leucemia mieloide crônica

Tratamento para a remissão da LMC

00:00 · 16.12.2013

Além de ser uma patologia controlável, a LMC passa a apresentar chances reais de recuperação

Um rapaz do interior de 16 anos chega ao consultório com uma barriga estendida devido ao aumento no volume do baço, 300 mil leucócitos e inicia o tratamento de leucemia. Sem doador, ele morre aos 21 anos. Esse é o panorama do que ocorria há cerca de 30 anos quando alguém era diagnosticado com leucemia no Brasil. Hoje a doença é controlável e pesquisas buscam provar que é possível a suspensão do medicamento após alguns anos de tratamento.

A leucemia é causada por um desordem na medula óssea em uma célula específica denominada mieloide, que começa a gerar um aumento progressivo e descontrolado do número de células brancas (leucócitos) foto: reprodução

A médica Carla Boquimpani, chefe de clínica do Serviço de Hematologia do Instituto Estadual de Hematologia Arthur de Siqueira Cavalcanti (Hemorio), no Rio de Janeiro, explica que a leucemia é um câncer que acomete as células sanguíneas. É provocado por uma desordem na medula óssea (onde são produzidas as células sanguíneas), em uma célula específica chamada mieloide, que começa a gerar o aumento progressivo e descontrolado do número de células brancas (leucócitos), produzindo um tumor líquido.

A leucemia mieloide crônica (LMC) surge com uma troca mal sucedida entre os cromossomos 9 e 22, uma anomalia cromossômica chamada cromossomo Filadélfia. Fator que leva a produção do gen BCR-ADL responsável pelo estímulo de atividade de produção das células de forma desregulada. "Tudo é orientado pelo DNA da célula, mas a célula do câncer não segue essa ordem, o que resulta na LMC", esclarece.

Remissão da LMC

Atualmente, no Brasil, são mais de oito mil pessoas que vivem com LMC. A doença já é tratada por meio de terapia-alvo, uma vez que atinge um foco específico, aspecto que a tornou controlável. O medicamento age diretamente na proteína BCR-ABL e é tomado pelo paciente ao longo de toda a sua vida.

"Falar de LMC é um prazer, já que antes era uma patologia muito grave e hoje é controlável, o que já se torna um marco na história do câncer no mundo", reforça a médica.

Estudo atual, por meio de um programa global, busca mostrar o potencial de remissão da LMC após o uso e suspensão da terapia-alvo. No Brasil, o ENESTop, estudo promovido pela Novartis Oncologia (fabricante dos medicamentos utilizados na cura da LMC), terá a participação de nove centros de referência conduzidos por médicos experientes em oncologia e hemato-oncologia. Os pacientes serão recrutados em São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro, Campinas, Goiânia, Belo Horizonte e Porto Alegre.

De acordo com a hematologista Monika Conchon, do Hospital Santa Marcelina, os pacientes que apresentam a resposta completa podem ficar dispensados de tratamento. A pesquisa visa avaliar 2.500 pacientes em 39 países. Espera-se que 1.000 pacientes possam ficar livre do tratamento mas se mantendo monitorado pelo médico para controlar qualquer evento adverso.

Contudo, é preciso entender o que corresponde a uma resposta completa. O diagnóstico do paciente de LCM é realizado por exames que determinam as fases em que a doença se encontra.

Carla Boquimpani discorre que o hemograma identificará a quantidade de células sanguíneas produzidas; enquanto a citogenética apontará a presença do cromossomo Filadélfia na medula óssea; e o PCR qualitativo, a presença da proteína BCR-ADL.

O tratamento visa resposta hematológica completa (normalizar o hemograma), resposta citogenética completa (acabar com o cromossomo Filadélfia) e resposta molecular completa (destruir a proteína que gera o estímulo da multiplicação para a acabar com o estímulo), conseguindo assim, atingir o alvo principal da doença.

Segundo a médica do Hemorio, antes do tratamento de primeira linha, com o medicamento Imatinibe lançado nos anos 2000 no Brasil, o paciente podia estar em qualquer uma dessas fases quando chegava ao consultório: crônica, acelerada ou crise blástica (leucemia mieloide aguda). Na primeira etapa, o paciente geralmente não sentiria nenhum sintoma, no máximo algum desconforto. O diagnóstico normalmente era feito por acaso por algum médico que solicitaria o hemograma completo. Na fase crônica com tratamento, ele teria uma sobrevida de 5 a 7 anos. Depois, o paciente progrediria para a fase acelerada onde passaria 1 a 2 anos, e chegaria na crise blástica (leucemia mieloide aguda) que se prolongava entre 6 a 12 meses, tendo no máximo 10 a 11 anos de vida com o tratamento anterior.

"A terapia se resumia apenas em destruir as células em excesso, mas a doença continuava lá. Nos anos 1970, o transplante de medula óssea era a única chance de cura do paciente, mas sempre houve uma grande dificuldade em conseguir doador. Hoje, o Imatinibe (primeira linha), dedicado aos pacientes que recebem o tratamento inicial, possibilita uma vida normal, e não permite que chegue à fase acelerada. E o Nilotinibe, aprovado em 2009 como segunda linha de tratamento aos pacientes que falharam com a tratamento prévio", enfatiza.

Características

A patologia acomete desde jovens a idosos. Inicialmente, é assintomática, 20% a 50% dos casos se apresentam com a multiplicação das células sanguíneas, o que não registra sintomas. "Hoje é acessível o exame de sangue. O hemograma completo, às vezes, é pedido pelo ginecologista ou por algum médico em circunstâncias adversas como antes de dar início a exercícios físicos, o que permite que o diagnóstico e o tratamento comecem cedo", afirma Boquimpani.

Posteriormente, com o avanço da doença sem o tratamento, o paciente emagrece, sente cansaço, mal-estar, desconforto abdominal (já que o baço é o órgão onde essas células ficam reservadas ocasionando o seu crescimento).

Pesquisa em curso

Para a realização da pesquisa serão recrutados os pacientes que já foram tratados com Imatinibe. Isso porque, no Brasil, o Nilotinibe só pode ser usado como tratamento de segunda linha. Dessa forma, passam um ano com Imatinibe e dois, com Nilotinibe.

Monika Conchon pontua que nem todos terão a medicação suspensa, pois os elegíveis serão apenas aqueles que tomaram o Nilotinibe por dois anos e tiveramn resposta molecular profunda. "Nesse caso, ele toma por mais um ano a medicação, sendo avaliado mensalmente com o exame PCR qualitativo. Se ele se mantiver com uma boa resposta, ai sim, inicia a fase de suspensão do medicamento".

A hematologista reforça que tão importante quanto tratá-lo é monitorá-lo. Por isso, o acompanhamento será incisivo com os pacientes do estudo e os que não continuarem com a resposta molecular profunda, retomarão o uso do medicamento indefinidamente. "O objetivo é verificar se após 12 meses de tratamento com Nilotinibe, ele permanecerá com livre remissão. A avaliação será feita por 4 anos após a interrupção do tratamento, analisando a progressão. Teoricamente, nenhum deles retomará o estado inicial, pois os que recaíram no ponto de vista molecular, nenhum deles recaiu no ponto hematológico", conclui Monika Conchon.

VICKY NÓBREGA*
ESPECIAL PARA O VIDA

*A repórter viajou a convite da Novartis Oncologia

Realidade

Anteriormente, a terapia se resumia apenas a destruir as células em excesso, mas a doença (a LMC) continuava lá
Dra. Carla Boquimpani
Chefe do Serviço de Hematologia/ Hemorio

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