A excelência de Paul

O Diário do Nordeste conferiu, em BH, o show que o ex-beatle faz na quinta-feira, na Arena Castelão, em Fortaleza

Paul McCartney comemora seus 71 no próximo mês de junho, assumindo uma postura elegante, madura, que nem de longe lembra vovôs atléticos e elétricos como Mick Jagger, Iggy Pop e Steven Tyler.

Ex-beatle faz show de estreia da nova turnê pelo Brasil em MG fotos: marcos hermes/ divulgação

Mas isso não quer dizer que as piadas quanto à idade da estrela da Out There! Tour tenham algum fundo de verdade. Antes, são indícios da falta de informação dos detratores.

A turnê mundial que o ex-beatle começou sábado em Belo Horizonte (MG) é a quinta em cinco anos. Algo que nenhum de seus pares faz, preferindo intervalos longos entre uma excursão e outra.

No Brasil, o show ainda passou por Goiânia, na segunda-feira, antes de chegar a Fortaleza. Amanhã, como todo mundo já sabe, o cantor se apresenta na Arena Castelão. Tudo aquilo que os beatlemaníacos repetem como mantra é verdade - são 36 canções em quase três horas de show, nada de enrolação e com Paul McCartney mantendo a pose, sem um copo d´água sequer para aliviar as cordas vocais e o corpo.

Canções

O show de Fortaleza deve seguir ponto a ponto o roteiro da apresentação de BH - incluindo duas inéditas, a excelente "Being For The Benefit Of Mr. Kite" (puro Beatles) e a razoável "Lovely Rita", que devem entrar no novo álbum solo do artista. Os connoisseurs, no entanto, afirmam que o público pode esperar pequenas alterações no set list, já que McCartney é dado a essas trocas de uma data para outra.

Um DJ aquece a plateia com uma seleção de rocks antigos e fartas doses de repertório do quarteto de Liverpool. Os telões entram em atividade, num jorro de imagens que reconstitui as sete décadas de vida e as cinco e meia de carreira do astro da noite. Nessa hora, todo mundo já arrisca cantar junto.

Quando entrou no palco, em Minas, Paul foi direto ao ponto: abriu com Beatles. "8 days a week" quase é soterrada pelo coro de dezenas de milhares de pessoas, além dos que expressam a emoção aos urros. Até a metade do show, alterna canções próprias com hits de sua antiga banda; depois se detém no repertório mais antigo e faz os fãs mais sensíveis chorarem.

É realmente difícil dizer qual o ponto alto do show. Na verdade, é duro encontrar um ponto fraco, em que você arrisque ir ao banheiro ou sair para comprar uma cerveja.

Num recorte bem pessoal, apontaria as enérgicas "Paperback Writer", "Day Tripper" e "Helter Skelter" como as que tiram qualquer um do chão; "The Long and Winding Road", "Hope of Deliverance", "And I Love Her" e "Blackbird" do tipo para se cantar junto e levantar a mão com o isqueiro ou (mais recentemente) o celular para fazer uma onda luminosa no estádio; e a quadra "Back In The USSR", "Let It Be", "Live And Let Die" e "Hey Jude" para converter os não-beatlemaníacos ao credo.

Paul não é do tipo que corre de ponta a ponta do palco, mas tampouco é daqueles que dá espaço demais à banda de apoio para esticar a apresentação. Tem carisma para amolecer o coração do mais mal humorado de seus detratores. E tem o talento raro de fazer um show perfeito, mesmo que você não traga na ponta da língua metade de seu repertório solo.

Atencioso

A grandiosidade dos concertos da Out There! Tour tem poucos pares mundo afora. Não é um circo como o das divas pop que precisam compensar talento raquítico com parafernálias de luxo. Está mais próximo do que fazem os Rolling Stones e o U2: o principal é a música e os recursos hi-tech são usados em benefício dela.

Tudo funciona à perfeição: o repertório, que combina hits da carreira solo (ainda que exclua sucessos ultrarradiofônicos, como "Ebony & Ivory" e "No more lonely night"); a banda, que troca de funções, sempre mantendo o alto padrão da execução dos arranjos; a iluminação; o som; e os telões.

Esxes, aliás, merecem um comentário à parte. Ao todo, são quatro. Os dois laterais, com a altura de um prédio de oito metros, vão garantir a felicidade de quem estiver mais distante do palco, pois usam tecnologia HD (acredite, é melhor do que aquela TV cara que você comprou para a sala de estar).

Outro fica por trás da banda, servindo para projeção de efeitos, vídeos antigos, fotos: tudo interagindo com as canções tocadas pela turma do ex-beatle. Por fim, há um telão no chão. Quando as câmeras captam Paul de cima, ele parece caminhar num tapete psicodélico à "Yellow Submarine" (o filme de animação dos Fab Four que você deve ver ou rever).

A excelência técnica dos recursos audiovisuais não é mero detalhe. Antes, mostram a preocupação do artista com o público.

O show de McCartney não é daqueles que precarizam os lugares mais baratos e praticamente lhe obrigam a gastar muito para ver o show com alguma qualidade. Claro, quem ficar de cara para o artista terá muitas vantagens, mas certamente não será o único a se divertir.

DELLANO RIOS
*ENVIADO A BELO HORIZONTE

*O jornalista viajou a convite da Arte Produções

Mais informações

Turnê Paul McCartney Out There! Dia 9, quinta-feira, na Arena Castelão (Avenida Alberto Craveiro, 2901). Abertura dos portões: 17h30. Início do show: 21h. Ingressos: www.ingresso.com Contato: (85) 3033.1010