ORIENTAÇÕES

Zumbido: cuidados ao ouvir demais

17:55 · 02.07.2011
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COM INFORMAÇÃO E CUIDADOS MÉDICOS ADEQUADOS O ZUMBIDO PODE SER CONTROLADO

Bares e boates lotados e com música alta, micaretas com trios elétricos cada vez mais modernos e potentes, paredões de som e aparelhos eletrônicos (iPods e MP3) com volumes cada vez mais intensos. Para muitos jovens estas atividades caracterizam apenas lazer e diversão, no entanto, podem apresentar uma condição que merece cuidado: o zumbido auditivo. O som, que é percebido sem a participação de uma fonte externa, pode ser representado de diversas formas, entre as quais: chiado, apito, esvoaçar de um inseto, escape de uma panela de pressão, som de uma concha,barulho de campainha ou mesmo a pulsação do coração.

O limite do Nível de Pressão Sonora (NPS) é de 85 decibéis durante oito horas e, havendo aumento na intensidade do barulho, o tempo deve diminuir. Se o som for elevado para 90 dB por exemplo, o período de exposição segura é reduzido para quatro horas. Para se ter ideia, o trânsito em grandes avenidas pode alcançar 95 dB, o som de uma turbina de avião pode atingir 130 dB, o volume do som de aparelhos eletrônicos individuais pode chegar a 110 dB, o barulho de buzinas pode atingir 110 dB e o som de boates pode alcançar 130 dB. De acordo com um levantamento realizado no Hospital das Clínicas de São Paulo, entre 2005 e 2007, o problema apresenta crescimento anual de 20% em jovens de até 25 anos.

Inicialmente, o zumbido relacionava-se, prioritariamente, ao avanço da idade ou a trabalhadores expostos a constantes barulhos. Apesar de a ocorrência aumentar, consideravelmente, entre a população jovem, é importante dizer que o sintoma, que acomete 11% dos brasileiros e 24% da população mundial, pode aparecer em qualquer idade. "A tendência é que o zumbido torne-se um desconforto cada vez maior, em virtude da crescente exposição a ruídos cotidianos no trabalho, lazer e, até mesmo, durante o sono", explica Marcelo Hueb, otorrinolaringologista da Sociedade Brasileira de Otologia (SBO).

Diagnóstico e tratamento

O zumbido auditivo, causado em 96% dos casos pela degeneração de células do ouvido, merece atenção, já que pode variar de intensidade e causa. Muitas pessoas queixam-se apenas de um incômodo temporário que tende a desaparecer em poucos dias. No entanto, em outros casos, o estado pode perdurar por um tempo prolongado e ser sinal de algo mais sério. O primeiro passo é procurar um especialista que avaliará o quadro partindo sempre da história do paciente, analisando o tipo de zumbido e a intensidade do desconforto. Após essa conversa inicial e dependendo do caso, o médico solicita exames complementares (audiológicos, laboratoriais, eletrofisiológicos e de imagem)para determinar o diagnóstico. Conforme enfatiza Marcelo Hueb, o zumbido é uma preocupação para a sociedade e ainda um desafio para a medicina. "Alguns profissionais infelizmente costumam dizer que não tem cura, pois não há um tratamento específico e em grande parte dos pacientes o sintoma não desaparece". A solução, entretanto, depende basicamente da causa. Em algumas situações o problema pode ser eliminado completamente, em outras apenas controlado. Quando a condição é decorrente de estresse, pressão alta e problemas metabólicos e de articulação temporo-mandibular (ATM) tende a ser solucionada. A probabilidade de o zumbido ser decorrente de tumor é reduzida mas, apesar disso, deve-se atentar ao sintoma quando este for unilateral ou estiver relacionado a tonturas e outras alterações no organismo.

Em casos de perda auditiva sensorioneural, que pode ser ocasionada por lesão nas estruturas internas do ouvido o dano tende a ser apenas controlado. Para estes casos, adequações de vícios e hábitos alimentares (evitar consumo de álcool, cafeína e tabaco), prática de atividades físicas, controle da pressão arterial e uso de medicamentos (vasodilatadores diretos, reguladores de fluxo sanguíneo, anticonvulsivantes, ansiolíticos, antidepressivos) são medidas fundamentais.

Conscientização

Para promover a conscientização sobre a preservação deste sentido a Sociedade Brasileira de Otologia lança a 8ª edição da Campanha Nacional da Saúde Auditiva (o endereço eletrônico já está no ar). O objetivo da ação é mostrar para o público de todas as idades, através de folders, cartazes e informações disponibilizadas no site, a necessidade de cuidados constantes e, muitas vezes, simples com a audição.

MAIS INFORMAÇÕES

Campanha Nacional da Saúde Auditiva

http://www.saudeauditiva.org.br/novo_site

ENTREVISTA
FERNANDA SAMPAIO

Zumbido auditivo é cada vez mais comum entre os jovens

O zumbido apresenta crescimento progressivo entre a população jovem. Qual o perfil desses pacientes ?

Na minha prática de consultório e ambulatório a demanda do atendimento desta população ainda é muito restrita. São poucos os jovens que procuram realizar a avaliação auditiva para detecção de possíveis perdas, apesar do hábito nocivo de exposição frequente ao ruído, seja em festas, uso de fones de ouvido e paredões. No entanto, observamos uma procura maior após eventos como Fortal ou micaretas, quando o jovem busca o atendimento devido ao aparecimento do zumbido.

Quais mecanismos geram a degeneração das células do ouvido? Tal condição resulta em zumbido e quais outros incômodos?

Dependendo da causa do zumbido podemos encontrar afetadas estruturas do ouvido interno. Por exemplo, a exposição ao ruído pode provocar uma lesão nas células ciliadas externas e internas do ouvido ou até mesmo no nervo auditivo, que, na maioria das vezes, são irreversíveis. Existem zumbidos em que a causa é idiopática (desconhecida), nestes casos pode acontecer um sintoma de origem central. Em outras situações a rolha de cera pode provocar o zumbido, nestes casos o simples fato do conduto auditivo externo estar cheio de cera produz o sintoma.

Como analisa as consequências do hábito da utilização de aparelhos de som individuais por crianças e adolescentes?

Na realidade, o uso inadequado é que provoca o dano à audição. Na maioria destes equipamentos, está disponível para o consumidor a informação sobre o NPS (Níveis de Pressão Sonora) que tais dispositivos podem atingir, no entanto, não existe uma orientação sobre o uso adequado. Como hoje é mais fácil o acesso do jovem, principalmente, de crianças a estes equipamentos, é imprescindível que os órgãos competentes Sociedades Brasileiras de Fonoaudiologia, Otorrinolaringologia, Pediatria, juntamente com os gestores da saúde e educação, promovam a educação continuada da população, informando sobre os problemas decorrentes do uso inadequado de equipamentos sonoros e exposição ao ruído.

Quais cuidados devem ser tomados para se tentar manter a saúde auditiva?

A primeira forma de prevenção é o pleno conhecimento e a conscientização dos agravos à saúde geral, em decorrência da exposição danosa ao ruído, que requer uma mudança de atitude e educação da população. Uma outra forma é a efetivação e aplicação de leis (como a lei do paredão) com punições exemplares aos infratores; bem como a fiscalização nas indústrias que produzam ruídos excessivos para uma utilização de novas tecnologias, que minimizem estes efeitos. É importante também propostas de educação continuada nas escolas (pública e privadas) para que as novas gerações cuidem da saúde auditiva.

Fonoaudióloga, mestre em Saúde Pública pela UFC, professora do curso de Fonoaudiologia da Unifor e fonoaudióloga do Hospital Geral de Fortaleza

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