Pacientes esperam até 8 horas em fila por medicamentos em policlínicas de Fortaleza
A Secretaria Municipal de Saúde informou que para diminuir o tempo de espera abrirá as policlínicas mais cedo, além de abri-las neste sábado (25)
Em busca de remédios que podem impedir episódios de filhos autistas e controlar doenças graves e autoimunes, usuários de Policlínicas dos bairros Passaré e Bonsucesso, da rede municipal de Saúde de Fortaleza, enfrentam até 8 horas de fila para retirarem suas receitas. A situação foi constatada pelo Diário do Nordeste no início da tarde desta terça-feira (21), em duas unidades, onde pessoas chegaram a ir embora sem pegar medicamentos por conta de demora.
Na Policlínica Dr José Eloy da Costa Filho, por volta de 14h30, mães de crianças autistas lutavam por espaço em uma fila que não tinha organização, onde a profissional de saúde gritava os números das senhas. Entre elas, algumas que chegaram entre 7 e 8 da manhã.
A professora Rosana Paes recebeu seu encaminhamento do médico e chegou de manhã com a neta autista, mas a demora a fez voltar para casa e levar a menina para a escola. Depois, ela retornou à unidade de saúde, para mais horas de espera.
"É muita humilhação, as crianças ficam sofrendo aqui. Fica uma gritaria. Todo mundo com o nervo à flor da pele. Nós estamos aqui porque precisamos, minha neta ficou um dia sem o remédio e eu quase endoidei em casa. É uma situação muito difícil".
Para a dona de casa Joelma Silva, que aguardava com o batido de pés impaciente de seu filho de 16 anos, no espectro autista em suporte nível 3, o descaso maior é manter na mesma fila pessoas autistas, idosos e gestantes.
Mistura autistas, idosos e gestantes e senhas que não são prioridades. E aí as crianças ficam todas nervosas. O meu filho da última vez deu um murro na janela de vidro porque fica nervoso em multidão. É muito mal organizado, é uma situação crítica que não é de agora. Eu estou comprando o remédio porque aqui acaba
Arranjar o dinheiro para comprar o medicamento é uma das saídas que restam para quem necessita com urgência e não consegue na policlínica. É o caso de Ana Paula Silva de Araújo, que foi à unidade no bairro Bonsucesso, em busca do remédio para controlar a diabete do marido. "É um remédio de R$ 220. Todo santo dia aqui é assim. Quando não tem ninguém é porque não tem medicamento. É difícil também porque tem pessoas que discutem com as outras e querem arranjar briga. Mas, nada acontece, e ficamos na mesmice, né?".
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A manicure Daniele Rodrigues já estava há quase oito horas na Policlínica Dr. Luiz Carlos Fontenele, no Passaré, para tentar garantir a risperidona de seu filho autista. Esse fármaco é um antipsicótico atípico, prescrito para pessoas no espectro autista e também pacientes com transtorno bipolar e esquizofrenia. A maioria das pessoas que aguardava nas filas precisa desse medicamento. O fármaco é o mesmo que pacientes reclamavam da falta nos Centros de Atenção Psicossocial de Fortaleza (Caps) nesta terça, como o Diário do Nordeste mostrou.
"Tem dois meses que eu não recebo, e aí quando chegamos aqui tem essa complicação. Meu marido da última vez chegou 7h e saiu só às 15h, é sempre a mesma burocracia. Tem vezes que a gente vem e acaba o medicamento e eles nos mandam embora. É assim, na sorte", desabafa Daniele.
Na frente de Conceição Braga, tinha mais de 100 pessoas. Foi a segunda vez que ela foi à unidade tentar uma medicação de uso contínuo e alto custo para o filho, que sofre com uma doença autoimune dermatológica. "Quando tem a medicação, sempre tem demora, nunca é rápido. Peguei prioridade na senha e mesmo assim demora. Vamos pedir a Deus que não acabe, porque não dá nem para sair e voltar quando está mais perto. Eles não atendem telefone e nem tem WhatsApp para confirmar que tem medicação", declara.
A gestante Fernanda Martins, sentava em uma cadeira de praia colocada na recepção da policlínica, à espera de sua vez. Ela sofre de trombofilia, uma doença que forma coágulos em excesso no corpo, e chegou a passar uma semana sem as injeções que precisa para controlar a condição.
"Estou gestante, não posso ficar nem muito tempo sentada e nem muito tempo em pé, e é a segunda vez que pego essa lotação. Outras duas vezes eu vim e não tinha senha, e outra vez não tinha a medicação. Cada injeção custa 60 reais e eu tenho que tomar todos os dias", explica.
Secretaria municipal adota medidas
A secretaria-adjunta da Saúde de Fortaleza, Aline Gouveia, em entrevista à TV Verdes Mares, informou que, para tentar a sanar os problemas apontados pelos usuários da rede, serão feitos esforços para abrir as policlínicas neste próximo sábado (25), para dar maior vazão às entregas.
"Fizemos um grande esforço para reabastecer as farmácias e estamos trabalhando em diversas frentes para que a gente consiga dar mais celeridade à entrega de medicamentos", pontuou.
Segundo a secretária, haverá antecipação do horário de abertura das unidades, de 7h para 6h. "A nossa expectativa é que em 15 dias a gente consiga fazer com que as policlínicas consigam entregar de forma mais célere, e até o final do ano a informatização para que as pessoas só se desloquem quando a medicação já estiver para pronta entrega".
O sistema de informação é uma das apostas da Prefeitura de Fortaleza para que as filas diminuam e para que os usuários não precisem esperar por cerca de 8 horas e no final, sair da clínica sem remédio. "As medicações entregues nas policlínicas são específicas, e vamos informatizar a entrega da documentação por meio do aplicativo para que o momento em que a medicação chegue, já seja agendado e a pessoa vá com uma hora específica para receber seu medicamento"