A máscara do rock

Crítico musical traça um panorama histórico do rock teatral, ressaltando seus principais personagens e performances. Numa análise que envolve cultura pop, música e filosofia

Como todas as expressões que sustentam a palavra "rock", o "rock teatral" carrega uma série de contradições, desacordos e mal-entendidos, que só aumentam o seu apelo e ampliam sua influência na cena mainstream contemporânea. Sob esta nomenclatura podem-se alocar desde as viagens lisérgicas do Grateful Dead à ficção científica de Kanye West, passando por David Bowie, Michael Jackson, Madonna e uma infinidade de artistas que se valem do expediente pirotécnico para comunicar o seu trabalho musical.

E, no entanto, atribui-se a Alice Cooper a invenção desta forma de expressão. Cooper se notabilizou a partir de 1969, por seus concertos performáticos inspirados em filmes de terror, que levaram animais vivos, bonecas vodu, guilhotinas, cadeiras elétricas e muito sangue aos palcos do mundo. O roqueiro ficou conhecido como o inventor do shock rock, mas parece que a história não se deu exatamente da forma como contam.

Alguns anos antes, um outro cantor e ator norte-americano obteve um contrato de gravação e resolveu apostar em uma de suas baladas. Os músicos que o acompanhavam se admiraram tanto da canção que resolveram gravá-la sob a influência singela de uma viagem de ácido. Registrada em 1956, "I Put a Spell on You" é o maior sucesso de Screamin´ Jay Hawkins, americano de Cleveland, um dos inventores do rock´n´roll, e também um de seus grandes personagens. E não é sem motivo que há quem afirme ser Screamin´ Jay Hawkins o verdadeiro criador do shock rock.

Consta que Hawkins esqueceu a performance alucinada, e foi obrigado a decorar a gravação para repeti-la em shows e programas de tevê. "I Put a Spell on You" teve um segunda edição, remodelada com o intuito de atenuar os grunhidos e urros emitidos por Hawkins, que, para a mentalidade da época, transmitiam um claro apelo sexual. A partir de então, suas apresentações foram contaminadas pelo elemento performático. Reza a lenda que o disk-jockey norte-americano Alan Freed, conhecido por ser o criador do termo "rock´n´roll", teria oferecido 300 dólares à Hawkins para sair de dentro de um caixão no palco…

E o que dizer da insanidade tresloucada de Little Richard? Ele subia e descia do piano, martelando as teclas com o calcanhar, lançando caretas e fazendo barulho para uma plateia majoritariamente branca e moralmente conturbada. Tenho para mim que nenhum outro roqueiro foi tão transgressor quanto Little Richard. E não só porque ele alardeava seu charme gay, negro, ruidoso, desbocado, indisciplinado, junkie, tudo isso em meados da década de 50, num país tomado pela intolerância racial e política. Mas, sobretudo, porque soube se utilizar de todas as máscaras possíveis a seu favor, e não há nada mais "teatral" do que a consciência da "máscara".

Secos & Molhados

No Brasil, a "descoberta" recente do projeto capixaba Os Mamíferos chamou atenção para algumas questões ligadas à performance na música brasileira. Através do filho de um dos ex-integrantes da banda, Os Mamíferos vem buscando o reconhecimento do papel de vanguarda desempenhado na cultura brasileira de meados dos anos 60. Consta que já usavam máscaras naquela época, antes do Secos & Molhados e do Kiss, que agora ganham mais um concorrente pelo pioneirismo no uso das máscaras no rock´n´roll. Tal descoberta indica que a junção entre performance, espetáculo, tecnologia e, é claro, música, já acontecia no Brasil, e está longe de constituir um privilégio do rock dos EUA da década de 70.

Cerca de um século antes, na Alemanha de Bismarck e do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, Richard Wagner construía Bayreuth, o grande teatro que resgataria os valores da antiguidade e salvaria a cultura alemã do vazio dos chamados "valores modernos". Wagner enaltecia uma "Arte total", que se exprimiria por meio da combinação prodigiosa de diversas possibilidades artísticas, e que, tal como na tragédia grega, estaria fincada nos mais profundos e verdadeiros mitos populares alemães, desempenhando um papel efetivo na construção da unidade cultural germânica.

Ao menos, esta era a epifania que Nietzsche e Wagner partilhavam, com um sentimento para além do fervor político. Evidentemente, Bayreuth ruiu, não só porque Nietzsche abandonara o barco em 1878, desiludido com nacionalismo e o antissemitismo de Wagner, mas sobretudo porque a magnitude do projeto - que previa uma apresentação de música, poesia, teatro, canto, dança, artes visuais - não coube no bolso da produção. Bem antes que o poder do rock´n´roll conduzisse uma multidão de jovens à loucura, a ópera wagneriana já se degenerava à luz do dia, preconizando sua própria ruína e desgraça.

Quando desejava expor um de seus argumentos contra a noção cartesiana de "livre-arbítrio", Nietzsche se referia à uma característica da alma humana que vale citar (os grifos são do autor): "Toda filosofia também esconde uma filosofia, toda opinião é também um esconderijo, toda palavra também uma máscara". Ora, se tudo no comportamento humano é jogo de máscaras, ao contrário do que apregoa a doutrina cartesiana, então onde se "esconde" a tal da verdade se não no exercício contumaz do jogo? A verdade "verdadeira" é que não somos o que pensamos ser, não somos o que dizemos que somos, e o que somos nos escapa, na maioria das vezes. Talvez seja a arte mesma, como "arte das máscaras", a expressão mais evidente desta característica humana, demasiado humana.

Mas será que nos referimos ao teatro wagneriano quando usamos a expressão "rock teatral"? Sob o seu amplo leque estão abrigados desde o rock "vaudeville" do Oingo Boingo a performances experimentais dos Residents, David Bowie e Mr. Bungle. Não esquecendo dos representantes da black music, como Michael Jackson, Parliament/Funkadelic, Kanye West, Janelle Monáe, herdeiros diretos de Hawkins e Richards. Mas, afinal, o que representa o tal do "rock teatral"?

O que teria levado os Beatles a desistir das apresentações ao vivo a partir de 1966, após lançarem o álbum "Revolver"? Entre os motivos alegados pela banda, se levaria em consideração a impossibilidade técnica de execução das complexas produções de George Martin, não só em "Revolver", mas nos discos posteriores, como "Magical Mistery Tour" e "Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band".

Nunca me contentei com essa resposta. Para mim, os Beatles cessaram as apresentações porque não dispunham do aparato tecnológico do Pink Floyd ou de outros mega-artistas. Caso contrário, certamente assistiríamos a Henry, The Horse dançando "a valsa", e Lucy iria literalmente para o céu, entre brumas e diamantes…

Assim, de uma forma mais ou menos consentida, o "teatral" na expressão "rock teatral" passou a significar algo próximo à estética da Broadway, repleto de plumas, paetês e exuberância técnica. Se considerarmos apenas os exemplos que se estabeleceram consensualmente sob o rótulo do "rock teatral", isto é, manifestações tomadas por pequenas inserções dramáticas e efeitos especiais, chega-se à grande influência do vaudeville, como em tantos outros aspectos da cultura americana. O vaudeville constituiu um verdadeiro tubo de ensaio que, ao desenvolver-se nos EUA a partir do fim do século XIX, consolidou o know-how que estruturaria a indústria cultural americana no século XX. Esta contribuição tomou Hollywood de assalto, através dos musicais norte-americanos, e confluiu para as artes cênicas e os concertos de música pop e rock.

Não se trata simplesmente do "rock teatral", portanto, mas de uma característica dita "teatral" dos grandes espetáculos de música em geral. Poderíamos até precisá-la de forma mais rigorosa: trata-se de um elemento dramático, que confere o peso de um grande acontecimento aos números musicais. Mas esse procedimento não esgota a teatralidade do rock, pois ele parece seguir rumos inesperados, buscando sua dramaticidade em outros embates - sociais, culturais e políticos -, que não os que são travados no show business. E isto torna ainda mais distante o sentido "teatral", quando aplicado a artistas com máscaras e intenções completamente diferentes, tais como Little Richard e Alice Cooper.Pesquisador, crítico musical e professor de Filosofia no IFCS-UFRJ

BERNARDO OLIVEIRA*
ESPECIAL PARA O CADERNO 3