Reportagem DOC

Times esquecidos

Partida entre Ferroviário e Calouros do Ar, no PV
00:00 · 08.07.2017 / atualizado às 17:55 · 05.04.2018 por João Bandeira Neto - Editor-assistente

Dos tempos de glória ao esquecimento. Esse é o panorama de alguns times que já chegaram ao lugar máximo no cenário do futebol cearense. Equipes campeãs e que arrastavam multidões aos estádios, hoje, estão falidas e esquecidas por grande parte dos amantes do futebol no Ceará.

Se atualmente o título de campeão local é alternado entre Ceará e Fortaleza, durante mais de três décadas, o futebol cearense teve vários campeões diferentes e várias rivalidades foram criadas nesse período. Em um breve levantamento entre as décadas de 30 e 40, o campeonato cearense chegou a ser disputado entre cinco times com chances claras de serem campeões.

Prova disso é que por quase 20 anos, entre as décadas de 1920 e 1940, o Sport Club Maguary, conhecido como o "Clube dos Príncipes", figurou entre as principais forças do esporte no Estado, rivalizando com o Ceará o título de maior torcida do Estado. Forças como América, Orion, Gentilândia, Calouros do Ar e Tramways apareceram com grandes equipes e deixaram seus nomes marcados na história local.

Ao longo das reportagens seguintes, o Diário do Nordeste busca resgatar as campanhas desses times e entender o que levou à decadência equipes que tinham força dentro e fora de campo. Elas possuíam torcidas apaixonadas e presentes nos estádios, mas não suportaram a modernização do futebol. Fecharam suas portas e deixaram o esporte mais pobre historicamente.

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Alternância nos títulos

Basta voltar algumas décadas para ver o quanto a disputa pelo título estadual foi rica. A década de 50 pode ser definida como a melhor época do futebol cearense, quando o assunto é alternância entre os times campeões.

Em um período de 10 anos, cinco times se revezaram nas conquistas. Manter a hegemonia era uma árdua tarefa.

"No início, os clubes medianos tinham condições de medir forças com equipes maiores. Com a globalização e profissionalização do futebol, essas equipes foram perdendo cada vez mais espaço e um dos fatores era o alto custo para tentar manter as equipes", comenta Vicente Kléber, pesquisador do futebol cearense.

E quem ilustra bem esse cenário é o América, time que foi campeão cearense duas vezes, com sede social e uma torcida que ganhava cada mais simpatizantes, mas que não teve condições para se manter entre os grandes do Ceará.

"O que acompanhamos ao longo da história do futebol cearense é que grandes equipes foram formadas, mas que a falta de apoio financeiro e de um tratamento mais sério acabaram fazendo com que esses clubes fechassem suas portas", avalia Eugênio Fonseca, pesquisador.

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Uma das características marcantes dos primeiros anos do futebol cearense foi o seu caráter elitista e excludente. E talvez o Sport Club Maguary, fundado em 24 de junho de 1924, seja o que melhor representa o quanto o futebol era feito pelas elites no começo da década de 20. Fundado pela família Barbosa Freitas, por quase 20 anos, entre as décadas de 1920 e 1940, o time, também conhecido como o “Clube dos Príncipes”, figurou entre as principais forças do esporte no Estado. 

Força essa que resultou em títulos cearenses, um total de quatro, e a rivalidade com o Ceará Sporting Club para ser o clube de maior torcida. Pode até parecer contraditório, mas mesmo sendo feito pelas elites e para as elites, o clube teve um grande apelo popular, e pessoas de várias classes sociais criaram simpatia e amor pelo clube dos “ricos”. 

Por três décadas o time resistiu e figurou entre os grandes. Em títulos, o Maguary ainda é o quarto maior campeão cearense, atrás somente de Ferroviário, Fortaleza e Ceará. 

Sede própria

O clube queria mesmo mostrar que era diferente e estava à frente do seu tempo. Em um período em que o Campo do Prado, no bairro Benfica, era o palco principal dos jogos, o Maguary resolveu ter um campo e uma sede própria. Inicialmente o clube arrendou o Campo do Alagadiço, onde hoje é a Igreja de São Gerardo. A segunda sede ficava situada no bairro do Benfica. Mas foi em abril de 1946 que o time ganhou um sede social de verdade. Simpatizantes e torcedores se uniram e ergueram a sede do clube no bairro de Fátima (entre as ruas Padre Roma e Deputado João Pontes). Historiadores relatam que na sede do Maguary praticava-se o esporte amador e ocorriam atividades festivas que marcaram a vida da cidade, principalmente nos alegres anos dourados, com o entusiasmo dos frequentadores prolongando-se pelos anos seguintes.

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Antiga sede do Maguary

“Em 1939 eu jogava no segundo time do Fortaleza e um amigo me chamou para atuar no Maguary. Lá tinha departamento de futebol, clube social e uma vida noturna bem agitada. Esses atrativos faziam com que todos os jogadores lutasse para jogar lá”, lembra o senhor José Cândido, ex-jogador do Maguary, América, Gentilândia e Fortaleza. Com 95 anos de idade, o ex-jogador ainda lembra com detalhes do período que jogou no Clube dos Príncipes. “Era a nossa diversão ir para as matinês promovidas pelo clube aos domingos. Como os jogos eram neste dia, ao final das partidas, íamos viver o lado dançante do clube”, conta. 

Força no futebol

Assim como dentro das quatro linhas, o padrão de organização foi visto fora dele. A primeira competição oficial foi o estadual de 1927. Vestidos de branco, com uma listra preta horizontal na altura do peito, os atletas ganharam o apelido de cintanegrinos e mais tarde “Clube dos Príncipes”.

O crescimento dos cintanegrinos veio associado aos títulos. O clube disputou o Cearense entre 1927 e 1945, vencendo quatro edições (1929, 1936, 1943 e 1944) e levando sete vice-campeonatos. “O time conseguiu formar grandes elencos. Com os sócios investindo, era possível pagar os jogadores que atuavam no profissional. O que mais encantava em atuar pelo time era ver a grande torcida que o Maguari conquistou nessas décadas”, lembra Cândido. 

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Time da base do Maguary em 1973

Porém, sua derrocada no futebol foi vertiginosa. Após vencer de forma arrasadora e invicta o Campeonato Cearense de 1944, o time apostou tudo no tricampeonato de 1945. Mas existiu o Ferroviário no meio do caminho.

O Tubarão da Barra venceu o título, acabou com o sonho do Tri e gerou uma crise sem precedentes no Maguary, que não teve forças para superar a derrota e resolveu encerrar suas atividades no futebol profissional. Após seu fim, sua torcida acabou “migrando” para a dos times do Ferroviário e principalmente o Fortaleza, devido à rivalidade que os cintanegrinos tinham com o Ceará.

Pesquisadores contam que os esforços e recursos do clube foram revertidos para a construção da sede social que o Maguari possuiu na Rua Barão do Rio Branco. Se por um lado o clube encerrou a vida nos gramados, nos anos seguintes o clube continuou sua vida social e ainda ensaiou uma volta aos campos, em 1972. Não foram felizes novamente e em 1975, o clube fechou as portas em definitivo. Em 2009, mais um recomeço frustrado. O “novo” Maguary chegou a disputar a terceira divisão do estadual de 2009 a 2013, mas não obteve sucesso.

O campeão completo

Décadas de ouro. Assim pode-se resumir a história do América Football Club. Bicampeão cearense, em 1935 e 1966, o "Mecão" entrou para história do futebol local entre as décadas de 20 e 60. Com grandes times, organização fora de campo e investimento em outras modalidades, o América figurou por anos entre as principais forças futebolísticas do Estado.

Fundado em novembro de 1920, o América surgiu de uma insatisfação com o infanto-juvenil do Ceará Sporting Club. Com as cores vermelho e branco, o time herdou o mesmo nome do seu xará América, do Rio de Janeiro, popular na época. Logo no seu primeiro campeonato, em 1921, o time terminou na quinta colocação com um elenco formado por jogadores locais e também trazidos de outros estados. Em 1923, a equipe foi vice-campeã, perdendo o título para o Fortaleza.

Mas foi na década de 30 que o América apareceu no cenário local de verdade. Vice-campeão novamente em 1934, a agremiação se fortaleceu, montou um grande elenco e faturou seu primeiro campeonato no ano seguinte, em 1935, ao derrotar o Maguary na final.

Mesmo sem conquistar título nas décadas de 40 e 50, o América sempre figurou entre os favoritos nos campeonatos. Vice-campeão nos anos de 48 e 54, a diretoria da equipe se destacou ao fundar o Estádio Américo Picanço, mais conhecido como Campo do América. No local hoje se encontra a Igreja do Líbano, no bairro Meireles. Sede das partidas do Campeonato Cearense de 1945 a 1951, o Campo do América figura entre as praças esportivas que já existiram no futebol cearense.

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Confronto entre América e Tiradentes nos anos 80

"Atuei no América em 1942. A diretoria chegou a montar um grande time naquele ano, recebia 200 mil contos de réis. Isso era um alto valor para a época. Era o que todo garoto queria, receber para jogar futebol", lembra o ex-jogador José Cândido, de 95 anos de idade. Se chegou a bater na trave algumas vezes, o América de 1966 se preparou para ser campeão estadual.

Segundo levantamento do pesquisador Vicente Kleber de Melo, com o elenco formado por jogadores como Luciano Frota, Zé Gerardo, Loril e Baíbe, o América Football Club foi campeão em 66 de forma antecipada. "O América formou um time forte para ganhar em 66, tanto é que ganhou com dois jogos de antecipação", conta Vicente.

Campeão de tudo

O ano de 66 foi marcante para os torcedores do América, pois além do título estadual, ele foi campeão cearense de Futsal, Basquetebol e Voleibol. Segundo registros, ele foi o time cearense que mais jogou fora do Brasil, tendo resultados honrosos, como a vitória por 1 a 0 sobre a Seleção Nacional da Guiana Francesa e o empate sem gols com a Seleção de Trinidad e Tobago.

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Jogo entre Ferroviário e América, em 1982

Com os bons resultados nos esportes, foi a vez da diretoria do América seguir a moda da época e apostar em um sede social. Uma foi erguida na Avenida Dom Manuel e logo se tornou popular entre os jovens da época. O local foi, por anos, dirigido pelos irmãos Aécio e João de Borba. Porém, os resultados começaram a ficar cada vez piores dentro de campo e a empolgação com o Mecão foi diminuindo. Sem grandes equipes, com o dinheiro do clube social cada vez mais escasso e sem conseguir ter mais apelo popular, o América entrou em declínio, foi rebaixado para segunda divisão do cearense em 1997 e nunca mais voltou a figurar entre os grandes da Capital.

Hoje, a equipe está na terceira divisão do estadual e fez parceria com uma empresa privada para seguir atuando em competições esportivas organizadas pela Federação Cearense de Futebol (FCF).

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