A crítica literária pelos caminhos da poesia

José Telles lança nova livro. “A palavra descalça” reúne diálogo com obras de escritores contemporâneos

A poesia é a terceira dimensão do alter ego materializado. Ela é divina – é assim que define essa forma de linguagem literária o poeta e médico cearense José Telles. Após escrever sete obras em versos, agora do autor envereda pela prosa poética.

O escritor cearense José Telles: “você nasce poeta” FOTO: MIGUEL PORTELA (22/12/2006)

Sua incursão está materializada no livro “A palavra descalça”, lançado esta semana. Na obra, composta por 159 páginas, o autor analisa à luz da poesia, obras de vários autores, como por exemplo, do poeta cearense José Alcides Pinto (1923 - 2008), do amazonense Jorge Tufic, do poeta Carlos Augusto Viana (editor do caderno Ler, do Diário do Nordeste), do escritor e jornalista Lustosa da Costa (1938 - 2012) e do poeta Dimas Macedo.

Integrante da Academia Cearense de Letras (ACL), Telles festeja o seu amadurecimento no campo da poesia, expressão artística que cultiva desde a infância. “Você nasce poeta”, revela. A criação é ininterrupta. Para o segundo semestre deste ano, o poeta promete um novo livro, com poemas inéditos.

Versatilidade

Mostrando versatilidade, o autor apresenta críticas escritas em inglês e francês. “Sou poeta poliglota e isso facilita a minha vida”, conta. A desenvoltura com que transita por outras línguas faz com que alguns colegas peçam para que escreva cartas para autores franceses ou tradutores.

A pedido do autor, o texto sobre Dimas Macedo é escrito em francês. A articulação do discurso do poeta, reunindo conhecimento e erudição, ganha ainda mais dinamismo quando o assunto é poesia. “Faço uma incursão romântica dentro da poesia”, diz fazendo referência ao livro “A palavra descalça”, que remonta sobretudo à crítica literária, mas sem a “dureza” da crítica acadêmica, avisa.

Uma leitura agradável, com textos concisos e sensíveis. “O amadurecimento do autor acontece quando ele é capaz de cortar o seu texto”, analisa, completando que, muitas vezes, é preciso retirar partes de uma escrita. E esta é uma das principais características dos textos poéticos, quando o mínimo pode ser tudo.

Companheiros

Assim, lançando mão a uma prosa denominada de “afetiva e poética”, o autor passeia pela poesia ou pelas narrativas de alguns autores, citando, ainda, Pedro Henrique Saraiva Leão, Giselda Medeiros e Fernanda Quinderé. O prefácio é assinado por Linhares Filho, integrante da ACL, e a obra é dedicada a Vinícius Barros Leal, que ocupava a cadeira 34, hoje, ocupada pelo autor.

O professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) Geraldo Jesuíno é autor do projeto gráfico, capa e lustrações, que merecem destaque pela simplicidade e delicadeza. Numa demonstração de que narrativa literária e design gráfico caminham juntos. José Telles nasceu na Vila de Bitupitá, litoral Oeste do Ceará, e integra a diretoria da Sociedade de Médicos Escritores (Sobrames), sendo presidente da Academia de Letras e Artes do Nordeste. É diretor do departamento de cultura do Ideal Clube. Entre os títulos publicados: “Conversando” (1996), “Poemas Estivais” (1997), “Sermões de Pradaria” (2001), “O lacre do silêncio” (2007), todos de poesia. Na sua opinião é difícil analisar a poesia, que expressa a grandeza das palavras.

Conforme José Telles, a pessoa nasce poeta e a técnica vem com o amadurecimento laborativo e da linguagem. Em outras palavras, através da leitura e do conhecimento sobre literatura. Destaca a importância do uso preciso da palavra que ganha sonoridade. “Poesia sem sonoridade e sem a dimensão especial da palavra não é poesia”, ressalta. No caso, a pessoa faz versos ou poemas. Considera fundamental a fuga do lugar comum, ressaltando a importância da metáfora, que considera “o invisível da poesia”.

No texto “Trilogia dos mortos”, o autor analisa a escrita de José Alcides Pinto (1923-2008). Remonta ao livro “Tempo dos mortos”, afirmando que o autor “sai do regionalismo, onde é senhor de borla e capelo, e mergulha nas raias do existencialismo, nas entranhas da alma, na liturgia do corpo, e se aproxima ora de Deus, ora do Diabo”. Na sua opinião, “Tempos dos mortos” deve ser lido em silêncio e com o rigor da releituras críticas.

Afirma: “bem-aventurados os que conhecem profundamente a obra de Alcides”. Analisa a obra “Os guardanapos”, do escritor amazonense Jorge Tufic, e confessa estar maravilhado com os poemas. “São de belíssima linhagem e, por capilaridade, guardam em si, uma rara homogeneidade poética”.

A análise poética do autor, desenvolve-se, ainda, pela narrativa do jornalista e escritor cearense Lustosa da Costa na obra “Contos de Sobral e de outros sítios”. Fala sobre a concepção gráfica do livro, afirmando que a capa “veste, harmonicamente, o texto como se fora a silhueta da narrativa”. Afirma que “são contos romanceados, bem caricaturados, dentro de uma realidade provisória, ora ficção, ora suprarrealidade”, avalia.

Linhares Filho, na apresentação da obra, revela: “O poeta e médico José Telles tem-se destacado em nosso meio cultural e científico, ora na qualidade de anestesista de renome, ora sendo poeta de expressão vigorosa”.

Destaca sua participação em diversas entidades sócio-culturais, bem como o seu crescimento no campo literário, em especial, na poesia, referindo-se ao lirismo da sua poética. Agora, o poeta surge como prosador e crítico, que analisa as obras literárias com o olhar de poeta.

Iracema Sales
Repórter