Unilab do Ceará terá política afirmativa de cotas voltada para a comunidade cigana

Pela primeira vez, o Estado irá garantir cotas para a população cigana em uma Instituição pública, segundo aponta membros do Instituto Cigano Brasil

Legenda: A estudante, Flor Fontenele, é uma das duas alunas autointituladas ciganas da Unilab e vê a inclusão das cotas como uma grande conquista para seu povo
Foto: Arquivo pessoal

Neste mês, a comunidade cigana caminha um passo a mais em direção à garantia de direitos, com a inclusão de seu povo nas políticas de cotas da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab). Após portaria de número 438, assinada pelo reitor Roque do Nascimento Albuquerque na última segunda-feira (19), foi instituído um Grupo de Trabalho para elaborar ações inclusivas na Instituição. 

No Ceará, são contabilizados cerca de 20 mil ciganos, somente da etnia Calon, distribuídos em pelo menos 60 municípios, conforme o presidente do Instituto Cigano Brasil (ICB), cigano Calon, Rogério Ribeiro. Para ele, o acesso de seu povo abrangendo não somente sua etnia, mas outras que também estão presentes no Estado, é de “extrema importância” para reduzir desigualdades históricas e incentivar a entrada e permanência da comunidade em espaços do ensino superior. 

“Cerca de 70% dos ciganos são analfabetos. Então isso é um incentivo e essa grandeza de uma instituição como a Unilab atender também o povo cigano, porque como temos a demanda, serve de inspiração para que outras instituições possam usar esse critério”, compartilha. 

De acordo com o reitor da Unilab, também da etnia Calon, o foco da ação é poder dar assistência aos grupos em situação de vulnerabilidade e historicamente excluídos do ensino superior. Os ciganos, por sua história, também foram contemplados para o programa de cotas e essa inclusão, para ele, é “de suma importância”.

“Eu sou um cigano e me tornei o primeiro reitor cigano em uma universidade pública no Brasil. Incluir os ciganos é uma correção histórica, é importante que saibam que estamos aqui e que existimos. Somos capazes. Se eu cheguei, outros podem chegar. É marco”, declara. 

Impacto

A cigana do subgrupo Rom, Kalderash, Flor Fontenele é uma das duas estudantes auto-intituladas ciganas que atualmente estão na Unilab Ceará. O acesso foi conquistado após se aplicar na ampla concorrência, mas compreende as dificuldades de conseguir ocupar e permanecer naquele espaço. Defensora dos direitos de crianças e adolescentes em situação de rua, optou por cursar Bacharelado em Humanidades, estando hoje no 4º semestre. 

“Para o povo cigano é uma conquista tremenda, enorme. Os povos ciganos chegaram no Brasil em 1574, estamos há centenas de anos e não existe política pública efetiva para a população cigana”, explica. 

Agora, compondo o GT, está comprometida a identificar o número de ciganos com ensino médio concluído, “serão os futuros estudantes que poderão acessar essas cotas”, e realizar reuniões para traçar as diretrizes do programa. “A nossa defesa nesse momento é que seja um edital específico, ou seja, que ciganos concorram com outros ciganos por essas vagas”, finaliza. 

Grupo de Trabalho

O GT é responsável pela  “elaboração das diretrizes, critérios de seleção, vagas e permanência das populações contempladas no Programa de Ações Afirmativas da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira”, conforme consta na portaria da Unilab. Segundo o pró-reitor de Políticas Afirmativas e Estudantis da Instituição, James Moura, o grupo visa garantir a inclusão de grupo minorizados e a pluralidade dentro do ensino superior. 

“As ações afirmativas têm um papel de um processo de reparação histórica das desigualdades de acesso de ensino. Apesar das políticas de cotas existirem, precisa avançar e contemplar outros grupos que também foram historicamente marginalizados no sentido de acesso ao ensino superior”, declara James Moura. 

Durante a fase inicial de planejamento, também serão definidos os critérios de seleção dos grupos específicos. Além dos ciganos, devem ser contemplados outros grupos identitários, como indígenas e quilombolas.

O GT possui um prazo de 60 dias para apresentar um documento a fim de direcionar, de modo mais prático, as políticas afirmativas. Após a finalização do GT em janeiro, as propostas ainda passarão por trâmites internos e jurídicos dentro da Unilab, não havendo, portanto, um prazo efetivo para o início de adoção das cotas. 

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