Projeto Elas: Diário do Nordeste lança estudo inédito sobre medos das mulheres no Ceará
A pesquisa ouviu 2.032 mulheres, a partir de 16 anos, moradoras da Capital e mais 76 municípios.
Em um grupo de dez pessoas no Ceará, sete se sentem inseguras todos os dias só por serem quem são — na rua, no ônibus, no trabalho e até em casa. Qual é o gênero delas? A obviedade da resposta prova uma realidade dura: ser mulher, no Estado ou em qualquer lugar, exige coragem.
A estatística é uma das que compõem a pesquisa “Mulher Coragem, os medos e demandas das mulheres cearenses por segurança”, realizada em 2025, como parte do Projeto Elas, do Diário do Nordeste, que a partir deste mês publica a série de reportagens “Mulher Coragem”. O especial é todo baseado no documento, encomendado pelo jornal ao Instituto Patrícia Galvão e executado pelo instituto Ipsos-Ipec, com o patrocínio da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece).
O estudo ouviu 2.032 meninas e mulheres de 16 anos ou mais de idade, moradoras de 77 municípios cearenses, entre os dias 1º e 14 de outubro de 2025.
Além delas, especialistas e autoridades inseridas no contexto das múltiplas violações contra a mulher foram consultadas, em entrevistas aprofundadas, para analisar o cenário cearense, as raízes da violência e apontar as soluções para combatê-la.
As reportagens publicadas a partir dos próximos dias abordam temas como o temor da violência sexual, dentro e fora de casa; as barreiras superadas para que a vítima denuncie e consiga, junto ao poder público, romper o ciclo violento; e os relatos dessas mulheres.
CAMPANHA DE CONSCIENTIZAÇÃO
Uma novidade da mais recente edição do Projeto Elas foi a promoção de ações educativas a fim de informar e educar crianças e adolescentes sobre igualdade de gênero e prevenção da violência.
As atividades reuniram alunos, professores e gestores em 21 escolas públicas municipais de Fortaleza e estaduais, sendo 15 em Fortaleza, duas em Juazeiro do Norte, duas em Barbalha e duas no Crato, para falar sobre o enfrentamento à misoginia no ambiente virtual e promover a igualdade de gênero.
Nas escolas de Fortaleza, durante o mês de novembro de 2025, os momentos foram conduzidos por Isabel Carneiro, pesquisadora, feminista, defensora de direitos humanos e integrante do Fórum Cearense de Mulheres, da Articulação de Mulheres Brasileiras; nas escolas do Cariri, em dezembro, por Verônica Isidório, feminista negra, LGBT, professora, militante da Frente de Mulheres do Cariri e pesquisadora na área de raça, gênero, diversidade sexual e território.
Já no mês de março deste ano houve o momento de apresentação dos resultados da pesquisa para a equipe do gabinete da primeira-dama da Alece, Tainah Marinho.
>> VEJA AQUI EDIÇÃO DO PROJETO ELAS 2024.
As reportagens do Diário do Nordeste foram produzidas e escritas pelas jornalistas Emanoela Campelo de Melo, Clarice Nascimento e Theyse Viana, com edição de Dahiana Araújo e Mariana Lazari. A idealização e coordenação são de Karine Zaranza. Os produtores audiovisuais que integram a equipe de reportagem são Fabiane de Paula e Ismael Soares. As artes têm produção de Louise Anne Dutra e animação de Igor Pontes.
A distribuição do material nas redes sociais é da jornalista Yohana Capibaribe, com edição de Aline Conde e Geovana Rodrigues. A idealização do Projeto Elas no Sistema Verdes Mares é de Rayana Gadêlha. E a gerência de Jornalismo é de Ívila Bessa.
O Projeto Elas é uma bandeira institucional do Sistema Verdes Mares que, há 6 anos, transforma visibilidade em impacto, dando visibilidade às vozes de mulheres, com iniciativas de enfrentamento à violência de gênero e impulsionando autonomia por meio de conteúdos editoriais em seus veículos de comunicação e eventos e ações em espaços públicos. Nos anos anteriores foram veiculadas conteúdos com os temas:
- 2021: “Vidas que Reluzem”;
- 2022: “Nenhuma a Menos” — superação, empoderamento e autonomia;
- 2023: “Nenhuma a Menos” — os tipos de violência, os caminhos para a denúncia, as redes de apoio;
- 2024: “Nenhuma a Menos” — saúde mental de meninas e mulheres.
COMO FOI REALIZADA A PESQUISA
Patrícia Pavanelli, diretora de opinião pública e política do Ipsos-Ipec, explica que a pesquisa foi realizada em duas fases: uma com metodologia qualitativa e outra quantitativa. Para a primeira parte, foram feitos grupos focais com diferentes faixas etárias e de diferentes cidades cearenses.
A metodologia quantitativa foi planejada para “representar as mulheres do estado do Ceará, além da diversidade socioeconômica delas”, conforme o instituto.
De acordo com Patrícia, “os critérios amostrais adotados e o número de entrevistas consideraram a necessidade de compreender possíveis diferenças de opinião entre quem mora na Capital e no Interior, nas diferentes regiões do Estado, nas de cidades de grande, médio e pequeno porte, além da questão geracional, econômica e racial".
Quando as mulheres foram convidadas a falar sobre seus medos e dores, “apreendeu-se um clima de desabafo e entrega”, diz Patrícia.
“Nesse momento, a empatia entre as participantes ganhou contornos nítidos, tendo como fio comum as inseguranças, frustrações, apreensões e traumas. Todas, de alguma forma, já foram tocadas pela dor da violência de gênero. Não há atenuantes para o sentimento de vulnerabilidade por serem mulheres. A insegurança está tatuada na pele e acontece em casa, nos espaços públicos, na escola, no trabalho, no ambiente virtual, exigindo que desenvolvam estratégias pessoais de sobrevivência – como se segue.”
Na elaboração da pesquisa, a equipe atuante era composta exclusivamente por mulheres para proporcionar cumplicidade e deixar as entrevistadas mais confortáveis.
Além disso, algumas perguntas, explica Patrícia, foram respondidas por autopreenchimento, ou seja, sem que fosse necessário a resposta em voz alta. “Esta é uma técnica amplamente utilizada para pesquisar assuntos sensíveis”, ressalta.
Para a diretora, o cenário observado no Ceará se assemelha, em linhas gerais, ao que é visto nacionalmente, com o machismo e a religiosidade resultando em uma sociedade na qual os valores conservadores se sobressaem e “engessam a possibilidade das mulheres terem mais autonomia”.
Gislene Gabriel, advogada, professora e doutoranda em Sociologia (UFC), ouvida pela reportagem do Diário do Nordeste para comentar a pesquisa, reforça que a cultura machista também ensina os homens a serem violentos e coloca a mulher no lugar da culpa e do medo.
“Ainda tem aquele discurso: 'ah, mas a mulher é louca', 'ah, mas ela aceita'. É necessário entender que, quando uma mulher é violentada e deseja continuar naquele relacionamento, há fatores por trás, como o medo do julgamento da sociedade, a dependência emocional e financeira”, diz Gislene.
"Eu acho que a mulher ocupa um lugar de luta. Por mais que tenha melhorado nossa situação no tempo que a gente vive, ainda precisa passar por barreiras pra poder ter mais oportunidades na vida."
PATRIARCADO E CULTURA MACHISTA
Dentre os fatores que contribuem para os medos das mulheres está a cultura patriarcal enraizada, “ciência de que na nossa sociedade a mulher é vista pela lente masculina, que a desrespeita, oprime e silencia”, conforme o estudo.
Especialista ouvido na pesquisa, que não teve a identidade informada devido à metodologia escolhida pelo Instituto, pontuou que o Ceará é descrito como um Estado “onde a cultura machista continua muito arraigada. Valores conservadores são predominantes e dificultam maior impulso às demandas femininas por autonomia e desejo de atuação fora dos papéis tradicionais”. “Quanto mais distante é o Interior da Capital, mais vulneráveis essas mulheres são”, afirmou.
A advogada Gislene Gabriel considera que “a cultura machista ensina os homens a serem violentos e as mulheres a sentirem culpa e medo”. “Quando a mulher cearense se retrata como uma ‘mulher guerreira’, essa nomeação mascara múltiplas opressões, como a sobrecarga que está em cima desta mulher”, ela diz.
”Nós somos vítimas de violência de gênero a todo momento e de forma velada”
A diretora de opinião pública e política do Ipsos-Ipec considera que “as mulheres cearenses, assim como as brasileiras em geral, vivem o medo diariamente. Este é um problema recorrente que limita a liberdade e o direito à cidade”.
“Notamos vitimização elevada e baixíssima denúncia. Esse desenho espelha padrões vistos em pesquisas nacionais. Também percebemos que tanto no Ceará quanto no Brasil, há maior exposição das jovens, subnotificação e descrença na proteção”, resume Patrícia.
Em um cenário onde se perpetuam os valores conservadores, conforme a diretora, a possibilidade dessas mulheres terem mais autonomia e atuarem "fora dos papéis tradicionais acaba ficando engessado”.
“A violência contra a mulher é estrutural, a sociedade brasileira sempre delegou às mulheres papel de subordinação e de servidão. E agora estamos em um momento de transformação. O processo é lento, longo e envolve toda uma cultura e mentalidade social”, pontua Patrícia Pavanelli.