Entrevista com Camile Gouveia Varela

Valorizar o Ter em detrimento do Ser

00:58 · 18.06.2013
Jornada de trabalho excessiva repercute de forma negativa em vários âmbitos da vida do workaholic

"O indivíduo competitivo é aquele que mantém o equilíbrio entre o sucesso profissional, a família, o lazer, o afetivo, o espiritual e o físico", diz Camile Gouveia Varela, mestre em Psicologia e membro efetivo do Laboratório Otium FOTO: JL ROSA

O que faz o workaholic a levar um estilo de vida priorizado unicamente no trabalho?

Os principais motivadores de um workaholic possuem raízes pessoais e sociais. A busca incessante pela autorrealização e sucesso, muito atrelada ao status social que o indivíduo possui ou demonstra ter, conduz os profissionais a deterem-se acentuadamente ao trabalho como meio de assegurar tal status e não sentir-se à margem de um padrão social que valoriza o Ter em detrimento do Ser. Isto é, não importa se a jornada de trabalho excessiva não agrada ou apresenta repercussões negativas ao indivíduo em diversos âmbitos da sua vida, mas sim, o reconhecimento social que esta pode propiciar. Não se reconhecer mais nas atividades realizadas, não importa para esta lógica, mas mantê-las com afinco e a duras penas subjetivas é o que corrobora com o imperativo social dominante que confirma que todo o esforço despendido terá uma recompensa final: o prestígio e o poder. Estes como são sempre almejados faz com que o indivíduo entre em ciclo vicioso, através do qual, quanto mais se evidencia esse status e poder, mais lança a sua vida na centralidade do trabalho.

Como as empresas têm observado o workaholic no ambiente de trabalho?

Muito mais do que valorizar os ganhos que um workaholic pode propiciar a uma organização a partir da sua intensa dedicação ao trabalho, os profissionais de Recursos Humanos estão cada vez mais atentos e sensíveis às perdas que podem advir desse ciclo vicioso com o trabalho, não apenas para a empresa como um todo, mas sobretudo para o profissional workaholic, que passa a ter prejuízos pessoais, afetivos e sociais, como consequência desse processo. Para as organizações de trabalho, em uma perspectiva estratégica na gestão de pessoas, o profissional competitivo e de elevada empregabilidade é aquele que consegue manter o equilíbrio entre o sucesso profissional e a preservação de outras esferas de sua vida: a família, o lazer, o afetivo, o espiritual e o físico. Dessa forma, ao se perceber um profissional workaholic no ambiente organizacional temos um sinal de alerta e cuidado que precisa ser considerado.

Quais os prejuízos, a curto e longo prazos, que este estilo de vida pode causar ao indivíduo, seja no âmbito pessoal ou profissional, tendo em vista a supressão de momentos de lazer e ócio?

Considerando que o workaholic dificilmente consegue se desprender do trabalho, mesmo quando está fora do ambiente organizacional, o seu tempo livre é muito prejudicado, sendo na maioria das vezes preenchido por uma série de afazeres ou atividades heterocondicionadas, ou seja, que são condicionadas externamente visando corresponder as expectativas de terceiros e não as do próprio indivíduo que vai progressivamente se distanciando de si mesmo e daquilo que verdadeiramente lhe dá prazer. Aos poucos, envereda por um caminho pelo qual se vai esvaindo de sentidos e do seus valores essenciais, conduzindo-o a um processo de sofrimento psíquico.

Como uma pessoa viciada em trabalho deve proceder para melhorar sua qualidade de vida? E como alertá-la sobre tais danos?

Mais que dar um conselho a profissionais que se encontram nesta condição, convocamos os mesmos à sensibilização para o preço pago à manutenção de um estilo de vida voltado a atender mais expectativas externas do que a si mesmo. Não se trata aqui de uma apologia contra o trabalho, pelo contrário, este é relevante tanto para a identidade desse indivíduo como para o pleno funcionamento da vida social. No entanto, a vida é mais ampla, encontra-se também para além da dimensão do trabalho, contemplando outras esferas que o workaholic já não consegue reconhecer seu devido valor. Torna-se, portanto, resgatar valores essenciais há muito esquecidos. Se dar e se permitir também vivenciar um tempo destinado às experiências de desfrute, nesta perspectiva, totalmente subjetivas, livremente escolhidas pelo indivíduo a partir do que lhe move internamente, e não externamente.

Quais experiências/ações seriam essas?

Como dedicar mais tempo à família e às pessoas de quem se gosta; caminhar na praia; contemplar um pôr do sol; praticar um esporte ou simplesmente ficar na cama "sem nada fazer", na lógica da produtividade. Mas fazendo muito por si mesmo e, consequentemente, pelas pessoas com quem se relaciona, que certamente passam a ter ganhos secundários a partir das mudanças vividas pelo workaholic. É importante ressaltar que, de acordo com o nível da relação "dependência" mantida com o trabalho e do peso dos danos já ocasionados aos demais âmbitos da vida sem que esse ciclo seja minimamente quebrado, pode ser chegada a hora de buscar ajuda profissional mediante processos de psicoterapias disponíveis no mercado.

FIQUE POR DENTRO

Relação é ditada pelos excessos e a compulsão

Workaholic é uma expressão que significa "pessoas viciadas em trabalho" ou que têm compulsão pelo trabalho mediante a qual, muitas vezes, reconhecendo os excessos, o indivíduo não consegue reduzir a carga e a intensidade do trabalho, por variáveis de ordem pessoal e social.

Desde a Revolução Industrial, quando um novo tempo social passa a ser demarcado pela relação com o trabalho, o fenômeno se manifesta, gerando impactos nas atividades profissionais. Quando a mecanização assume o comando, novas expectativas ocorrem, principalmente aos profissionais em cargos elevados. Máxima eficiência, previsibilidade e resultados são algumas das mínimas exigências feitas a estes profissionais.

Nas últimas décadas, o fenômeno workaholic tornou-se mais acentuado, visto que a nova ordem dita a centralidade do trabalho como meio para obtenção de autorrealização, aspirações, anseios e sucesso, impulsionando as organizações a buscarem trabalhadores cada vez mais absorvidos e integrados ao negócio.

SAIBA MAIS

São vários os danos que geram sofrimento psíquico no indivíduo workaholic. Entre os mais frequentes:

Dificuldade em comunicar-se com a família, que torna-se distante ou carente da presença efetiva do profissional workaholic;

Relações interpessoais tensas, geralmente permeadas mais por autoridade do que por respeito, gerando um clima tenso no ambiente de trabalho;

Distancionamento e desconhecimento do cotidiano dos filhos, sendo geralmente o último a saber dos acontecimentos, muitas vezes quando estes já estão resolvidos;

Diminuição das atividades sociais, esportivas e de lazer;

Alterações do sono e, consequentemente, fadiga, irritabilidade e alterações de humor, além de oscilações de produtividade

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