Certas desventuras

Na obra
Na obra "O que a cortina esconde só se supõe, o que se põe na janela é o que se vê", da artista visual Leticia Kamada , traz uma série de plotagens contendo diferentes paisagens fotos: Viviane Pinheiro
O 62º Salão de Abril tenta inovar, levando obras para o IPPOOII, mas na prática a ideia não funciona. Um dos problemas é o modo como ocorrerão as visitas no local

Acompanhados por um bando de homens armados da Unidade de Apoio Penitenciário (UAP), trajados como "ninjas" negros de onde só se via os olhos, éramos conduzidos aos espaços onde estavam dispostos os trabalhos. O primeiro deles, "Jamba", uma plotagem com a imagem de um elefante, feito pelo artista Filipe Berndt, passaria despercebido aos nossos olhos se os mediadores não chamassem nossa atenção para sua localização. Do outro lado, fincada numa espécie de pátio, se encontra a instalação "Ventura" de Diego dos Santos. Ideia interessante (uma casa semisubmersa no chão), mas que poderia ser melhor aproveitada se o tamanho do objeto fosse maior. O impacto de sua poética, com certeza, seria muito diferente.

Caminhando presídio adentro, daqui acolá, deparamo-nos com olhares curiosos de presos que se esgueiravam entre si como gatos para ver o que acontecia. Muitos, inclusive, indignados com a atitude dos polícias (fortemente armados numa área destinada aos "presos pacíficos"), escondiam-se em suas celas como sinal de protesto. Uma vez que, em visitas "normais", o posicionamento dos guardas é outro. Hipocrisia?

Em um dos corredores, dos muitos que percorremos, meio escuros e silenciosos, há a série de fotografias "Intro-Espelho" da artista Celina Kostaschuk. Não consegui captar direito a obra, aliás, confesso que todas as que estão expostas no IPPOOII, pois a visita seguiu a passo acelerado, "tudo por medidas de segurança". Nesse ritmo efêmero, praticamente, correndo de uma obra a outra, sem intervalos, a visita foi sendo conduzida. Difícil imaginar que tenha permitido à curadoria tempo para uma análise mais profunda.

Presos "pacíficos"

Em alguns momentos, tivemos a chance de trocar poucas palavras com três detentos. O mais velho deles, Cícero Marlon da Silva Oliveira, 41, há seis anos preso, se diz muito feliz com os trabalhos de arte no presídio. "Nunca fui a um museu ou qualquer outra coisa desse tipo, nós todos estamos contentes com a arte aqui. É bom sermos lembrados. Nessa vivência onde estamos (um tipo de ala), só tem as pessoas que querem alguma coisa. Não admitimos badernas. Erramos sim, mas queremos mudar pra melhor", explica enquanto mostra uma das lindas casinhas de madeira que faz. Danatiel de Sousa, 28, há dez anos e nove meses na prisão, conta da alegria que teve ao ver o retrato do filho Ezequiel, sete anos, vestido de Papai Noel ser transformado em pintura a óleo, pela artista Clarissa Campelo, que realizou o trabalho "Retratos", onde reproduzia em telas, as fotos de familiares dos presidiários. "Foi uma emoção muito grande ver meu filho virado pintura. A artista me deu o quadro. Ezequiel ainda não viu, o aniversário dele é no dia 21 de abril, então, quando vier me visitar, vou dar o quadro de presente pra ele. Tenho certeza de que vai gostar muito", diz enquanto pousa ao lado da pintura do filho para uma foto.

Em outra ala dos presos "pacíficos", Hilton de Lima, 38, há 23 meses preso, também se revela feliz com a presença das obras no presídio. Principalmente de "O que a cortina esconde só se supõe, o que se põe na janela é o que se vê", de Leticia Kamada, onde se têm várias plotagens com fotos de janelas, exibindo diferentes paisagens. As imagens estão localizadas próximas de sua cela. "Eu, como a maioria dos meus colegas, nunca fomos a uma exposição. É bom ter isso aqui para alegrar mais o ambiente da gente e dar mais cor".

Depois de Hilton mostrar a paisagem que mais gostou (bem simbólica por sinal), um belo campo verde com árvores frondosas; caminhei lentamente, próximo das celas: pequenos cubículos descascados, quase todos, com recortes de jornais, revistas e desenhos feitos nas paredes, com nomes, números (talvez uma maneira de contar o tempo), corações flechados, fotos de familiares e referências aos times de futebol preferidos de cada um deles. Vi também lençóis amarrotados, tênis e tubos de creme dental jogados pelos cantos, e colchões envelhecidos... Ao observá-los, como os demais visitantes, senti, como se estivéssemos num grande zoológico humano, onde a atração principal, não era as obras em si, mas o homem encarcerado com sua culpa e solidão...

Questões

Há três anos, a organização do Salão de Abril vem refletindo sobre "Qual é o lugar da arte?", promovendo uma ampliação territorial de ocupação de seus espaços expositivos, tudo com o intuito de aproximar as produções artísticas do público não especializado. Depois de passar por alguns terminais de ônibus da cidade e ganhar algumas ruas do Centro, a edição deste ano chega ao IPPOO II.

A ideia não é ruim, contudo, na prática não funciona. A começar pela simples pergunta: como ocorrerão as visitas? Além doos presos e das visitas, quem poderá ver as obras?Respostas que nem mesmo os organizadores do evento sabem dar. Se um dos objetivos do Salão de Abril é democratizar o acesso à arte, a atual proposta é um paradoxo, caindo numa armadilha feita por si própria. Ao aproximar as obras de uns, afasta de outros. Outra questão é: será que todos os presos terão acesso aos trabalhos ou só a ala dos ditos "pacíficos"? Inclusive, tem alguns trabalhos que se encontram pertos do local de saída. E, ai?

Em conversa com os curadores Ana Valeska Maia e Andrés Hernandez foi detectado que alguns dos trabalhos tiveram seu formato original modificado, em virtude de não se poder mexer na estrutura arquitetônica do IPPOO II. O que prejudicou a visibilidade de certas produções. A edição deste ano, também, fortaleceu mais do que nunca seu caráter nacional. De 30 artistas selecionados, apenas dois são do Ceará: Diego dos Santos e o Grupo Acidum. Episódio nunca antes ocorrido em mais de 60 anos de Salão. Segundo os curadores, no momento da seleção não se sabia o lugar de onde vinham os artistas. "Tudo ocorreu naturalmente em virtude do próprio processo seletivo. O resultado foi uma surpresa para todos nós", explicam eles. Além dessas questões, para completar as desventuras do 62º Salão de Abril, um de seus curadores, Agnaldo Farias, não compareceu à visita as obras no presídio e nem a abertura do Salão para ver os demais trabalhos. Isso leva a crer que a decisão dos nomes dos dois artistas que irão receber da Prefeitura de Fortaleza, por meio de sua Secretaria de Cultura, bolsas de formação no valor individual de R$ 12 mil, ficará ao encargo só de dois curadores. Resta-nos agora aguardar os próximos capítulos deste evento que, embora tenha adquirido dimensão nacional, é algo que integra a história cultural do Ceará. (ACS)