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Ópera do rock

No primeiro show da turnê "The Wall" no Brasil, Roger Waters mostra a força e a vitalidade da mais célebre ópera rock, lançada em 1979. A Sound esteve em Porto Alegre e conta tudo o que rolou

É curioso o poder da música. Tem bandas que marcam a vida da gente. Mesmo aquelas que, quando você começou a acompanhar, já tinham acabado há muito tempo. Para os fãs de rock, "The Wall" (1979) não é só o disco mais famoso do Pink Floyd, que despontou a impregnante "Another Brick In The Wall". É uma obra obrigatória para se conhecer, assim como foi o "Pet Sounds" (1967), do Beach Boys, e "Sgt Peppers" (1967), do Beatles, para citar aqui também outras obras seminais. Por sua complexidade e teor crítico, o trabalho ultrapassa gerações e surpreende por ter uma mensagem ainda atual.

Foi o que se constatou no último domingo, no Beira-Rio, a "casa" do Inter, em Porto Alegre. Apesar da desorganização na hora de entrar no estádio, as duas horas de espera foram compensadas com um espetáculo em que faltam superlativos para definir a orquestra audiovisual comandada por Roger Waters. A impressão é que o show só atrasou mais 40 minutos para dar tempo dos milhares de fãs se acomodarem.

Impactante

O início da apresentação já prenunciava a grandiosidade. Na impactante "In The Flesh", bateu aquele frio na barriga. As caixas de som emitiam gritos e vozes, que pareciam vir da plateia. Fogos de artifício e a explosão de uma réplica de avião militar, que despencou por cima da multidão, completaram a abertura.

Homenagens a soldados e civis, que perderam suas vidas em conflitos e tragédias, permearam toda a apresentação. Para quem não sabe, o pai de Waters foi uma das vítimas da Segunda Guerra, acontecimento incisivo para a concepção do "The Wall".

Para "Another Brick In The Wall - Part 2", uma turma de crianças, da ONG Canta Brasil, de Canoas (RS), treinou o inglês para cantar o hit. Vestidas com camisas que diziam "medo constrói muros", a garotada dançou e apontou para um grande boneco que simbolizava a opressão do Estado na figura do professor.

Logo depois, Jean Charles de Menezes, morto em 2005, numa estação de metrô, foi lembrado. Além da foto do brasileiro assassinado pela polícia britânica ao ser confundido com um terrorista, imagens de um trem em alta velocidade, passavam pela muralha de 137 metros, que funcionava como telão.

Somente na quarta música Waters fez o primeiro contato com o público. Esforçado, ele impressionou pela fluência no português. "Brasil, estou muito feliz de estar aqui. Gostaria de agradecer às crianças do Canta Brasil e dedicar este show para Jean Charles e sua família, e a sua luta pela verdade e justiça", declarou o artista, que se encontrou com os parentes do homenageado no camarim.

Waters também emocionou ao admitir um certo narcisismo pelo fato de ter escrito maior parte da ópera rock com base na sua experiência de vida. "Aos 35 anos, eu costumava acreditar que o ´The Wall´ se tratava de mim, mas ele é sobre nós, é sobre o Jean Charles", ressaltou.

"Mother", um dos inúmeros pontos altos da noite, arrepiou a galera. Robbie Wyckoff entrou em cena, "ocupando" posto do saudoso David Gilmour, no dueto com Waters (o músico também faz a segunda voz em "Young Lust" e "Comfortably Numb").

A figura materna e suas frases reconfortantes ganharam destaque e comoveram pais e filhos presentes no estádio. No mesmo momento em que o baixista entoava a canção, um jovem Waters, vocalista do Pink Floyd, aparecia em um vídeo interpretando a música. A sincronia "dos dois" foi perfeita!

Interação total

O bom humor surgiu também em "Mother": o inglês fazia perguntas, através dos versos da canção, e o muro replicava. Em "mãe, devo confiar no governo?", a resposta foi um surpreendente "nem f...", em português mesmo e em letras garrafais para ninguém ter dúvida. A gargalhada foi geral. Ao fim da música, o paredão avisa, em inglês, que o "Big Brother está nos assistindo". Que ironia, Waters, a renomada obra de George Orwell ("1984") inspira hoje só reality shows...

Ao longo de todo o show, o muro vai sendo erguido, até ser finalizado aos 45 minutos do "primeiro tempo", em "Goodbye, Cruel World". Durante o intervalo de 20 minutos, o público fica ansioso, na expectativa de como vai ser, agora que a banda desapareceu com o cenário.

O segundo ato começa com "Hey You". Roger e o grupo se apresentam atrás do muro, mas não se restringem a isso. Além dos poderosíssimos efeitos visuais e sonoros, que contaram também com partes do filme homônimo do diretor Alan Parker, de 1982, os músicos dão um jeito de aparecer nem que seja saindo da parede ou literalmente em cima do muro.

"Bring The Boys Back Home", em que o astro pede para os soldados retornarem para casa, manda ainda outro recado com dedicatória: "para aqueles que têm fome e não têm o que comer; para aqueles que sentem frio e não têm com o que se agasalhar".

Jogo de cena

Uma das músicas mais esperadas da noite, "Comfortably Numb" ecoou por toda a arena com o coro dos fãs. Mas, em "Run Like Hell", um insano Roger Waters encarna um ditador sanguinário, que chega atirando para todos os lados. Munido de um alto falante e uma metralhadora, o frontman provoca, indaga se há muitos paranoicos no estádio e ameaça cortar cabeças caso o público não entre no jogo de dominador versus dominado. No meio disso, flutua sobre a plateia um emblemático porco voador, parecido com o que estampou a capa do aálbum "Animals" (1977), do Pink Floyd.

"Waiting For The Worms", "The Trial" e "Outside The Wall" vão desenhando o desfecho da trama, quando o muro é derrubado. Após o desabamento, os músicos retornam ao palco. Roger apresenta, enfim, sua competente banda, que conta inclusive com o filho Harry Waters, um branquelo loiro e cheio de dreads, responsável pelo órgão, teclado e acordeom.

"The Wall" é um espetáculo atemporal. Com mais de 30 anos, a ópera rock não ficou datada, mesmo tendo se utilizado de um gancho histórico, numa época em que vingavam regimes totalitários. A democracia ainda não é para todos. As atrocidades das guerras continuam e o desrespeito aos direitos humanos também. O muro continua aí, distanciando as pessoas. Waters foi feliz criar a obra. A mensagem do disco é atual e sempre servirá como alerta.

Set List
The Wall


"In the Flesh?"
"The Thin Ice"
"Another Brick in the Wall Part 1"
"The Happiest Days of Our Lives"
"Another Brick in the Wall Part 2"
"Mother"
"Goodbye Blue Sky"
"Empty Spaces"
"What Shall We Do Now?"
"Young Lust"
"One of My Turns"
"Don´t Leave Me Now"
"Another Brick in the Wall Part 3"
"The Last Few Bricks"
"Goodbye Cruel World"

Intervalo
"Hey You"
"Is There Anybody Out There?"
"Nobody Home"
"Vera"
"Bring the Boys Back Home"
"Comfortably Numb"
"The Show Must Go On"
"In the Flesh"
"Run Like Hell"
"Waitig for the Worms"
"Stop"
"The Trial"
"Outside the Wall"

Turnê
Expectativa dos fãs cearenses

Com mais três shows pela frente (Rio, dia 29, e São Paulo, 1º e 3), fãs cearenses têm feito contagem regressiva para conferir Roger Waters, na turnê "The Wall". Rafael Bandeira, de 33 anos, desembolsou mais de R$ 3 mil só em passagens e ingressos. O produtor cultural faz questão de assistir ao espetáculo no lugar mais privilegiado, duas vezes (no Rio e São Paulo).

"Eu nunca fiz questão de pista prime, mas quero ver os detalhes de cenário, iluminação, som, aqueles efeitos todos", afirma ele, que tem shows do Ramones, Metallica, Iron Maiden e duas edições do Rock In Rio no currículo.

Glairton de Paula vai com uma turma grande para o show do dia 1°, no Morumbi. O professor de inglês, de 35, conta que é a realização de um sonho.

"Achei que ele (Waters) iria morrer e eu nunca teria a oportunidade de ver esse show. Além do disco, o ´The Wall´ é um ícone porque é composto tanto pelos efeitos visuais como pelo sistema de som criado especialmente para ele", conta Glairton.