Uma semana decisiva para o futuro da Crimeia e, quem sabe, do mundo
Crimeanos vão votar se desejam fazer parte da Federação Russa e se querem o retorno da Constituição de1992
Na última quinta-feira (6), o Parlamento da Crimeia, República Autônoma vinculada à Ucrânia, aprovou a adesão da região à Rússia, e o governo local, apoiado por Moscou, marcou um referendo sobre o tema para daqui a uma semana.
Os parlamentares crimeanos votaram por unanimidade "para entrar para a Federação Russa, com os direitos de um integrante da Federação Russa". O vice-premiê da Crimeia, que abriga uma base militar russa no mar Negro em Sebastopol, disse que um referendo sobre a situação será realizado no próximo dia 16 de março. Ele disse que todos os bens do Estado seriam "nacionalizados", a moeda russa (rublo) pode ser adotada e as tropas ucranianas seriam forçadas a se render ou a deixar a região.
O anúncio elevou as apostas em um confronto leste-oeste, o mais grave desde o fim da Guerra Fria. Para o coronel-aviador da reserva, Sued Lima, membro do Observatório das Nacionalidades da Universidade Estadual do Ceará (Uece) "é bastante improvável que a Rússia aceite pacificamente o desligamento da Ucrânia do seu campo de influência, como os Estados Unidos não aceitariam que o México (tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos, segundo queixa do General Porfirio Díaz), por exemplo, se desgarrasse de sua influência. Para Moscou, a perda da Ucrânia equivale a permitir que a OTAN se instale em suas fronteiras. Não é descartável a hipótese de uma guerra que venha a destruir a Ucrânia econômica e politicamente".
Na avaliação do professor de Direito e Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap-SP), Marcus Vinícius de Freitas, "o mundo passa, atualmente, por uma de suas piores crises, desde o fim da Guerra Fria. Por um lado, uma Rússia que, ainda, sonha com os dias do poderio soviético; uma Europa com dependência energética da Rússia, e os Estados Unidos, cujo poder de influência vem diminuindo intensamente. A China tampouco deverá opor-se às pretensões russas".
Hesitação e ameaça
Os líderes da UE haviam se preparado para advertir, mas não para sancionar a Rússia sobre a intervenção militar, depois de Moscou rejeitar os esforços diplomáticos ocidentais para a retirada das forças da Crimeia, uma região com cerca de 2,3 milhões de habitantes. O presidente da França, François Hollande, disse que "haverá a mais forte pressão possível sobre a Rússia para começar a reduzir a tensão. Nesta pressão existe um eventual recurso a sanções".
Para Freitas, "talvez a timidez na resposta da União Europeia se deva a fatores de maior proximidade geográfica, o que não é o caso, por exemplo, dos Estados Unidos, que foram muito mais enfáticos em sua atuação". O especialista acrescenta ainda que "a relação entre a Rússia e os Estados Unidos será sempre conflituosa", lembrando a rivalidade nascida na Guerra Fria e revivida com a crise na Ucrânia.
De fato, várias autoridades norte-americanas fizeram, nos últimos dias, duras declarações contra a interferência russa na região da Crimeia. A ex-secretária de Estado, Hillary Clinton, potencial candidata democrata à Presidência dos EUA, comparou as ações de Putin às de Hitler antes da 2ª Guerra Mundial.
Já o presidente Barack Obama disse que a convocação do referendo pelo Parlamento da Crimeia a fim de decidir à adesão ou não à Rússia viola leis internacionais. No mesmo sentido, o novo governo ucraniano declarou o referendo ilegal e abriu uma investigação criminal contra o primeiro-ministro crimeano, Sergei Askyonov. Kiev, a propósito, não reconhece sua autoridade ou a do Parlamento.
Referendo
No referendo marcado para daqui a uma semana, serão feitas duas perguntas aos eleitores: "A Crimeia deve fazer parte da Federação Russa?" e "A Crimeia deve retomar a Constituição anterior (1992), que deu mais autonomia à região?".
"Se não houvesse ameaças constantes por parte das autoridades ucranianas ilegais atuais, talvez tivéssemos tomado um caminho diferente. Eu acho que houve uma anexação da Crimeia pela Ucrânia, se formos chamar as coisas pelo seu nome. Devido a este estado de espírito e a esse sentimento é que tomamos a decisão de nos juntarmos à Rússia. Acho que vamos nos sentir muito mais confortáveis lá", disse o deputado Sergei Tsekov diante do prédio do Parlamento na principal cidade da Crimeia, Simferopol.
A crise começou em novembro, quando o presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, sob forte pressão russa, virou as costas para um acordo comercial de longo alcance com a UE e aceitou um resgate de 15 bilhões de dólares de Moscou. Isso gerou três meses de protestos nas ruas levando à derrubada dele, em 22 de fevereiro. Moscou classificou o fato como um golpe de Estado e recusou-se a reconhecer as novas autoridades ucranianas. A Rússia anunciou uma reunião das ex-repúblicas soviéticas na Comunidade de Estados Independentes (CEI), para o dia 4 de abril, afirmando que será precedida de contatos entre diplomatas russos e ucranianos. "A Ucrânia ainda faz parte da CEI, criada após a dissolução da União Soviética. Dos onze Estados que compuseram inicialmente o organismo, a Geórgia retirou-se por conta de uma disputa envolvendo a província separatista da Ossétia. Há conflitos de natureza também separatista na Chechênia", explica Sued Lima.
*Com agências de notícias

Cronologia
22/02: O Parlamento destitui o presidente Viktor Yanukovytch e anuncia eleições presidenciais antecipadas para 25 de maio.
23/02: O presidente do Parlamento Olexandre Turtchynov é nomeado presidente interino.
26/02: Confrontos entre prós e antirrussos em Simferopol, a capital da Crimeia, uma república autônoma no sul da Ucrânia, que abriga a frota russa do Mar Negro.
28/02: Kiev acusa Moscou "de invasão armada e ocupação" após a tomada do controle dos aeroportos de Belbek (perto de Sebastopol) e de Simferopol por soldados armados
01/03: O Conselho da Federação (Senado) russo aprova um pedido de intervenção militar na Ucrânia.
02/03: A Ucrânia se encontra "à beira da catástrofe", após a "declaração de guerra" da Rússia (Yatseniuk).
03/03: Kiev acusa a Rússia de continuar a enviar militares para a Crimeia. Washington suspende sua cooperação militar com a Rússia.
04/03: O presidente russo Vladimir Putin nega qualquer envolvimento russo na crise e denuncia um "golpe de Estado" contra o "único presidente legítimo", Yanukovytch.
05/03: As forças russas assumem o controle parcial de duas bases de lançamento de mísseis na Crimeia, em Fiolent perto de Sebastopol e em Evpatoria (fontes militares ucranianas). O enviado especial da ONU na Crimeia encurta sua missão depois de ser atacado por milícias Pró-Rússia (ONU).
06/03: O Parlamento local da Crimeia pede a Vladimir Putin a anexação da península ucraniana à Rússia e anuncia a organização de um referendo em 16 de março. Grupo de 40 observadores militares da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) são esperados na Crimeia. Em Donetsk (leste da Ucrânia) a polícia retoma o controle de sede do governo regional, ocupado por milícias pró-Rússia.
07/03: Pivô da crise, o ex-presidente ucraniano é internado em estado grave na Rússia, após ter sofrido um infarto. O Parlamento russo, a propósito, anunciou que irá respeitar a "escolha histórica" do referendo na Crimeia. No mesmo dia, autoridades ucranianas denunciaram a entrada de 30 mil soldados russos na península crimeana.
Crimeanos no centro da tensão
A maioria da região da Crimeia, habitada por moradores falantes de russo, tem grande importância política e estratégica tanto para a Rússia como para a Ucrânia. Tropas pró-Rússia mantém o controle sobre a península há vários dias.
Bem antes disso, a esquadra russa no Mar Negro já tinha sua base histórica na cidade de Sebastopol. Depois que a Ucrânia se tornou independente, um contrato foi elaborado para que a frota continuasse a operar de lá. A região já pertenceu à Rússia, e foi anexada pela Ucrânia em 1954 - o então líder soviético Nikita Khrushchev, que era de origem ucraniana, deu a região como presente. Diferente do resto da Ucrânia, a maioria da população na região é de origem russa. Para muitos russos, a Crimeia e sua "Cidade Heroica" de Sebastopol, da era soviética, sitiada pelos invasores nazistas, têm uma ressonância emocional muito forte, por já ter sido parte do país e ainda ter a maioria de sua população de origem russa.
Para a Ucrânia, independente da Rússia desde o colapso da União Soviética em 1991 e em meio a uma crise econômica, a perda da Crimeia seria um enorme golpe.
Divisão além da Crimeia
As divisões na Ucrânia remontam a episódios muito anteriores à crise atual. O país tem estado dividido entre leste e oeste desde a independência e a separação se reflete também na cultura e na língua. O russo é falado abertamente em partes do leste e do sul. Em algumas áreas, incluindo a península da Crimeia, ele é o idioma mais usado.
Essa divisão normalmente se reflete nas eleições do país. As áreas com grandes proporções de falantes de russo são aquelas nas quais o ex-presidente Viktor Yanukovych foi mais votado.
Região sempre foi alvo de disputa
Os primeiros habitantes da Crimeia foram os cimerianos, expulsos pelos citas durante o século VII a.C. Naquele mesmo século, os antigos colonos gregos começaram a ocupar a costa, isto é, dórios de Heracleia em Quersoneso, e jônios de Mileto em Teodósia e Panticapaeum (também chamado Bósforo). Pressionados novamente pelos citas, os colonos pediram proteção ao rei do Ponto, em 114 a.C. No século seguinte a região tornou-se um território tributário de Roma.
Durante os séculos posteriores, a Crimeia foi invadida, atravessada ou ocupada sucessivamente pelos Godos (250, pelos Hunos (376), pelos Cazares (século VIII), pelo Império Bizantino (1016), pelos Kiptchaks (1050), e pelos Mongóis (1237).
No entanto, o conflito mais famoso da história crimeana aconteceu no século XIX. Na época, o Exército imperial da Rússia enfrentou os Exércitos aliados de Grã-Bretanha, França e Império Otomano nos campos de batalha da Península da Crimeia, naquela que se tornou a primeira guerra moderna, em 1853.
Os trens transformaram a logística, o telégrafo tornou mais ágeis as comunicações e os rifles e outros armamentos modernos permitiram que massacres ocorressem numa escala inteiramente nova. Os campos de batalha da Guerra da Crimeia testemunharam a morte de 25 mil britânicos, 100 mil franceses e um milhão de russos, passado que os crimeanos do século XXI esperam não repetir.