Após falta de energia no César Cals, equipe médica concluiu parto usando luz do celular

Encerrada a cirurgia, a paciente foi transferida para o Hospital e Maternidade José Martiniano de Alencar.

(Atualizado às 22:09)
Equipe médica realiza cesárea em meio à falta de luz, com lanternas do celular iluminando o campo cirúrgico.
Legenda: Incêndio que atingiu a subestação de energia elétrica do Hospital Geral Dr. César Cals na quinta-feira (13) fez faltar energia durante cesárea.
Foto: Reprodução

Enquanto gestantes, puérperas e recém-nascidos eram retirados às pressas das instalações do Hospital Geral Dr. César Cals devido ao incêndio que atingiu a subestação de energia elétrica da unidade, outro bebê havia acabado de nascer no centro cirúrgico. O cheiro da fumaça ainda não tinha chegado até aquela sala, e o único sinal do incidente lá fora foi uma falta de energia — o que já ocorreu outras vezes, sempre por poucos minutos. Mas, na última quinta-feira (13), a luz não voltou, e por cerca de 15 minutos a equipe recorreu a lanternas de celulares para finalizar a cesárea.

“Não conseguimos ter acesso ao que está acontecendo no hospital em si, e aí chegaram as técnicas falando que estava tendo um incêndio. Ficamos sem acreditar e seguimos com a cirurgia, à base de lanterna de celular. A energia voltou em um momento, durou 1 minuto, no máximo, e caiu de novo. [Foi então que] começamos a sentir cheiro de fumaça”, lembra Rebeca Rocha, ginecologista, obstetra e cirurgiã ginecológica.

A paciente era de alto risco, com cicatriz de uma cesárea anterior e pré-eclâmpsia — uma complicação da gravidez caracterizada por hipertensão arterial —, e o bebê estava em uma posição que tornou a extração mais difícil. Tudo isso, somado à baixa intensidade da luz das lanternas, fez a cirurgia durar mais. “Demorou um pouco mais por causa da luz e pelo aperreio da galera”, conta a médica.

Apesar de um “alvoroço” momentâneo, “todo mundo ajudou” e a cirurgia terminou sem complicações. “Teve o momento do desespero, e aí falamos: ‘Tem que ter calma, não adianta se desesperar. Tem seis vidas em jogo aqui, a da equipe, da mãe e do bebê’. Mas, no frigir dos ovos, do aperreio, deu tudo certo e conseguimos terminar a cirurgia sem intercorrência”, relatou a médica, em entrevista ao Diário do Nordeste nesta sexta-feira (14).

Veja também

Encerrado o procedimento, a paciente e outra mãe que passou por cesárea mais cedo foram levadas para o Hospital e Maternidade José Martiniano de Alencar (HMJMA). Após acompanhar esse deslocamento, toda a equipe voltou para o Hospital Geral Dr. César Cals e continuou por lá o dia inteiro, auxiliando na transferência de outras mulheres e bebês.

“Tinha muitas gestantes com condição de andar e de se locomover só, mas, como eram de alto risco, foram para o Sesc [Serviço Social do Comércio] e ficaram abrigadas lá. Algumas ficaram na praça [da Lagoinha]. E ficamos nos comunicando entre a gente no grupo do hospital”, conta a médica, que se emocionou ao relembrar as cenas do dia anterior durante a entrevista.

O futuro do hospital

Rebeca Rocha atua no Hospital César Cals há 10 anos. Foi lá que ela fez a residência médica, continuou como plantonista e se tornou preceptora da Ginecologia, orientando profissionais em formação. Para ela, ver o hospital fechado nesta sexta-feira desperta um sentimento de luto.

“É um hospital muito importante para todo mundo. A gente trata como um hospital muito familiar. Como é pequeno, todo mundo se conhece, se trata pelo nome. […] A equipe do hospital inteiro está torcendo para que, em um prazo acessível, ele retorne a funcionalidade”, afirma. 

As estratégias para esse retorno estão sendo discutidas junto à Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), afirmou Antônio de Pádua Almeida, diretor-geral do César Cals. Na manhã desta sexta-feira, o Diário do Nordeste acompanhou a movimentação do hospital após o incêndio e da unidade anexa, onde funciona o sistema ambulatorial e que não foi atingida.

A informação do gestor é de que consultas de pré-natal, ginecologia e outras especialidades não precisaram ser remarcadas ou canceladas. Almeida ainda citou a ampliação de atendimento de outras unidades de saúde, como o Hospital Geral de Fortaleza (HGF) e a Maternidade Escola Assis Chateaubriand (Meac), para suprir as necessidades dos pacientes.

Incêndio em hospital de Fortaleza

Um incêndio atingiu a subestação de energia elétrica do Hospital Geral Dr. César Cals na manhã da quinta-feira (14). Um grande estrondo e muita fumaça foram alguns dos primeiros sinais do incidente e desencadearam um mutirão para a retirada dos pacientes que estavam na unidade.

Com 97 anos de funcionamento, o HGCC é referência em obstetrícia e neonatologia, e possui mais de 290 leitos. A unidade também possui diversos serviços especializados, como o Banco de Leite Humano e a assistência a gestantes de alto risco.

Com a fumaça que se espalhou pelo prédio, cidadãos que estavam no entorno do hospital se uniram a profissionais de saúde e de segurança em uma força-tarefa para resgatar bebês, gestantes e puérperas que estavam no local. Foi assim que boxes do Beco da Poeira, centro de comércio popular na Avenida Imperador, receberam mais de 20 recém-nascidos — vários deles prematuros — em incubadoras.

Veja também

Ao fim do dia, mais de 117 bebês e 153 mães e acompanhantes foram transferidos do Hospital Geral Dr. César Cals para pelo menos seis outros hospitais da rede estadual e municipal de Fortaleza, em uma operação que durou 8 horas.

O incêndio, segundo o Corpo de Bombeiros, foi controlado em cerca de 15 minutos e os danos ficaram restritos à casa de geração de energia, não afetando a área interna da unidade de saúde. No momento do incidente houve falta de energia, levando pacientes e acompanhantes a saírem do hospital.

A Enel Distribuição Ceará informou, em nota, que houve um defeito interno na rede de energia local. Após o incêndio, a empresa instalou cinco geradores na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTI Neo) e, além disso, outros dois geradores de grande porte seriam ligados em outras alas da instituição.

Segundo o diretor-geral da unidade de saúde, Antônio de Paulo Almeida Carneiro, a subestação de energia elétrica havia passado por manutenção um dia antes do incêndio. Em nota, a Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) informou que nenhuma área assistencial foi atingida e não houve feridos.

Newsletter

Escolha suas newsletters favoritas e mantenha-se informado
Este conteúdo é útil para você?
Assuntos Relacionados