A fantasia salta aos olhos

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O Arranca-Língua, uma das criaturas descritas e ilustradas no "Abecedário de personagens do folclore brasileiro", de Januária Cristina Alves e Berje

A proposta dos editores de "Abecedário de personagens do folclore brasileiro" é a de que o livro tenha um público transgeracional. "No lançamento que fizemos, em São Paulo, víamos avós comprando os livros para os netos e dizendo que iam ler para eles, que eram histórias que eles mesmos tinham ouvido quando crianças", conta a autora, Januária Cristina Alves.

Ainda que a base de sua pesquisa seja bibliográfica, recorrendo aos registros de folcloristas, antropólogos, historiadores, Januária escapa da monotonia que, muitas vezes, marca o texto acadêmico. Escritora, com experiência em trabalhos voltados para o público jovem, ela dá a suas descrições um sabor literário. Ciente de que suas palavras também fazem parte da trajetória destas histórias fantásticas, imprime um estilo ao recontar os feitos, aventuras e desventuras dos personagens por ela elencados.

> Lançamento de livro com o abecedário de personagens do folclore brasileiro

Tão acostumados ao fantástico hollywoodiano, de filmes, séries de TV e internet, quadrinhos e games, às vezes não nos damos conta de quão instigantes e estranhas são as criaturas inventadas pela imaginação brasileira. "Abecedário" parece uma enciclopédia de terror cósmico, com direito a mortos-vivos; animais não catalogados pela ciência - e cuja biologia desafia os sábios da razão; seres mágicos, capazes de malefícios ou traquinagens moralizantes; sereias; princesas; guerreiros; o próprio Diabo; e assombrações de toda ordem.

O texto é complementado com ilustrações do artista visual Cezar Berje. "De muitos destes personagens, nós não conseguimos encontrar nenhuma interpretação visual", conta Januária. A autora, junto da responsável pelo projeto gráfico, Flávia Castanheira, auxiliaram Berje a chegar ao resultado que salta aos olhos.

Além do "Abecedário", Januária e Berje assinam quatro volumes sobre o folclore, para o público infantil, pela FTD. As obras seguem as categorizações de criaturas estabelecidas pela autora.

Contemporâneo

"Abecedário" foi desenvolvido pela extinta editora Cosac Naify, famosa por sua excelência gráfica. O projeto, mantido pelas Edições Sesc-SP e FTB, editora do livro, valorizam a arte de Berje.

Nascido no interior de São Paulo, o artista também foi tocado pelo imaginário fantástico. "Guararema (onde ele nasceu) era tão interior, que lembro da diretora da escola falando na sala, de forma muito séria, sobre a ameaça do chupa-cabra e de as aulas serem canceladas por isso", conta. Com um trabalho marcado por referências da cultura urbana, em especial dos anos 1980, do grafite, skate, dos quadrinhos e hip-hop, Berje tem uma estética muito autoral, com imagens bem mais pesadas do que aquelas feitas para o "Abecedário". No livro, ele parece criar um estilo paralelo, que harmoniza visualmente as criaturas, como se elas pertencessem a um mesmo universo ficcional, de uma revista em quadrinhos, por exemplo.

"Nos bastidores, existiu um treino da minha parte. Antes de fazer o desenho, eu pensava em como seriam as proporções, os olhos, em como faria as mãos... Isso pra fechar bem essa 'linguagem'", explica. O trabalho é um atrativo à parte do livro. A arte de Berje lembra a de Joe Coleman, artista norte-americano que recria cenas grotescas de crimes. Berje faz o imaginário parecer ainda mais grotesco.