Transplante cardíaco

Uma grande mudança em um pequeno coração

00:00 · 15.10.2013
O transplante de coração infantil tem aprimorado estruturas e reinserido crianças a uma vida com qualidade

O coração é um órgão vital, cuja função é o bombeamento de sangue para os órgãos, sendo também responsável pelo fornecimento de oxigênio e nutrientes ao organismo. Por vezes, doenças evoluem ao ponto de tornar necessário o transplante do órgão em crianças.

O transplante de coração infantil não difere do realizado em adultos. Envolve a atuação de uma equipe multidisciplinar; e o tempo de recuperação depende mais da condição pré-operatória do que da idade do paciente Foto: Alex Costa

"No Ceará, são feitos em média três a cinco transplantes cardíacos infantis por ano, o que é um baixo volume do ponto de vista internacional, já que grandes centros realizam mais de dez transplantes ao ano. No Brasil, somos o segundo maior centro transplantador cardíaco infantil. O primeiro é o Instituto do Coração (Incor) em São Paulo", diz a cardiologista pediátrica Klébia Castello Branco, coordenadora do serviço de transplante cardíaco infantil do Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes e doutora em cardiologia pela USP.

Não há diferenças técnicas significativas entre o transplante adulto e pediátrico, exceto em alguns casos de anomalias congênitas, quando são necessárias algumas modificações. A indicação de transplante cardíaco se faz na presença de uma doença cardíaca congênita ou adquirida que não responde a nenhum outro tipo de tratamento.

Mesma conduta

O procedimento é o mesmo: "Atualmente é muito utilizada a técnica bicaval, pela qual se realiza a anastomose (ligação) do coração do doador às veias cavas do receptor, conservando parte do átrio do paciente (região do coração) e a aorta (maior e mais importante artéria do sistema circulatório do corpo humano)", explica a cardiologista. Além disso, não há restrição quanto à idade, com exceção de bebês prematuros.

A técnica é indicada no caso de doenças como cardiomiopatias dilatadas (adquiridas e caracterizadas por doenças no coração que envolvem o miocárdio, músculo cardíaco localizado na parede do órgão) e cardiopatias (congênitas) que não responderam a nenhum outro tratamento.

O processo de transplante de coração infantil utiliza uma equipe multidisciplinar formada por cirurgião cardíaco pediátrico, cardiologista pediátrico, anestesista com especialização em cardiologia pediátrica, intensivistas, enfermeiras, fisioterapeutas, assistentes sociais, nutricionista, psicóloga e terapeuta ocupacional.

Resultados

Para incluir a criança na lista de espera, estima-se uma semana geralmente, tempo em que o protocolo será seguido. No entanto, o tempo de recuperação depende mais da condição pré-operatória do que da idade, embora, segundo Klébia Castello Branco, a criança tende a se recuperar mais rapidamente.

"O sucesso das cirurgias é caracterizado pela função adequada do enxerto e dos outros órgãos transplantados, sem a presença de sequelas que possam comprometer a saúde. A prioridade é fazer com que o paciente seja reinserido na sociedade com qualidade de vida semelhante aos demais".

No entanto, conforme a cardiologista, ainda há ações que devem ser buscadas por todos, sociedade, profissionais e pacientes, a exemplo da melhoria da assistência de saúde, principalmente no setor hospitalar, além de campanhas de esclarecimento e educação. As limitações são inúmeras e englobam tanto o procedimento e do processo de recuperação.

Limitações no método

Klébia Castello Branco enumera as dificuldades: problemas sociais dificultam o acompanhamento das crianças; falta uma casa de apoio onde elas possam ficar, em especial aquelas que residem no interior ou em outros estados; ausência de vaga para atendê-las e, principalmente, a escassez de doação de órgãos na faixa etária pediátrica.

"A doação para crianças é mais difícil, tanto pelo aspecto emocional quanto prático. Os doadores ideais são as vítimas de traumatismo crânio-encefálico, o que ocorre raramente com crianças; o número de acidentes também é menor. Além disso, ainda é necessária a compatibilidade de peso e de tipagem sanguínea", discorre.

Atuação

Apesar disso, até o momento, o Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes já realizou cinco transplantes em crianças. Todas estão reagindo positivamente aos transplantes e permanecem sob os cuidados da equipe multidisciplinar. O número já ultrapassa o de 2012, quando no mesmo período foram feitos três procedimentos cirúrgicos.

A coordenadora da Unidade de Pediatria do hospital acrescenta: "Há cinco meses o serviço estava completamente parado por falta de doações. O último transplante tinha sido realizado em abril. Acreditamos que essa mudança ocorreu graças às campanhas que estão sendo realizadas pelos meios de comunicação, que esclarecem a importância da doação".

Padrão

Referência estadual em cardiologia adulta e infantil como também pneumologia para diagnóstico, tratamento clínico e cirúrgico, o Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes (HM) é modelo na realização de transplantes cardíacos e pulmonares nas regiões Norte e Nordeste.

Este ano, o HM completa 80 anos de fundação. Além dos procedimentos citados, realiza pesquisas experimentais e estudos multicêntricos; oferece programas de combate à asma e tabagismo; compõe a Rede Internacional de Gestão Pública; é reconhecido pelo MEC como Centro de Ensino e Pesquisa; e desenvolve, com uma equipe formada por 16 médicos, o primeiro doutorado Norte, Nordeste e Centro Oeste em cardiologia.

Contexto

Em decorrência do reconhecimento da sua importância para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), o Hospital de Messejana apresenta capacidade de 349 leitos, assim distribuídos: 117 para a área cardiológica, 58 de pneumologia, 20 de cardiologia pediátrica, 89 para emergência e 65 para o área de terapia intensiva.

FIQUE POR DENTRO

O estado do Ceará é o terceiro doador do Brasil

Em sua 11ª edição, o Movimento Doe de Coração contribui para fomentar a conscientização pela doação voluntária de órgãos no estado do Ceará. Desde o início da campanha, em 2003, o número de transplantes mais que triplicou. Até a primeira quinzena de agosto deste ano, foram realizadas 697 cirurgias, o que colocou o Ceará na 3ª posição no país no número de doações efetivas por milhão da população.

São contabilizadas cirurgias de transplante de córneas, esclera, rins, coração, fígado, medula óssea, válvulas cardíacas, pâncreas e pulmão. De acordo com dados da Central de Transplantes do Ceará, em 2003 foram realizados 420 transplantes. Em 2012, o total geral foi de 1.269, 849 a mais em comparação com o ano de 2003.

Tradicionalmente no mês de setembro, a campanha é realizada pela Fundação Edson Queiroz e foi reconhecida pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) em 2008 com o Prêmio Amigo do Transplante. A sensibilização da sociedade, em especial a rede de saúde pública e privada, é feita com o uso incisivo dos meios de comunicação. A mobilização ocorre em hospitais, escolas, clínicas, no Sistema Verdes Mares de Comunicação, na Unifor e em diversas entidades.

De acordo com o Ministério da Saúde, o primeiro passo para se tornar um doador é conversar com a família e deixar bem claro o desejo de doar os órgãos. Não é necessário deixar nada por escrito e a doação é permitida a partir do momento da constatação da morte encefálica.

Em alguns casos, a doação em vida também pode ser realizada nos quadros que apresentam parentesco até 4ºgrau, do contrário, é exigida uma autorização judicial aos casos que não existe o parentesco.

VICKY NÓBREGA
ESPECIAL PARA O VIDA

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