VOLUNTARIADO

Vínculos de solidariedade

20:25 · 30.07.2011
O voluntariado é um trabalho construído com amor, dedicação e responsabilidade. Ser colaborador em qualquer projeto é uma lição de vida pela qual muitos se apaixonam. "Do ponto de vista pessoal, essa experiência me completa profundamente e me conduz à crença na solidariedade humana. Buscamos confortar esses jovens transmitindo sentimentos de amizade, amparo, atenção e afeto, extraindo o melhor de cada um deles", relata, Camile Grangeiro, voluntária do Fazendo Minha História na instituição de acolhimento Casa do Menor, localizado no Centro Espiritual Uirapuru (CEU).

Assim como no caso de Bárbara, Aurilene e Camile, todos os colaboradores têm de estar cientes de que o trabalho que realizam não terá nenhum retorno financeiro, mas que, por outro lado, precisam construir um vínculo com a criança a qual assistem. Para isso, há um comprometimento tanto por parte da instituição de acolhimento (fornecendo a estrutura necessária para trazer o projeto) quanto do colaborador, que passa por uma formação antes de iniciar o trabalho prático.

Os encontros dependem também da aceitação, desejo e investimento das crianças ou adolescentes. "O álbum é como um diário, porém, é construído com a ajuda de um outro com o qual existe uma relação de afetividade e de confiança", explica Bárbara Monte.

O colaborador, que não precisa ser psicólogo ou mesmo ter formação acadêmica, é quem oferece as ferramentas necessárias. Nada impõe, deixando que as leituras façam o papel de mediadoras entre a vida real e a imaginação. Relatos de histórias, felizes ou tristes, saem aos poucos, sem pressão, sem julgamentos ou obrigações.

"Eles são muito jovens e estão lidando com várias emoções (muitas delas não tão positivas). Acabam por se identificar e encontrar apoio nas histórias que ouvem e sobre as quais querem entender mais, saber como terminam e se poderia haver um final diferente", comenta Camile Grangeiro.

O vínculo se fortalece a cada visita, e, com o tempo, as crianças vão ficando mais autônomas no projeto. Muitas delas, assim como Juliana e Renata, começam a preparar o material bem antes; separam fotos, gravuras com legendas. É sinal de que a proposta do projeto está se cumprindo e, portanto, de que o trabalho está chegando ao fim.

A duração do projeto Fazendo Minha História com cada jovem é de mais ou menos um ano. O motivo é que, além de as questões emocionais mais urgentes já terem sido trabalhadas ao longo desse período, é preciso que voluntário e criança/adolescente se separem, o que pode ser um momento bastante difícil. É importante que não se crie entre eles a expectativa de uma adoção.

Ação coletiva

Mais de 115 abrigos de estados como São Paulo, Bahia, Maranhão, Paraíba, Paraná, Rio de Janeiro e Ceará já participaram do Fazendo Minha História. Isso só foi possível com a atuação de mais de 600 voluntários que dedicaram pelo menos 6 meses de suas vidas às 1.005 crianças e adolescentes atendidos diretamente pelo projeto.

"Não é o instituto que mantém os abrigos. Eles sobrevivem da parceria com outros projetos e, por isso, é preciso ressaltar a importância das doações, sejam de livros, materiais de pintura e desenho para os álbuns, como de dinheiro para revelação das fotos e alimentação para os moradores das casas. O mais importante, entretanto, é o papel do voluntário, pois não é todo mundo que está disposto a dedicar seu tempo para ajudar o próximo", informa Bárbara Monte.

O maior objetivo, segundo ela, é fazer com que esses jovens ganhem autonomia e, mesmo que não voltem ao convívio com a família, possam ter condições de seguir com dignidade através dos estudos e da inserção no mercado de trabalho.

O resultado de tanta dedicação é visível.  Renata, que em breve completará 18 anos, e, consequentemente deixará a Sociedade da Redenção, por exemplo,  retomou seus estudos e trabalha em uma agência de publicidade. Já Juliana, ainda não faz planos, entretanto, não guarda o sorriso ao ver o crescimento saudável da pequena Clara.

As mudanças são enormes. "Vemos o sorriso que não havia antes, a melhora no desempenho escolar, a diminuição do comportamento agressivo. Há a surpresa de um apanhado de desenhos feitos e guardados para a ocasião. Então, no fim de tudo, compomos mais páginas do álbum, que é o álbum da vida, da amizade. Um álbum de muitas histórias contadas com amor!", completa Camile Grangeiro.


Fique por dentro

Centro de pesquisa

Fundado em março de 2005, em São Paulo, o Instituto Fazendo História é uma organização não governamental idealizada por um grupo de psicólogas que trabalham com a causa de crianças e adolescentes que vivem em abrigos. A criação teve seu início com o Projeto Fazendo Minha

História, que desde 2002, atua nas instituições registrando e resgatando a história de vida desses jovens.

Com o tempo, surgiu a necessidade de ampliação dos projetos, possibilitando a criação de um centro de pesquisa e de novas práticas, a partir do qual nasceram os programas: Com Tato (atendimento psicoterapêutico a crianças e adolescentes); o Perspectivas (formação e capacitação junto aos gestores dos abrigos, educadores e equipe técnica), e o Palavra de Bebê (enfoca o vínculo entre bebês, pais e educadores durante o período de acolhimento), além do desenvolvimento de trabalhos em parceria com várias outras organizações.


Abrigos

30
Mil é o número de crianças vivendo atualmente em abrigos de todo o país. Para funcionar, todas as instituições devem ser registradas no Conselho Municipal da Criança e do Adolescente.


A opinião do especialista

Ler é uma aventura

Falar de desenvolvimento infantil implica sempre em um campo no qual a complexidade é inerente. Complexidade aqui não no sentido de complicado e sim por levar em conta muitas variáveis. Isso já sinaliza que não é possível pensarmos uma criança a partir de um único aspecto. 

Muitos são os estudiosos que delinearam aspectos do desenvolvimento infantil dando ênfase ao cognitivo. Destaco aqui a figura do russo Vigotski por ter construido propostas teóricas inovadoras acerca da relação pensamento e linguagem, da natureza do processo de desenvolvimento da criança e o papel da instrução no desenvolvimento.

Para esse autor o homem é um ser ativo que age sobre o mundo e transforma essas ações.  As crianças estão em constante interação com os adultos e é através da mediação dos adultos que os processos psicológicos mais complexos tomam forma. O desenvolvimento portanto está alicerçado sobre o plano das interações.

Em um ambiente no qual há estímulos e incentivos, onde a interação propicia trocas afetivas, certamente o desenvolvimento e, por consequência, o aprendizado, acontecerão de forma mais explícita. 

Não podemos deixar de mencionar, como disse Ortega y Gasset, que o homem não tem natureza, o homem tem história. Ou seja, a partir da ação do homem sobre o mundo real foi possível o surgimento da espécie humana como um ser pensante. A ação sobre o mundo possibilitou a própria gênese do pensamento em cada um de nós. 

Penso ser papel fundamental da família, antes de ser das escolas, esse incentivo. Apesar de vivermos no tempo do imediatismo onde tudo tem que ser rápido, a leitura, como sabemos, não se aplica à essa lógica. A leitura é algo ao qual cada um deve se aplicar com lentidão. Como nos disse Nietzsche a tarefa de formar um leitor é multiplicar suas perspectivas, abrir seus ouvidos, apurar seu olfato, educar seu gosto, sensibilizar seu tato, dar-lhe tempo, formar uma caráter livre e intrépido e fazer da leitura uma aventura.

Sabrina Serra Matos
* Psicóloga, psicanalista e professora da Universidade de Fortaleza (UNIFOR)


MAIS INFORMAÇÕES

Instituto Fazendo História no Ceará
Bárbara Machado Monte
Fone: 9111.8474
E-mail: escutapsi@yahoo.com.br
www.fazendohistoria.org.br

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