Grupo arrecada livros para doar a detentos do sistema prisional do Ceará

O projeto já está em seu quarto ano de execução, e já tem ajudado a preencher bibliotecas em todo o sistema carcerário

Legenda: A campanha, que acontece desde 2016, já arrecadou mais de 15 mil livros. Em 2020, recebe doações até o dia 28 de agosto.
Foto: Arquivo Pessoal/ Grupo Cristão Mãos de Luz

Um dos poderes mais reconhecidos de transformação vem através da educação e dos livros, e é acreditando nisso que o Grupo Cristão Mãos de Luz arrecada livros de literatura para pessoas privadas de liberdade. A campanha, que tem parceria com o projeto “Livro Aberto”, da Secretaria de Administração Presidiária do Ceará (SAP), tem a meta de arrecadar cerca de 2.000 livros neste ano e segue recebendo doações até o dia 28 de agosto. 

A campanha, que acontece desde 2016, já arrecadou cerca de 15.400 livros e tem um impacto positivo entre os detentos, já que cada livro tem uma estimativa de ser lido por dois deles.

“Eu conversei com um desembargador porque eu queria um projeto que incluísse detentos, e ele falou ‘olha tem um projeto muito interessante, chamado projeto Livro Aberto, que tem esse perfil’. Eu me informei, vi que é um projeto muito bem sucedido e com alto índice de ressocialização e entrei em contato com a Secretaria”, conta José Ricardo de Figueiredo, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e presidente do grupo Mãos de Luz. 

O projeto Livro Aberto, apoiado pela campanha, funciona da seguinte maneira: o detento tem prazo de até 30 dias para apresentar uma resenha da leitura do livro, que deve ser feito de forma individual e presencial. O texto tem que ter nota mínima 6,0 para ser aprovada pela Secretaria de Educação do Estado do Ceará (Seduc).

Depois, a resenha é levada para a vara judicial e assim será avaliada a redução da pena. Ao final de 12 obras lidas e avaliadas, ele terá a possibilidade de reduzir 48 dias no prazo de 12 meses da pena.

Resistência

O professor também destaca que o grupo Mãos de Luz não tem nenhuma bandeira religiosa ou política, e que hoje congrega espíritas, católicos e evangélicos em prol de fazer o bem ao próximo. A equipe segue linhas de trabalho que atendem seis grupos vulneráveis, dentre eles os detentos.

“De todas as caravanas que a gente faz, e fazemos seis caravanas por ano, uma a cada dois meses, para atender um grupo vulnerável de cada vez, esse é o que a gente enfrenta mais resistência”, aponta o presidente do grupo. 

“A resistência é porque existe aquele preconceito em relação ao detento, aqueles que dizem que eles não devem ser ajudados, aqueles pensamentos radicais. Então nós pensamos ‘sim, nós vamos fazer esse projeto’ e levar para frente porque, como professor, eu acredito que a educação é a única forma importante de ressocialização”, destaca José Ricardo. 

O pensamento é o mesmo da jovem Laritza Lima, voluntária no projeto que já participou de várias caravanas. “Tem uma passagem na Bíblia que destaca que temos que ajudar as pessoas, incluindo os prisioneiros”, aponta. “Com a criação da bibliotecas e o incentivo à educação, muitos presos estão conseguindo fazer Enem pelo sistema carcerário, estão conseguindo se alfabetizar e a gente sabe que a questão da educação é um oportunidade de abrir a mente e vislumbrar algo, que muitas vezes, ela não conseguia”, pontua. 

Outro grupo beneficiado    

Hoje, o projeto repassa para as bibliotecas do sistema prisional livros de literatura com temáticas de romance, suspense e ficção. “São livros mais grossos, que eles possam ler e resumir de forma adequada”, explica Laritza. Já os livros que não se encaixam nessas categorias são repassados para outro público que também se beneficia: o dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). 

“No sistema CAPS, eles têm uma grande atuação sobre os adictos - pessoas com alguma espécie de vício - seja de drogas ou de álcool, e ainda tem os outros pacientes com problemas psicológicos, seja adulto ou infantil. Então, a gente sabe que, ajudando também nessas bibliotecas do CAPS, ia favorecer também esses adictos, e de repente esse grupo vulnerável não adentrar nesse sistema carcerário, no futuro”, relata Laritza. 

Pelo modelo, os livros são utilizados, muitas vezes, pelos psicólogos, sendo recomendados para parte da terapia. Além disso também ajuda a entreter essas pessoas, que muitas vezes, estão enfrentando uma fase difícil da vida. 

Transformação 

De acordo com o presidente do grupo, José Ricardo, a campanha não transforma apenas as vida dos detentos, que recebem esses livros,  mas também o dia a dia de quem tem se dedicado a esse projeto. “Foi um combate ao preconceito. Eu nunca tinha entrado em um presídio, e eu fui lá, conhecer a situação dos detentos, interagir com eles. Levei alguns alunos, outros professores, então foi uma mudança de mentalidade muito interessante”, frisa. 

Como reflexão pessoal, para a voluntária Laritza, o projeto também foi importante porque aquelas pessoas privadas da liberdade, por crimes cometidos, passaram a ser mais do que números. “Me fez saber que ali dentro, tem pessoas querendo uma segunda chance, que estão juntas a esse projeto do Livro Aberto. São essas pessoas que sonham em sair da prisão e ter uma oportunidade de ser alguém melhor, conquistar a ressocialização”, conclui. 

O grupo fará uma live, no próxima quinta-feira (06), às 17h30, para tirar dúvidas sobre a ação. O evento contará com a presença de representante da SAP, e do presidente do grupo, José Ricardo.