42 tipos de viroses poderão ser identificados por meio de monitoramento da Fiocruz no Ceará

Sequenciamento genômico pode mostrar quais são as principais causas de gripes e fazer diagnóstico mais complexo de pacientes

Escrito por Lucas Falconery, lucas.falconery@svm.com.br

Ceará
Pesquisadores
Legenda: Pesquisadores indicam a necessidade de coletar material na rede pública e privada
Foto: Tatiana Fortes/Fiocruz

“Você está com uma virose”. O diagnóstico amplo incomoda pacientes e essa imprecisão prejudica o combate às doenças respiratórias. Na contramão disso, a Rede de Vigilância Genômica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Ceará começa a monitorar 42 subtipos de vírus respiratórios encontrando, inclusive, casos de coinfecção.

Com isso, de acordo com o coordenador da Rede da Fiocruz, Fábio Miyajima, é possível identificar se o agente causador da gripe é, por exemplo, o vírus sincicial respiratório, adenovírus, rinovírus ou influenza A e B. Também é possível classificar o genótipo, a cepa ou variante e descobrir o aparecimento de novas mutações virais no Estado.

A ideia é que amostras de pacientes com sintomas gripais, em unidades de saúde pública e privada, sejam encaminhadas para a Fiocruz. Nem todos os exames devem passar por sequenciamento - processo de alto valor e que exige amostras de qualidade.

Esse tipo de processamento iniciou em junho, depois de um período de testes, e na última semana foram gerados dados sobre influenza no Ceará para a plataforma internacional de monitoramento. São submetidos 14 genomas nesta primeira fase.

Ainda assim, com uma boa quantidade de testes será possível fazer a vigilância sentinela e contribuir para o diagnóstico e estratégias de combate às doenças, como explica Fábio Miyajima.

“Queremos evitar que alguns casos que precisam de investigação mais complexa sejam enviados para fora do Estado”, completa. Nesses casos, as amostras precisam ser enviadas para laboratórios em Belém e no Rio de Janeiro, por exemplo.

É importante porque estamos chegando num momento em que a gente tem que incrementar e introduzir um sistema de vigilância ativa. A gente não pode viver mais, num mundo globalizado, utilizando métodos tradicionais ou ter uma vigilância com baixa cobertura
Fábio Miyajima
Coordenador da Rede Genômica da Fiocruz Ceará

A metodologia utilizada para isso é a do sistema de captura por hibridização, como detalha o pesquisador. “A gente não vai afirmar simplesmente que é uma virose, mas poder determinar qual o patógeno e se tem mais de um”, frisa.

Saber qual vírus circula com mais intensidade em um local contribui, entre outros fatores, para a atualização das vacinas. Além disso, é possível identificar que tipo de doença é mais comum em cada cidade e estabelecer medidas preventivas. 

“Nós vamos entrar numa dinâmica muito mais em tempo real e mais eficiente se a gente conseguir implementar essas medidas integradas junto com a saúde pública do Estado e do Brasil”, conclui Fábio.

Impacto por faixa etária

Outra vantagem do monitoramento das doenças virais respiratórias é entender como pessoas de faixas etárias diferentes são afetadas, como acrescenta Fábio Miyajima.

Testes
Legenda: Testes começam a ser processados para identificação dos vírus respiratórios
Foto: Tatiana Fortes/Fiocruz

“Então, é muito importante complementar esse tipo de investigação que, pela primeira vez, vai poder ser oferecido a nível de saúde pública, inclusive, para o Ceará. A epidemiologia de síndromes gripais é muito diferente entre adultos, idosos e crianças”, acrescenta.

Isso foi percebido na análise de pacientes com sintomas gripais desde o início da pandemia, como destaca.

“Na época que a gente teve picos de SARS-Cov-2, a gente teve muito caso de vírus sincicial respiratório em crianças, que era mais de 90% de todos os casos de gripe. Então, foi totalmente diferente comparado em relação aos adultos”.