´Carnavalha´: Surrealismo e Carnavalização

´Carnavalha´, o sétimo romance de Nilto Maciel, recém-lançado pela editora Bestiário (Porto Alegre, 2007), vem recebendo elogios da crítica especializada

O romance agrada o leitor a partir do trabalho gráfico apurado (o mesmo do livro anterior: a coletânea de contos ´A leste da morte´ (2006)) até a extensão dos capítulos, sempre curtos e nominados. A história se passa na cidade de Palma, no Ceará, espaço (imaginário) recorrente em livros anteriores, e o leitor fica suspenso no questionamento: a rotina foi modificada pela festa momina ou a cidade é um antro de loucos, que vivem o ´carnaval´ permanentemente? Afinal, como diz o Zuza: ´A cidade é cheia da fantasias. O Carnaval é o cotidiano´ (p.147).

A narração faz desfilar uma galeria de personagens que surgem, desaparecem e ressurgem como num desfile de carnaval; o ritmo constante e denso dá a impressão da passagem ´tumultuada´ de blocos carnavalescos, que é o que constitui, de certa forma, cada capítulo. O discurso do narrador, em 3ª pessoa, predominantemente no pretérito imperfeito do indicativo, um tempo que expressa um fato passado contínuo, coloca o leitor diante de acontecimentos passados, mas de incerta localização no tempo: tudo se passou e parece estar ainda se passando. A idéia de simultaneidade está presente, sobretudo, na quinta parte, quando os capítulos enfocam especialmente um personagem (ou um par), o que é reiterado pela alternância de vozes: o narrador fala e faz ecoar a voz dos personagens, por meio da mistura contínua dos discursos indireto e indireto livre.

Embora o Zuza apareça no início e no desfecho da narrativa, o enredo não tem personagem central - todos estão inseridos no mesmo enfoque delirante do narrador onisciente - a protagonista da obra é a própria vida. Os personagens aparecem invariavelmente submetidos a situações que transpõem a racionalidade, imersos num mundo surreal, que tem a sua própria lei: a do absurdo. Não há nenhum questionamento por parte deles sobre o delírio em que vivem; a transgressão da normalidade aparece como natural. Os acontecimentos que fazem o enredo estão, pois, libertos das exigências da lógica e da razão, vão além da consciência cotidiana e se expressam através do desvario: ´Montado num dromedário, Aluísio passeava pelas ruas de Palma. Seguiam-nos outros dromendários, cavalgados por seus amigos de Brasília. Iam pela Avenida Dom Bosco, no rumo da matriz /.../ Súbito os animais se punham a correr pelas ruas, em desabalada carreira. ´Sou Lawrence da Arábia. Vocês não me acham parecido com Omar Sharif?´. Aos gritos uma multidão de meninos corria atrás da caravana.´ (p.125).

De fato, exatamente como preceitua o manifesto surrealista, ´Carnavalha´ rejeita ´a chamada ditadura da razão e os valores burgueses. Humor, sonho e contra-lógica são recursos a serem utilizados para libertar o homem da existência utilitária. Segundo a nova ordem, as idéias de bom gosto e decoro devem ser subvertidas´. Essa filiação não está apenas no conteúdo, mas na própria forma: percebe-se que ´o impulso criativo artístico se dá através do fluxo de consciência despejado sobre a obra´. Há uma ´avalanche´ de situações que se sucedem, literalmente regurgitadas pelo narrador, e nenhuma obedece à lógica referencial.

Na sexta parte, os fatos surreais são interrompidos, e o bêbado Zuza volta às atenções ao perturbar, com a inconveniência e a sinceridade dos ébrios, conterrâneos e visitantes que brincam o carnaval. Durante o tão esperado baile no balneário, seu corpo aparece boiando na piscina. No capítulo ´As Cinzas´, simbólico porque marca o fim do carnaval e o fim também do carnavalesco Zuza, todos são interrogados pelo delegado Pedro Cabral. O romance termina com a descrição do baile e a fala do Zuza, em cima do palco: ´canalha, carnalha, canaval, canavalha, carnavalha, carnavalma, carvalha, canavialha, carnavialma, bando de canalhas, macacos, cambada de farsantes´ (p.173). A orquestra pára, as luzes apagam e sons conexos e desconexos ressoam na multidão. Como no capítulo anterior sabe-se que o Zuza morreu, supõe-se que tenha sido esse o seu momento final. Nenhuma elucidação do crime, entretanto, é dada ao leitor: suicídio? Assassinato? O romance termina.

Fora das fronteiras do Fantástico, gênero tão bem exercitado em obras anteriores do autor, ´Carnavalha´ é um romance ousado, subversivo da ordem e dos cânones tradicionais. O irônico se mistura ao trágico e ao cômico e cria um universo simbólico pleno de representações. Nilto Maciel demonstra total domínio do texto ficcional, autonomia e capacidade de brincar com as coisas sérias. Daí ser impossível ler ´Carnavalha´ e não referir, também, Bakhtin e sua teoria sobre a ´carnavalização´ na obra literária. Embora na obra do Nilto o cômico esteja ligado ao trágico - há muito sofrimento, num desmascaramento das agruras da própria existência - nela o carnaval representa a festa dos loucos (festum stultorum) e predomina o realismo grotesco de que fala Bakhtin; há muitas imagens deformadas e exagero, há confusão e dissolução de identidades e a total liberdade de transgredir, inclusive a lógica.

ROMANCE

Carnavalha
Nilton Maciel 
BESTIÁRIO
2007
R$ 20

AÍLA SAMPAIO
Professora


A autora é professora do Curso de Letras da Unifor