Sem poder receber visitas de familiares, idosos matam a saudade através de videochamada

No Abrigo Sagrado Coração de Jesus, em Sobral, as chamadas de vídeo acontecem semanalmente e amenizam a falta de convívio social

Legenda: Idosos de abrigo em Sobral são assistidos com videochamadas para amenizar a saudade da família
Foto: Divulgação

A saudade é um sentimento muito latente durante este período de isolamento social por causa da Covid-19. Alguns profissionais da saúde, por exemplo, estão há mais de três meses longe de seus familiares com medo de contagiar aqueles que mais amam. Como grupo de risco, os 33 idosos acolhidos no Abrigo Sagrado Coração de Jesus, em Sobral também compartilham desta sensação já que tiveram, como prevenção, as visitas de parentes e amigos suspensas. Para amenizar a distância, a instituição tem realizado videochamadas semanais que proporcionam conforto e alegria.  

A ideia partiu da assistente social Yana Linhares, que trabalha na instituição. “Os idosos que recebiam visitas com frequência estavam tristes”, lembra. No dia 19 de março, o Abrigo deixou de receber visitantes e, além disso, interrompeu outros momentos de socialização entre seus acolhidos, como a missa e a reza do terço. “Eles tinham uma vida social ativa (lá dentro). Foi cortado tudo”, completa.  

No dia 19, o Abrigo Sagrado Coração de Jesus emitiu uma nota circular para todos os familiares informando sobre a suspensão das visitas. O corretor de imóveis Cláudio Figueiredo, mesmo assim, ainda foi no dia seguinte tentar ver sua mãe, dona Marlene Figueiredo, de 81 anos, mas sua ida foi em vão. De lá, saiu chorando por estar perto de sua genitora e não poder abraçá-la.  

Esse sentimento motivou Yana que, inicialmente, realizou videochamadas com cinco idosos. Um dos primeiros familiares a receber o contato foi o próprio Cláudio. “Foi uma ideia brilhante. Neste momento negativo histórico, de isolamento, é a saída. Principalmente idosos, que são grupo de risco. A gente quer visitar o parente, mas não pode para não causar este risco. Aí a tecnologia veio favorecer. Foi fantástico!”, conta.  

Foi através deste recurso tecnológico que dona Marlene viu pela primeira vez, através da tela de um celular, suas bisnetas, gêmeas de apenas três meses de idade. “Ela amou. Fica mais esperançosa. Para ela é uma alegria que não tem tamanho. A gente coloca minha família, esposa, netos. É um recurso barato”, enfatiza Cláudio.  

A iniciativa passou a ficar regular e acontece toda sexta-feira, a partir das 15 horas. De cinco, o número de idosos assistidos passou para 12. De manhã, é feito o primeiro contato para confirmar a chamada à tarde. “Para não criar expectativa”, explica Yana. As ligações de vídeo acontecem para parentes que moram também em outras cidades e até outros estados. Os idosos conversam em locais reservados, para ficar mais à vontade. 

A aposentada Lourdes Aguiar, de 79 anos, há 11 meses mora no Abrigo e sem a visita da família e amigos, conta que “fica um pedaço ruim”, descreve. Seu filho, Júlio, é sua maior saudade. “Minha felicidade é ele”, conta. Através do vídeo, também ameniza a ausência dos netos, Maria Julia, 8, e Cauê, 17. “Eles falam ‘Vovó, tô com saudade’”, se emociona.  

A coordenadora do Abrigo Sagrado Coração de Jesus, Antônia Rodrigues Tavares, explica que a videochamada é uma forma de amenizar a ruptura da rotina dos idosos, que logo cedo acompanhavam a missa juntos, seguiam com o terço e depois com as atividades de recreação, coordenadas pela pedagoga. 

Com a pandemia, houve o distanciamento e o contato entre eles foi diminuído. “Mas nunca deixamos muito distantes para manter aquele convívio”, pontua. Ainda é mantido atividades como música e a exibição de filmes, desenhos animados e shows ao vivo, através de datashow. “Tem esse momento de diversão para não mantê-los solitários, tristes”, completa.