bem educado musicalmente", elogia Raul Diegues, 29. O advogado conta que foi seu pai também que o apresentou ao universo fantástico do Fab Four. "Eu ouço Beatles desde o jardim II! Queria que ele tocasse hoje ´Hope of Deliverance´. Ontem ele incluiu no set list ´Maybe I´m Amazed´", lembrava o rapaz, que se orgulhar de ter todos os discos do quarteto de Liverpool.

Não é o caso aqui fomentar qualquer disputa de quem é o maior fã do cantor, mas, se houvesse, o paraibano Waldir Dinoá, 50, largaria na frente. O arquiteto e líder do "The McCartney Project" já foi a mais de 12 apresentações, inclusive no exterior. Passou na catraca de todas as tours do Brasil e ainda estava tentado em ir ao show de Florianópolis, amanhã (25), no estádio da Ressacada.

Mas o que mata mesmo os seus amigos de inveja é uma relíquia alemã: o famoso baixo Höfner 5001, modelo popularizado e usado por Macca desde os anos 60. "Apesar de tocar vários instrumentos, esse baixo é a marca dele! Tenho há cinco anos! Sou fã dos Beatles desde os 13 e já tem mais de 20 anos que toco em covers", diz Dinoá que já sonha em conferir o ídolo no Palácio de Buckingham, dia 4 de junho. "O Jubileu da Rainha será um dos eventos mais importantes para o Paul. Quero estar lá!", afirmou.

A jornalista cearense Sabrina Albuquerque, 32, marcou presença no frontstage com o marido, o administrador Antônio Sérgio, 46. "Curto mais a fase Beatles, mas é bacana ver a essa energia. Não tem como não entrar no clima. São várias gerações e todas essas pessoas vieram pelo mesmo motivo".