Chão Derrapante

Um pequeno deslize ou queda podem se tornar grandes lesões

00:59 · 20.08.2013
Simples desequilíbrios podem causar sérios prejuízos à saúde. Problema é ainda mais frequente em idosos

Imagine sair para almoçar em família ou com amigos no domingo. A finalidade, claro, é aproveitar o momento de lazer e descontração. Mas, e quando um pequeno acidente estraga tudo? Foi o que aconteceu com Fernanda (nome fictício), de 60 anos, em um dos restaurantes da capital cearense. Ao levantar-se para pagar a conta, escorregou e fraturou a tíbia e o pé, além de lesionar o joelho e o tornozelo.

"Foi tudo muito rápido e não houve tempo para me segurar. O susto foi tão grande que precisei ficar no chão até me acalmar", relembra.

Apesar da queda ter sido de baixo grau de impacto, os danos resultaram em lesões intensas. "Fiquei com a perna imobilizada por cerca de oito semanas. Precisei interromper parte das minhas atividades para fazer fisioterapia, e ainda me encontro em processo de recuperação".

O acidente poderia ter ocorrido por descuido ou distração. Mas, segundo os médicos que atenderam Fernanda, casos como esse acontecem com frequência em Fortaleza, principalmente em restaurantes e churrascarias. "Todos me alertaram quanto à higiene e ao piso utilizado no estabelecimento. É provável que tivessem restos de alimentos, água ou até mesmo gordura espalhada pelo chão. Assim, é difícil evitar", conta.

Todos os dias estamos sujeitos a acidentes como esse. Afinal, a maioria de nossas calçadas são desniveladas e os pisos escorregadios, o que não garante a devida segurança aos transeuntes. Diante das circunstâncias, como é possível evitar esses acidentes?

A Vigilância Sanitária é quem regulamenta e monitora ambientes que trabalham com serviços de alimentação, como bares, restaurantes, lanchonetes e supermercados.

Medidas úteis

De acordo com Aline Costa, engenheira do Departamento de Alimentos do órgão, é obrigação de cada estabelecimento oferecer instalações físicas (como piso, paredes e teto) com revestimento liso, impermeável e lavável. Seguir essas diretrizes garante maior segurança a funcionários e clientes. "Esses locais são fiscalizados, via de regra, uma vez por ano, podendo ser vistoriados mais vezes em casos de denúncias ou em virtude de grandes eventos. Caso esteja em condições higiênico-sanitárias adequadas, é expedida uma licença, com validade de 12 meses", explica.

Entretanto, é necessário ficar atento a outros fatores que também podem provocar quedas, como o tipo de calçado, afirma Marcelo Cortez, traumato-ortopedista e professor de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor). "Observar o calçado é essencial. Sapatos com solado antiderrapante previnem escorregões. Orientamos também amarrar corretamente o cadarço, substituir chinelos que estão deformados ou muito frouxos e evitar sapatos altos com solado liso", pontua.

Idoso

Dependendo da faixa etária e do condicionamento físico do individuo, tais quedas podem representar um grande risco. "O perigo é ainda maior em idosos, devido à fragilidade óssea, característica que aumenta o risco de fraturas", salienta o médico Marcelo Cortez.

É justamente a terceira idade o grupo com maior número de acidentados. Estima-se que ocorra uma queda para cada três indivíduos acima dos 60 anos e que 5% desses sofram uma fratura ou necessitem de internação.

Ainda de acordo com Marcelo Cortez, a maioria dos acidentes acontecem em ambiente domiciliar e suas causas variam, podendo estar associadas a diversos fatores relacionados à idade. "Os fatores são intrínsecos, decorrentes de alterações fisiológicas, a doenças típicas da terceira idade e a efeitos causados pelo uso de fármacos; ou extrínsecos, resultantes de circunstâncias sociais e ambientais que criam desafios ao idoso", esclarece.

Entre as causas que facilitam o desequilíbrio, a diminuição da força muscular, decréscimo da visão e da audição, arritmia cardíaca, alteração da pressão arterial, artrose, deformidades nos pés (como unhas grandes e joanetes dolorosos), depressão e alterações neurológicas, como Parkinson, Alzheimer e esclerose múltipla.

Risco elevado

O médico destaca que o elevado risco de haver fratura, ainda mais em indivíduos com osteoporose, corrobora com as altas taxas de morbidade e mortalidade. Além dos problemas médicos, as quedas apresentam um grande custo social, econômico e psicológico ao acidentado, aumentando seu grau de dependência.

Estudos apontam que a frequência de quedas é maior entre mulheres. Acima dos 75 anos, elas representam 40% dos casos com fratura. Já os homens somam 28%. Com o avanço da idade, os índices desse tipo de acidente tendem a aumentar, podendo chegar a 51% em idosos acima de 85 anos. Geralmente, o quadril e o antebraço são as regiões mais afetadas.

Precaução

Como mais de 70% dos acidentes acontecem dentro de casa, alguns cuidados devem ser tomados em todos os ambientes, a começar pela iluminação.

Providenciar interruptores de luz de fácil alcance durante a noite é fundamental, assim como instalar algum tipo de lâmpada no trajeto do quarto para o banheiro e dar prioridade a interruptores fosforescentes. Todas são medidas que auxiliam a ampliar o campo de visão e o censo de orientação durante a noite.

No quarto, é importante atentar-se para a altura da cama. Leitos muito baixos e com colchões muito macios podem dificultar o ato de deitar ou levantar. "O ideal é dormir em uma cama com altura condizente ao comprimento do indivíduo. Também é interessante substituir lençóis e acolchoados por produtos fabricados com material não escorregadio, como lã e algodão", recomenda o ortopedista.

Na sala, os móveis devem estar dispostos de modo a não interferir na passagem, mantendo, por exemplo, mesas de centro e descansos de pé fora da zona de circulação.

Evitar cadeiras e sofás muito baixos e dar preferência àqueles com material confortável e apoio para os braços. Atenção também aos tapetes, que devem ser utilizados em áreas livres, com duas faces adesivas ou com a parte de baixo emborrachada para fixá-lo ao chão.

"Além disso, é preciso manter fios elétricos e de telefone fora das áreas de trânsito. Mas nunca debaixo de tapetes, porque podem se tornar uma armadilha", ressalta o médico Marcelo Cortez.

Na cozinha, não utilizar armários muito altos que necessitem de bancos ou escadas para alcançar os objetos. O armazenamento de comida, louças e demais acessórios culinários deve ser feito em locais de fácil acesso. É indispensável que as estantes estejam bem fixadas à parede e ao chão para permitir o apoio do idoso quando necessário.

"Limpar imediatamente qualquer líquido, gordura ou comida que tenha sido derrubado no chão e utilizar produtos de limpeza que não deixem o piso escorregadio", acrescenta.

Quanto ao banheiro, considere utilizar uma cadeira de plástico firme ao banhar-se, caso não consiga se abaixar ou se sinta instável. Uma alternativa útil é instalar barras de apoio nas paredes, próximo ao chuveiro e ao vaso sanitário.

FRASES

"Estima-se uma queda para cada três indivíduos acima dos 60 anos. Deles, 5% sofrem fratura ou necessitam de internação"

"O ambiente domiciliar é onde ocorre 70% dos acidentes, cujas causas podem estar ligadas a fatores referentes à idade"

Marcelo Cortez
Traumato-ortopedista

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