Grupo XIX de Teatro, de São Paulo, é o primeiro convidado do Projeto CumpliCidades, que o TJA inicia a partir de hoje
O trocadilho, de fato, caiu como uma luva. Simples e potente, a idéia do estreante Projeto CumpliCidades, novidade na programação do veterano Theatro José de Alencar, é aproximar artistas e grupos dos mais variados destinos, reforçando a dimensão coletiva da criação teatral. “Esse é o único caminho que nos resta”, resume o diretor Thiago Arrais, responsável pela idealização do programa. “O título define bem nossas intenções. Estamos buscando estabelecer, ou restabelecer, uma característica essencial ao teatro desde seus primórdios. Sozinho, é impossível se fazer teatro. Por isso, estamos apostando nesse estímulo ao encontro, ao diálogo, à necessidade de organização”, completa.
Thiago Arrais vai além e ressalta ainda que uma das questões que se pretende pôr em evidencia até o próximo sábado é a necessidade de a produção teatral interagir de forma mais audaciosa com o meio em que está inserida. “É evidente: todas as vezes que o teatro se mostrou forte ao longo dos tempos, ele o fez porque absorveu a realidade de forma mais expressiva”, argumenta o diretor. Assim, o Projeto CumpliCidades entra em cena, recebendo a visita de um dos mais representativos coletivos do recente teatro brasileiro, sobretudo quando o assunto é o incremento da interface entre encenação e espaço urbano.
“Não escolhemos o Grupo XIX à toa. Na verdade, é uma provocação da curadoria”, reconhece Thiago Arrais. “O XIX é uma companhia não só das mais engajadas na transformação que o teatro de São Paulo vem experimentando recentemente, como também se caracteriza por uma radicalização do perfil espetacular do teatro. No XIX, o teatro extrapola o lugar que lhe tem sido destinado historicamente. Ele sai da caixa cênica oficial e ganha as ruas, as praças... Isso, sem dúvida, desperta para uma poética nova, que força o teatro a construir novas relações, tanto internas, no que diz respeito aos próprios artistas, como externas, com os públicos e o próprio meio”, justifica o diretor.
Novo tempo
Independente, apesar de assumido e realizado pelo Theatro José de Alencar, o Projeto CumpliCidades, segundo Thiago Arrais, sinaliza para um momento singular no panorama teatral local. “Estamos vivendo um despertar para um movimento de coletividade mais acentuada, apesar de a individualização ainda ser uma marca muito recorrente do teatro cearense. Aqui, a gente ainda se encontra muito pouco, mas sinto que as novas gerações vêm se empenhando em transformar isso. Sinto hoje uma predisposição muito maior ao diálogo, à formação de grupos, à mobilização política, à participação... Sinto que o teatro cearense pode, a partir de agora, romper com certas estruturas hierárquicas com que sempre conviveu”, observa.
Dentre as quais, afirma Thiago Arrais, o nada discreto alumbramento com eixo cultural Rio de Janeiro-São Paulo é uma das mais equivocadas. “Enfim, o teatro cearense deixa de se assumir como migratório e passa a compreender a possibilidade de trânsito. A regra hoje já não é mais sair do Ceará para fazer teatro, mas, sim, inserir o Ceará numa rede criativa maior, mais ampla”, sustenta. No bojo das provocações que o Projeto CumpliCidades enfoca, a defesa pela troca de experiências assume dimensão de destaque. Até sábado próximo, juntam-se aos dos espetáculos trazidos pelo Grupo XIX nada menos que oito produções locais. Além das apresentações, oficinas e debates têm lugar garantido. A conferir.
Mais informações:
A primeira edição do Projeto CumpliCidades acontece de hoje a sábado próximo no Theatro José de Alencar. Entrada franca. Contato: 3101 2583.
PROGRAMAÇÃO
Hoje
9h: Abertura com os fóruns: ´O teatro de grupo de São Paulo nos últimos 10 anos´ e ´O teatro do Ceará nos últimos 10 anos´. Foyer
17h: Espetáculo ´Hygiene´, do Grupo XIX (São Paulo/SP). Calçada do TJA
20h: Espetáculo ´Bravíssimo!´, do Grupo Pesquisa (Fortaleza/CE). Sala Nadi Papi Saboya
Amanhã
10h: Debate sobre espetáculos do dia anterior.Teatro Morro do Ouro
16h30: Espetáculo ´Hysteria´, do Grupo XIX (São Paulo/SP). Foyer
19h: ´Um comedor de Ópio´, solo de Ceronha Pontes (Fortaleza/CE) e ´Ato II´I, solo de Mário Cruz Filho (Fortaleza/CE). Teatro Morro do Ouro
20h: Espetáculo ´Rizomachadiano´, Grupo Humanos Espaço-Tempo (Juazeiro do Norte, Caririaçu, Crato/CE e São Paulo/SP). Sala Nadi Papi Saboya
Quinta-feira
10h: Debate sobre espetáculos do dia anterior. Teatro Morro do Ouro
18h: Espetáculo ´Meire Love´, do Grupo Bagaceira de Teatro (Fortaleza/CE).Teatro Morro do Ouro
20h: Espetáculo ´Solo Número 1 - Babel´, de João Andrade Joca (Fortaleza/CE). Sala Nadi Papi Saboya
Sexta-feira
10h: Debate sobre espetáculos do dia anterior. Teatro Morro do Ouro
21h: Espetáculo ´Uma Flor de Dama´, solo de Silvero Pereira (Aquiraz/CE). Porão do TJA
Sábado
Debate sobre espetáculos do dia anterior.Teatro Morro do Ouro
17h: Espetáculo ´Hygiene´, do Grupo XIX (São Paulo/SP). Calçada do TJA
20h: Espetáculo ´O Cantil´, do Grupo Teatro Máquina (Fortaleza/CE). Palco principal
MAGELA LIMA
Repórter
A cidade como palco
Por Redação,