Amor em tempos difíceis pede reinvenção

Dizem que, quando passamos por tempos difíceis, o amor pode ser revolucionário

A pandemia e a quarentena continuam, com os muitos desafios que temos enfrentando em todas as áreas, e não podia ser diferente com o amor. O amor, em toda a sua expressão e vivência, tem passado pelo seu caminho estreito. Amar do jeito que conhecíamos, vendo, abraçando, beijando, tocando, se tornou algo a ser evitado, sinal de perigo. Seres sociais e afetivos que somos, o distanciamento físico das pessoas que amamos nos deixa tristes, saudosos, carentes. 

A quarentena, que já dura quase três meses, nos impacta emocionalmente, nos deixando mais estressados, à flor da pele. Não veremos restaurante lotados no Dia dos Namorados, mas posso dizer que vi recentemente, na minha rua, uma “Loucura de Amor”, daquelas com carro de som e balões, como se fazia antigamente. Pois é, o amor não acabou, mas está em todo o seu estilo “é o que temos pra hoje!”. 

Certamente, há um desafio novo: os encontros presenciais, as visitas costumeiras, o ambiente externo de encontros e paquera perderam seu lugar, ou pelo menos a frequência que tinham. As ferramentas tecnológicas figuram com as mediadoras dos encontros possíveis, engrossando o caldo da configuração virtual da experiência de amar. O amor tudo suportará?

Nada como tempos difíceis e crises para pôr algo à prova. Vemos notícias de que os divórcios aumentaram. Mas também de que casamentos se restauraram. Paixões esfriaram, outras estão na agonia da abstinência, outras precisaram desse tempo e espaço para se valorizarem. Relacionamentos começaram. As crises testam, denunciam o que já estava frágil, nos pede que entregue o velho e, por fim, nos convoca ao novo. 

A situação que estamos vivendo é nova e tudo o que estamos fazendo atualmente tem um pouco (ou muito) de incomum. Não estamos trabalhando, ou trabalhando de casa, mais ou menos que o usual, no meio de dever de criança, limpeza da casa, live, videochamadas. Parece que a gente não pode perder nada, a fim de corresponder à expectativa que nos colocamos de atingir certo nível de produtividade, estar informado, exercitado, atualizado, amado. Mas a pergunta é: estamos nos amando?

A primeira relação que precisa estar saudável para que nossas relações com os outros sejam saudáveis e possam suportar perrengues (ou apocalipses!) é a relação que estabelecemos com nós mesmos. Quando dizem que a pandemia causou o alvoroço emocional em suas vidas, desconfio. Sim, há desafios novos, mas nossas emoções e nosso código pessoal para lidar com eles já existiam e continuarão existindo, se não nos propusermos a transformá-los.

Vale fazermos da circunstância um convite para nos conhecermos mais e melhor a cada dia, fortalecendo a relação com nós mesmos. Afinal, olhar para dentro e ver como estamos reagindo diante dos acontecimentos e do que eles nos fazem sentir é fundamental para lidarmos mais saudavelmente com as nossas relações. 

Quanto às relações com os outros, o convite é para não nos agarrarmos a narrativas prontas, do tipo “não existe namoro que resista sem o contato físico”; “agora as relações vão se perder nas câmeras e teclados” etc. Pode ser tudo isso e nada disso. O fato é que o amor também pede reinvenção, e que ela possa ser tão livre e vasta quanto ele é. 

O interesse genuíno pode aprender a lidar com a falta de contato, tanto é que relações à distância sempre existiram. Pode não suportar também. Não podemos dizer que uma relação não irá superar a pandemia, muito menos afirmar que uma relação que superou a quarentena superará tudo. Como saber? Esse é um mistério que só pode ser vivido e descoberto pelos que se relacionam. Eles, sim, poderão construir suas próprias narrativas para que, mesmo sentindo falta um do outro, não seja o amor aquele que falta. Dizem que, quando passamos por tempos difíceis, o amor pode ser revolucionário. Agora, sendo o amor a encarar obstáculos, que possamos nós revolucioná-lo também!

Érica Bandeira Machado
Psicóloga clínica e sócia-diretora da Artesania Psicologia Analítica
CRP: 11/05642


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