Arte livre, muros ocupados

Coletivos de artistas e artesãos ocupam prédio abandonado no Bairro de Fátima: grupo recebe hoje e amanhã outros agitadores culturais para exposição no lugar
Coletivos de artistas e artesãos ocupam prédio abandonado no Bairro de Fátima: grupo recebe hoje e amanhã outros agitadores culturais para exposição no lugar FOTO: WALESKA SANTIAGO
O prédio de uma fábrica abandonada há mais de 10 anos, no bairro de Fátima, será transformado hoje e amanhã em espaço de exposição de coletivos de arte urbana

Do ócio dos terrenos desocupados, depósitos de entulho e prédios abandonados, das zonas cegas em que a Cidade passa despercebida, os coletivos arte urbana fazem espaço de sua criação, intervindo criativamente e transformando ruína em arte. Ocupada desde março de 2010, após um hiato de pelo menos 10 anos de abandono, a antiga fábrica de cera de carnaúba da rua Dom Sebastião Leme, nº345, foi transformada em moradia e espaço cultural, abrigando biblioteca, sala de exposições, horta, serigrafia e promovendo ações culturais como cineclube, debates e oficinas práticas de malabares, teatro, cordel, zine e artesanato.

Hoje e amanhã, o local recebe diversos artistas e coletivos de artes gráficas, convidados a apropriarem-se de suas estruturas, muros, tetos, batentes, e convertê-los em espaço de suas criações. Batizado de Espaço Cultural Squatt Torém, o lugar abriga um grupo de cerca de 15 pessoas, que moram, promovem arte e articulam-se política, social e culturalmente.

"Estamos cumprindo a função social desse espaço. Quando entendermos que de nada somo donos, teremos tudo", anunciam as frases de cunho libertário estendidas na fachada do prédio. O articulador da exposição é o artista plástico Alexandre Mourão. Ele explica que a ideia é montar uma mostra de acordo com o que a arte urbana se propõe. Ocupando um espaço da cidade e montando a mostra ao passo em que a mesma já encontra-se em exposição.

"A arte urbana inter-dialoga mais com a cidade, pensa a arte a partir de outros espaços" defende Alexandre. Ele é estudante de arte visuais, curso licenciatura, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (Ifce), e atualmente faz parte do grupo Aparecidos Políticos, que trabalha intervenções visuais a partir da relação entre arte e política.

Convidados

Há seis meses, Alexandre fez uma exposição individual na fábrica ocupada pelo grupo Squatt Torém reunindo suas pinturas em tela sob o título Especulação Cotidiana. "A ideia agora é levar pessoal pra lá para fazer intervenções" diz o artista, lembrando que, como não se trata de uma exposição formal, a mostra é organizada de forma espontânea e coletiva, não se podendo precisar quem de fato estará expondo no dia.

Entre os convidados diretamente por Alexandre, estão o Grupo Acidum, o Selo Coletivo, o grupo Vermelho, além de artistas convidados individualmente, fotógrafos e alunos do Ifce. Ele ressalta, no entanto, que o convite é aberto e qualquer um pode participar.

"A gente viu o convite na internet. Sabemos que é um espaço ocupado que vem chamando atenção para transformar prédios abandonados em espaço útil, espaço cultural" disseram os integrantes do Grupo Acidum, que pretendem participar da mostra. Eles explicam que as ações do grupo visam expandir os espaços da arte, trabalhando em lugares que tradicionalmente não são artísticos. "Queremos chamar atenção que a arte pode ser colocada em locais do dia-dia, entrar no cotidiano das pessoas de forma mais efetiva", defende o coletivo.

Ocupação

Além da exposição, no sábado serão realizadas na antiga fábrica oficinas de malabares e de construção de jardim vertical - uma espécie de estante feita de garrafas pet utilizadas para o plantio de pequenas plantas; e no domingo, uma conversa sobre mitos do parto. Tudo em consonância com os ideais libertários de seus ocupantes, de defesa do meio ambiente e estilo de vida alternativo, tentando não reproduzir as práticas contra as quais lutam.

"A importância de um espaço desses é mostrar que todo lugar tem que cumprir sua função social. É um ato político contra a falta de moradia, contra a especulação imobiliária. Aqui nos defendemos nossos ideais de viver de forma simples e coletivamente", explica Flávio Bezerra, de 23 anos. Ele deixou a casa dos pais na Barra do Ceará para participar do ato coletivo.

Flávio e a amiga, Daniele Souza, 21 anos, também ocupante do prédio, recordam a trajetória do lugar em sua ainda breve história, de pouco mais de um ano. "Ocupamos por necessidade de moradia e como ponto para realizarmos nossas ações culturais", explicam. Os dois lembram que quando chegaram no prédio, o local estava tomado por lixo e era ponto de consumo de drogas.

"O terreno ameaçava as pessoas que moram em volta. Fizemos um mutirão de limpeza com ajuda de vizinhos, que cederam água, material de limpeza, cimento, energia, etc", lembram. Eles explicam que o apoio dos vizinhos foi conseguido ao poucos, a medida que eles percebiam as melhorias no local com a chegada dos artistas, e também por meio de ações culturais que promoviam na Praça de Fátima, que fica próxima ao prédio.

Hoje o espaço tem placa de energia solar e mantém uma biblioteca de cerca de 400 títulos, conseguidos por meio de doações; uma horta, onde cultivam plantas medicinais e hortaliças; serigrafia, para produção de camisetas estilizadas, que são vendidas e ajudam no sustendo do grupo; e um espaço para discussão onde realizam as oficinas, intervenções artísticas e promovem encontro de um grupo estudos políticos para debater temas como realidade social, racismo e homofobia.

O Squatt Torém está inserido dentro de uma gama de grupos que promovem ações pontuais, seja ligadas às artes, aos trabalho social, à comunicação, ações ambientais e articulam-se entre si formando uma espécie de rede alternativa. "Não temos líder, as tarefas são divididas. Sem machismo, nem homofobia, minimizando os danos ao meio ambiente, reciclando, reutilizando. É a forma que encontramos de viver de forma a não reproduzir o que lutamos contra", resumem.

FÁBIO MARQUES
ESPECIAL PARA O CADERNO 3