A força que nunca seca

Oito anos depois da estréia, Edisca retoma a saga sertaneja de “Duas Estações” em temporada no TJA

Oemblemático ano 2000 ainda nem havia chegado. Então, navegando pela internet, a coreógrafa Dora Andrade, idealizadora da Escola de Dança e Integração Social para Crianças e Adolescentes (Edisca), se espantara com uma notícia. “Fiquei muito chocada quando fiquei sabendo que um grupo de skinheads em São Paulo estava propondo queimar nordestinos”, lembra. Diante disso, a reação foi imediata: “Ali, ainda estava obcecada por uma idéia de construção de espetáculos que não fossem mero entretenimento. Rapidamente, pensei em montar algo que pudesse mobilizar uma reflexão e, ao mesmo tempo, servir como estímulo à valorização das nossas pertenças, à nossa identidade nordestina”. Assim, viera ao mundo “Duas Estações”.

Contrariando os já oito anos desde sua estréia, a produção continua a impressionar por sua atualidade. Em muito, porque a realidade a que se opõe continua a imperar. Como exemplo, fica o episódio recente em que, também em São Paulo, um grupo de jovens foi preso por espancar um rapaz negro (além de mutilar um policial que o tentara socorrer) com o mesmo argumento com que se propunha queimar nordestinos anos atrás. Para Dora Andrade, sem dúvida, está aí mais um indício de que “Duas Estações” volta aos palcos em boa hora. “Algumas coisas não podem ser assimiladas como mera informação. A gente não pode ler ou assistir a uma notícia sem uma interpretação crítica. Um fato noticiado nunca é único, individual. Esses casos de violência e discriminação acontecem aos milhares no Brasil e a gente não pode, nem deve, se conformar. É preciso reagir”, afirma.

É como instrumento de reação, sobretudo, que a Escola de Dança e Integração Social para Crianças e Adolescentes tem explorado a experiência artística ao longo dos últimos 17 anos. “Desde o princípio, a razão pela qual a gente dança tem uma dimensão de provocação muito forte. Nenhum dos nossos espetáculos tem a arte como um espaço simplesmente estético. Na Edisca, o belo assume uma compreensão social, uma compreensão ética”, observa Dora Andrade. “Meu desejo ao criar é mobilizar responsabilidades. Ao elevar o absurdamente miserável à condição de arte, quero, na verdade, chamar atenção para a vida desses meninos e meninas fora dos palcos. O bailarino da Edisca que o público aplaude com tanto entusiasmo é o mesmo menino e menina que esse mesmo público vira o rosto na calçada do teatro ao lhe pedirem um trocado. Minha vontade é construir um olhar mais humano para essas crianças, que, se podem brilhar como artistas, podem também brilhar em outras esferas, desde que lhes sejam oferecidas as devidas oportunidades”, argumenta.

Na seqüência de “Jangurussu” (1995) e “Koi Guera” (1997), “Duas Estações” veio reafirmar a qualidade da assinatura cênica da Edisca, ao passo que contribuiu para redimensionar decisivamente o processo criativo dos educandos assistidos pela instituição. Dessa vez, Dora e Gilano Andrade (seu irmão e assistente coreográfico) contaram com o apoio de uma equipe de colaboradores referenciais: o figurino é assinado pelo estilista Lino Villaventura, a música é de autoria do instrumentista Manassés de Sousa e o cenário e a concepção cênica tiveram desenvolvimento do artista plástico Dantas Suassuna, filho de Ariano, também ele consultor do espetáculo. “Nossas produções são o nosso patrimônio. São elas que nos permitem avaliar a maturidade do nosso pensamento e a nossa maturidade criativa. No caso de ‘Duas Estações’, a diferença é que o processo de composição não foi restrito às questões da dança. Na época, todo o cotidiano da Edisca se voltou para o projeto”, comenta Dora Andrade.

Com isso, até mesmo o cardápio oferecido aos aprendizes de bailarino foi transformado pela montagem. O elogio ao aparentemente típico, no entanto, não impedia uma reflexão mais crítica acerca dos valores identitários. Dora Andrade diz, por exemplo, que o universo da religiosidade popular foi muito questionado no decorrer da montagem. “‘Duas Estações’ tem uma dimensão provocadora inclusive para quem está em cena. O orgulho de ser nordestino que a gente queria aguçar não podia inibir uma indignação necessária à nossa pobreza ou às nossas altas taxas de mortalidade infantil. A valorização da identidade não pode turvar nossa criticidade diante da vida. Algumas coisas que são lidas como mero motivo de orgulho, deveriam, sim, ser motivo de revolta”, justifica a coreógrafa.

Pioneira no Ceará e reconhecida em todo o Brasil no desenvolvimento de trabalhos artísticos na esfera do chamado terceiro setor, Dora Andrade lamenta que os afazeres burocráticos tenham limitado sua criação nos últimos anos. Segundo a coreógrafa, a razão para tal está no fato de os investimentos públicos e privados voltados para as organizações não-governamentais terem diminuído drasticamente, contrastando com o aumento considerável de exigências e contrapartidas. “Não é pertinente para a Edisca ter uma bailarina doente ou analfabeta, então não podemos oferecer apenas aulas de dança. É essencial também serviços médicos e educacionais”, pontua. Assim, mais uma vez, é preciso inovar. Antes que dias piores cheguem, a Edisca aproveita a retomada de “Duas Estações” para lançar um novo mecanismo de captação de recursos: a central de doações através do telefone (85) 3401 0000. Há de o sertão voltar a florescer.

INVESTIMENTO

1,2 mi de reais é o montante necessário para a realização das atividades anuais da Edisca junto aos seus 400 educandos, além de seus familiares.

IMPRESSÕES

'Por mais distante, o errante navegante. Quem jamais te esqueceria, Nordeste?´.

'Gostaria muito de estar dançando no lugar de vocês´.

'Vocês são o espetáculo. Vocês são as ´Duas Estações´: vida e renascimento. Parabéns!´.

'Do regional para o universal. Um espetáculo digno do mundo´.

'A verdadeira arte é fazer tudo com amor. Eis a Edisca´.

'Eu já estou fora do teatro, mas meu coração está ainda com vocês. Foi e é isso que sinto sempre que danço com vocês´.

'Quem não vive para servir não serve para viver. Vocês servem a si e aos nossos olhos. Que Deus as abençoe´.

'As borboletas tomaram conta do meu corpo todo depois de tanta emoção´.

'O Ceará tem coisas que até o cearense duvida´.

'Deixei lágrimas no teatro que me lavaram a alma. Já fui uma menina como vocês´.

'Meu coração bateu mais forte´.

'Minha alma nordestina rejubila-se nesse espetáculo de todas as estações: das dores, das alegrias, de todas as cores´.

'A vocês, todo o meu orgulho-dor-alegria de ser cearense´.

'Parabéns é pouco para um espetáculo não só para os nossos olhos, mas principalmente para nossos corações. Vocês são um exemplo de construção de um mundo melhor´.

'Mais uma vez, vocês fecharam o tempo´.

'O mais bonito de tudo é a alegria e a força de vocês porque é tudo verdade´.

Os depoimentos acima foram tirados do livro de registros que a Edisca disponibiliza aos seus espectadores em todas as suas temporadas.

Magela Lima
Repórter

Mais informações:

A Escola de Dança e Integração Social para Crianças e Adolescentes (Edisca) apresenta o espetáculo ´Duas Estações´ hoje (às 21h), amanhã (às 18h e 21h) e domingo (às 18h e 20h) no Theatro José de Alencar. Ingressos: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia). Contato: 3101 2583.