Intervenção

Transplante ósseo garante qualidade de vida

00:25 · 16.07.2013
Um doador-cadáver de tecido ósseo beneficia cerca de 100 pessoas nas áreas de ortopedia e odontologia

Aborda-se muito sobre transplante de medula, rins, coração, córnea, mas o transplante ósseo ainda é tido como algo incomum. Engano de quem pensa que não há importância, já que a fila de espera possui um grande número de pacientes.

Radiografia do transplante de tecido ósseo que utilizou 112 gramas de uma região do fêmur pertencente a um doador-cadáver Foto: Divulgação

Segundo o traumatologista-ortopedista Robson Alves, especialista em patologias do quadril, a maioria das cirurgias de transplantes na ortopedia correspondem a revisões de próteses de quadril (cirurgias de troca de prótese articular, de tumores ósseos) e revisões de prótese de joelho.

"A realização de transplante ósseo é destinada aos casos em que existe cavidade dentro do osso em áreas de função relevante, sobretudo se forem importantes para o suporte de peso. Essa cavidade acontece quando uma prótese prévia demonstra soltura e, apesar disso, não é acompanhada anualmente pelo médico", descreve o também presidente da Sociedade Brasileira de Quadril (SBQ), Regional Norte- Nordeste.

Avaliação anual

Diante disso, o médico alerta todos aqueles que têm prótese de quadril sobre a necessidade de serem avaliados pelo menos uma vez por ano. A prevenção evita grandes cirurgias (como os transplantes).

Robson Alves revela que o tecido ósseo para transplante é um fragmento de osso removido de forma cirúrgica, na maioria das vezes, de um doador cadáver. Após passar por um preparo, o tecido é liberado para uso em outra pessoa (receptor).

"A maioria das doações de tecido músculo-esquelético são autorizadas por famílias que perderam algum parente e desejaram melhorar a qualidade de vida de outras pessoas", afirma o médico.

Daí a importância do futuro doador mostrar em vida sua vontade de doar os ossos. Após removidos do corpo, eles são substituídos por material sintético, o que evita deformações no doador.

Doador

De acordo com o Banco de Tecidos do Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia do Rio de Janeiro (Into), os doadores podem ser pessoas com idade entre 18 e 70 anos, que não adquiriram câncer ósseo, osteoporose ou doenças infecciosas transmitidas por meio do sangue (como hepatite, Aids, malária).

Também não é permitido doar quem, a menos de um ano, fez tatuagem ou uso prolongado de corticoide, acupuntura ou recebeu transfusão sanguínea. "Cada doador-cadáver beneficia em média 30 pessoas, mas se pensarmos na utilização também por dentistas, pode chegar a mais de 100 pessoas", revela Robson Alves.

Para a realização de todo o processo, desde a solicitação do tecido ósseo até o transplante do mesmo, o tempo médio varia de três a quatro semanas. A estrutura é requisitada pelo cirurgião transplantador diretamente ao banco de tecidos após a entrega de documentos e a escolha de um hospital autorizado para fazer a intervenção.

"No momento, apenas o Hospital Regional da Unimed e nossa equipe estão autorizadas pelo Ministério da Saúde a realizar. Sabemos que existem outros hospitais muito bons e equipes capacitadas, mas há uma burocracia extensa a ser vencida", informa o médico.

Transplante

Após autorizada a cirurgia, prepara-se o local onde existe o problema ou cavidade óssea que precisa ser preenchida. O tecido chega por meio de transporte aéreo no dia correspondente à cirurgia e com a hora de chegada bem próxima ao procedimento. Acondicionado em um recipiente de isopor envolto em gelo seco, o tecido recebe vários lacres de identificação. No centro cirúrgico, o tecido é preparado para ganhar o formato desejado e só então é implantado no receptor.

Apesar do procedimento ter baixo risco, a infecção requer cuidados intensos. Por Isso, o médico acrescenta que, mesmo banhado em antibiótico, são colhidas várias culturas do tecido ósseo utilizado a fim de observar se existem germes.

Consideradas de alta complexidade, as cirurgias de troca de prótese exigem um planejamento cirúrgico adequado, implantes de alto custo e equipe experiente. São procedimentos cuja duração, geralmente, variam de quatro a seis horas.

Realizado o transplante, o intervalo de tempo para assegurar a adaptação do paciente corresponde de seis meses a um ano. Conforme o ortopedista Robson Alves, a garantia de que a intervenção foi um sucesso está nas mudanças positivas geradas no paciente.

"A melhora é significativa na qualidade de vida, com diminuição importante das dores e, muitas vezes, abolição das dores, bem como uma boa capacidade de desempenhar as atividades diárias". Entre elas o médico destaca: andar sem muletas, subir e descer escadas, andar mais do que mil metros, ter uma mobilidade de pelo menos 70% a 80% do normal e não mancar.

Radiografia do transplante de tecido ósseo que utilizou 112 gramas de uma região do fêmur pertencente a um doador-cadáver Foto: Divulgação

FIQUE POR DENTRO

Procedimento chega à capital cearense

O transplante ósseo é uma realidade em Fortaleza já que, neste ano, o Hospital Regional Unimed (HRU) realizou o primeiro transplante de tecido ósseo do Ceará. O procedimento foi feito em um paciente com 58 anos, onde foram utilizados 112 gramas de uma região do fêmur de um doador-cadáver disponibilizado pelo INTO. A equipe encarregada do procedimento foi integrada pelos médicos ortopedistas Robson Alves, Leonardo Drummond, Samuel Magalhães e Cláudio Martins.

Diante do desenvolvimento da cirurgia do quadril na capital cearense, a Sociedade Brasileira de Quadril (Regional Norte-Nordeste), promove a II Jornada Itinerante de Quadril durante os dias 19 e 20 deste mês.

Estarão presentes, nomes de relevância técnico-científica como Dr. Emerson Honda (SP) e Dr. Sérgio Delmonte (RJ). O objetivo é gerar o intercâmbio de experiência e conhecimento entre os participantes, trazendo soluções para o dia a dia desses cirurgiões. Para mais informações, acesse o site do evento: http://www.jisbq.com.br/.

VICKY NÓBREGA
ESPECIAL PARA O VIDA

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