Pacientes com úlceras abertas são tratados e têm bons resultados com planta no CE

Pacientes com úlceras abertas por anos foram tratados com biomembrana capaz de sarar lesões com mais rapidez e de forma mais barata

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As pesquisas foram coordenadas pelos professores doutores Márcio Ramos e Nylane de Alencar, do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM). Natinho Rodrigues

Uma alternativa mais eficaz para o tratamento de úlceras em decorrência da hanseníase foi desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) em um estudo com a planta conhecida como 'ciúme' e 'algodeiro-de-seda'.

Pacientes com úlceras abertas há quase uma década tiveram as feridas fechadas em torno de três meses e os estudiosos esperam expandir a técnica para diabéticos.

Do laboratório, onde se passaram 20 anos de dedicação, surgiu a descoberta que traz cura mais rápida por meio de uma biomembrana criada no projeto vinculado aos programas de pós-graduação da UFC de farmacologia e de bioquímica.

A pesquisa com a espécie invasora, encontrada com facilidade na capital cearense, começaram com o objetivo de entender quais as propriedades da planta. Foi verificada a capacidade de curar feridas e, na sequência, foram realizados testes para o tratamento de úlceras em decorrência da hanseníase e desenvolvido um tipo de curativo com potencial regenerador.

“Nós começamos a estudar essas amostras e vimos que elas tinham um poder de cicatrização em feridas de animais e, depois de comprovar que elas eram capazes de regenerar feridas em animais, aí nós procuramos um modelo realístico, clínico, humano na qual pudesse ser aplicada”, explica Márcio Ramos, professor do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da UFC.

Tratamento para quem tem hanseníase

Na lentidão do tratamento convencional da hanseníase, alguns pacientes desistem pela descrença da cura ou por dificuldades financeiras. “Imagina o que é se deslocar até o centro de saúde, duas ou três vezes por semana, para fazer um curativo e a limpeza sem que ele veja o progresso para a cura da ferida. O que nós sabemos é que têm mais pacientes com mais de cinco anos com a ferida aberta e fazendo tratamento”, reflete Márcio.

Os pacientes em tratamento da hanseníase têm dificuldades no processo de cicatrização das feridas, muitos não utilizam calçados adequados ou possuem outras adversidades devido às baixas condições socioeconômicas, como lista o professor.

“Nós permanecemos com ele (enfermo) por 60 dias e nós já tivemos vários pacientes que atingiram a cura, a cicatrização completa, fazendo o protocolo da gente”

Outras enfermidades difíceis de tratamento, como é caso nos pacientes de diabetes, também podem ser tratadas com o princípio. No entanto, ainda são necessários outros testes.

“O que tem na biomembrana é o agente que faz com que o processo de cicatrização seja favorecido e aí, se você somar um agente que propicia a cicatrização, se os curativos são feitos de maneira adequada, se o paciente tem o protocolo todo seguido, a chance de cicatrização aumenta muito”, destaca.

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A pesquisa com a espécie invasora, encontrada com facilidade na capital cearense, começaram com o objetivo de entender quais as propriedades da planta. Natinho Rodrigues

Vantagens da biomembrana

As aplicações da biomembrana começaram há três anos e foram tratadas cerca de 20 úlceras, em pacientes que apresentavam mais de um ferimento.

“Algumas, dependendo do tamanho, com um mês podem fechar. O que é um tempo muito bom porque os pacientes convivem com essas úlceras há anos”, acrescenta Marília Nunes, doutoranda em farmacologia e participante da pesquisa.

Além da celeridade na cicatrização, o método é de fácil aplicação e mais barato - só um curativo normal pode chegar à R$ 70 - do que o tratamento convencional. Por ser de base vegetal, não há reações adversas no corpo dos pacientes, como explica Marília.

“O tratamento para hanseníase é a base de antibióticos, de seis meses a um ano, (mas) pode chegar a dois anos. O tratamento da úlcera é focado na cicatrização, tanto que essa biomembrana pode ser utilizado em outras úlceras”, reforça.

Tratamento

Na qualidade de vida dos pacientes os benefícios superam o bem-estar físico quando se pode retornar às atividades como sair de casa ou praticar esportes. “Alguns puderam viajar, visitar parentes, ir a praia, eles relatam isso para gente, que estão conseguindo se ressocializar e isso é muito gratificante para o nosso trabalho”, conta Marília Nunes.

Essa melhora de vida é notória na fala da aposentada Eugênia Lima, de 70 anos, que tinha um ferimento aberto por volta de nove anos na parte inferior do pé direito, mesmo após encerrar o uso da medicação contra a hanseníase. “Um dia e outro não, se chovesse ou fizesse sol, eu ia (na unidade de saúde). Com uma semana que eu comecei a fazer o tratamento da membrana eu fui fazer o curativo e ficaram admirados porque eles bateram fotos de antes e depois”.

Até então, os convites para ficar com o filho que vive no Rio Grande do Norte eram constantemente negados devido ao ferimento. “Era muito chato ficar fazendo os curativos. Mas agora cicatrizou e eu não tenho mais inchaços no pé”, explica. “Eu louvo a Deus por ter feito esse tratamento. Quase todos os dias eu tinha que tomar remédio para dor quando eu tinha essa enfermidade”, conclui.

Produção em larga escala

Para ampliar a capacidade de atendimento dos pacientes com hanseníase foi solicitado ao Ministério da Saúde a aplicação da técnica nas unidades de saúde pública. “Nós já tentamos financiamento para fazer isso pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e nosso projeto não foi aceito”, conta o professor Márcio. 

“A pesquisa brasileira se encerra sempre assim, você pesquisa, descobre as potencialidades, quando ela pode ser efetivamente útil, falta o apoio e tudo fica parado” 

Em nota, o Ministério da Saúde informou que o projeto "não alcançou nota para a aprovação" na Chamada Pública.