Atendimentos online em época de pandemia: relato pessoal de uma psicoterapeuta

Já perdi as contas de quantas pessoas estão tendo suas sessões dentro do banheiro, no carro parado na garagem, na cobertura do prédio, no jardim da casa, no quintal, enfim, longe dos outros moradores

Legenda: Isolamento social imposto diante da Covid-19 pode gerar detestabilidade emocional
Foto: Foto: Márcio Dornelles

É incontestável que a pandemia de COVID-19 nos impõe novos modos de ser, novos modos de trabalhar. Meu trabalho como psicoterapeuta também sofreu alterações no momento atual. Sem pedir licença, a pandemia me privou de meu consultório e me inseriu em atendimentos exclusivamente à distância, por vídeo-chamada.

A modalidade de atendimentos online é regulamentada pelo Conselho Federal de Psicologia, possui suas nuances e não é uma grande novidade no “mundo Psi”. Entretanto, a maioria de nós, psicólogos, eu inclusa, priorizava os atendimentos presenciais. Atender à distância era algo excepcional, reservado para casos específicos, como, por exemplo, pessoas que moravam fora do país, que estavam viajando, com locomoção reduzida, entre outros.

Como sentir, como proceder e como acolher este novo cenário que nos foi imposto? Seria impossível entender como me sinto hoje, trabalhando exclusivamente online, sem relembrar como tudo era vivido até o turbulento mês de março.

De segunda à sexta-feira ia ao meu consultório, um lugar projetado para ser acolhedor, em uma localização conveniente para mim. Na antessala, há uma diversidade de livros: de arte, de poemas e, até mesmo, de quadrinhos – me sinto bem rodeada deles. Possuía um ritual ao chegar: abria sala, ligava o som e deixava tocando uma playlist com músicas de jazz e folk escolhidas a dedo. Era como uma dose de ânimo antes de iniciar os atendimentos e a jornada diária. Fazia um café, ou chá, e checava se havia chocolates ou bombons na antessala, afinal, eu sempre gostava que meus pacientes tivessem uma doce espera.

Por fim, espalhava uma fragrância pelo consultório: o aroma de pitanga. Era o cheiro do meu trabalho, pitanga. Uma sala de 33 metros quadrados, testemunha de tantas histórias de vida e testemunha de minha própria trajetória pessoal. Eu, que havia morado em um apartamento de 28 metros quadrados, estava ali trabalhando em uma sala maior do que fora meu lar. Aquele lugar me renovava o fôlego, sentia como se eu tivesse no lugar certo. Era a vida me dizendo “continua, é isso mesmo...”.

A recepção de cada paciente, um a um, era especial. Alguns chegavam bem antes do horário combinado e diziam: “gosto de ficar na antessala, escuto música e penso nas pautas de nossa sessão”. Quantas vezes escutei “qual é esse aroma da sala?”. Tudo vivenciado com muito amor: a linguagem corporal de cada paciente, a direção dos pés, as pernas inquietas ao abordarem algumas questões, o abraçar das almofadas, os lencinhos para enxugarem suas lágrimas, a roupa escolhida para o nosso encontro, o abraço ao final da sessão. O consultório era como um templo para receber e acolher o que considero de mais sagrado nesse mundo: seres humanos.

Antes do isolamento ser decretado, começaram as mudanças: álcool em gel passou a fazer parte da antessala, alguns pacientes começaram a ir de máscara, o abraço já não era adequado, pedi compreensão – “é para nosso próprio bem”, repetia. Abri, então, a possibilidade de atendimentos online para todos os pacientes, alguns acataram com prontidão, outros continuaram a ir ao consultório.

Eis, então, que a quarentena foi decretada. Novamente peço compreensão e aviso que todos os atendimentos serão exclusivamente online – “é para nosso próprio bem”, repetia. A vida não nos prepara para tudo, como ficariam meus atendimentos sem meu ritual, sem o cheiro de pitanga ou a música de fundo na antessala? Não era somente sobre atender exclusivamente online, era também sobre não atender mais em meu local de trabalho.

Portanto, tive que criar, meios às pressas, um novo ambiente de trabalho no escritório de casa. Por sorte, moro em um apartamento de três cômodos, dividido apenas com meu esposo. Um quarto virou meu local de trabalho, outro virou o escritório dele e nosso quarto permaneceu intacto. Consegui, então, dentro de casa, um ambiente adequado para os atendimentos, boa conexão e a privacidade necessária. Entretanto, será que todos os pacientes possuíam essa “sorte” de uma estrutura propícia para a psicoterapia?

A maioria de meus pacientes desfruta de um ambiente confortável para realizar suas sessões online, um lugar em que possa falar em privacidade sem ser interrompido. Porém, essa não é a realidade de todos. Alguns pacientes que migraram para os atendimentos online não possuem privacidade em suas casas, mas, nem por isso, quiseram interromper seus processos terapêuticos em meio ao caos da pandemia, que, como sabemos, tem gerado ansiedade em inúmeras pessoas.

Portanto, de algum modo, estes pacientes precisavam encontrar a privacidade adequada e um lugar reservado para expor suas demandas. Os locais que eles elegeram foram os mais inusitados. Lugares que eu jamais pensei que os atenderia. Já perdi as contas de quantas pessoas estão tendo suas sessões dentro do banheiro, no carro parado na garagem, na cobertura do prédio, no jardim da casa, no quintal, enfim, longe dos outros moradores. As mães de crianças até cinco anos são um caso à parte – parece um grande feito conseguirem ficar 50 minutos em psicoterapia sem serem interrompidas por seus filhos. “Manhêêê”, ao fundo, já virou rotina.

Precisamos, ainda, para os atendimentos realizados por meio de vídeo-chamadas, de uma boa conexão com internet. A maioria de meus pacientes possui um bom sinal de rede. Contudo, nesta semana, uma situação me tocou bastante. Enquanto falhava, sem parar, a conexão de uma paciente, eu, então, a disse que, infelizmente, teríamos que encerrar o atendimento, já que a sessão dela estava sendo prejudicada. Ela, logo em seguida, perguntou: “Dra... podemos, então, conversar ao telefone? Preciso falar.”

Certamente estes não são os cenários ideais, mas em tempos de pandemia, haveria como exigirmos um? São tempos atípicos e precisamos lidar, portanto, com cenários atípicos. Em busca do ideal, de todas as nuances de um atendimento presencial, corremos o risco de nos desconectar do real possível, imperfeito, mas, ainda assim, transformador.

Sabia que perderia a percepção completa da linguagem corporal do paciente, mas não havia me dado conta da riqueza que é adentramos um espaço tão significativo para eles: suas casas. Muitos querem mostrar seus quartos, locais de estudo, nos mostram objetos, alguns, finalmente, puderam me apresentar suas coleções, suas plantas – que conhecia por fotos... E até mesmo os filhos entram nessa lista. Muitos dizem, ao final da sessão: “posso mostrar meu filho para a senhora?”. Ao mostrarem seus espaços, objetos e filhos, estão mostrando componentes de suas vidas. Perdemos a totalidade da linguagem corporal, mas ganhamos espaços jamais imaginados.

O debate acerca da psicoterapia online é antigo. Apesar de estudos comprovarem sua eficácia, muitos psicólogos se mostram, ainda, resistentes, mas não sem motivos – a maior parte das faculdades de psicologia não possui disciplinas voltadas para essa modalidade, de modo que o aprendizado é feito de forma empírica.

Sendo assim, a busca por informações e referências é realizada por conta própria, e os psicólogos, geralmente, tendem a pesquisar em fontes de alguns países estrangeiros, nos quais a prática já é usual há bastante tempo.

Alguns questionam: terapia online funciona? Respondo: assim como na presencial, depende do seu engajamento no processo terapêutico. Ninguém “recebe” terapia. Nós a fazemos juntos, é um trabalho a dois, artesanal. E só para constar: o engajamento e criatividade de meus pacientes nesse período me fizeram até mesmo esquecer o aroma de pitanga.

 

Maria Camila Moura
Psicóloga (UFC), mestre em Psicologia e doutoranda em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC).
CRP: 11/09333


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