PREVENÇÃO

Tosse que não para

19:54 · 01.10.2011
Vacinação da população adulta é vital para proteger as crianças da coqueluche

Uma doença que a maioria das pessoas pensa que está erradicada, tem acometido um número cada vez maior de indivíduos não só no Brasil, mas no mundo inteiro. A coqueluche, considerada uma doença que atinge principalmente as crianças, vem se tornando também um mal à saúde dos jovens e adultos, embora seja bem mais grave nos pequenos. É quase sempre fatal nos menores de um ano de idade.

Segundo o Dr. Renato Kfouri, presidente da Associação Brasileira de Imunizações (Sbim), mais de 75% dos bebês diagnosticados com coqueluche foram infectados por pessoas próximas. Pesquisa publicada no jornal da Sociedade Pediátrica de Doenças Infecciosas (Pediatric Infectious Diseases Society) revelou que a mãe é a principal fonte de transmissão, respondendo por 33% dos casos, seguida pelos irmãos (19%), pelo pai (16%) e pelos avôs (8%), o que demonstra a necessidade de imunizar também os adultos que convivem com a criança.

Outra característica da bactéria (Bordetella pertussis), é a alta taxa de ataque, de 80%. Isso significa que, em um ambiente com dez pessoas que não estão imunes à coqueluche, se uma delas está com a doença, pelo menos outras oito pessoas que estão no local serão infectadas.

Ameaça mundial

A coqueluche é uma doença global, que acomete os países com alta cobertura de vacinação, afirma a Dra. Luiza Arlant, pediatra e vice-presidente da Sociedade Latino Americana de Infectologia Pediátrica (Slipe). Segundo Arlant, estima-se que 50 milhões de casos ocorrem por ano no mundo todo e cerca de 300 mil evoluem para óbito.

O que se tem notado em vários países é o aumento do número de jovens e adultos acometidos pela doença. "Há alguns anos, na década de 1980, por exemplo, quando as enfermarias ficavam lotadas de pessoas com coqueluche, houve uma intensificação da vacinação tríplice bacteriana, que protege contra difteria, tétano e coqueluche. À medida que essa vacina foi sendo aplicada, o número de casos de coqueluche foi reduzindo, até 2009. A partir desse ano, o que se tem notado no mundo todo é um aumento excessivo no número de casos de coqueluche, numa faixa etária que ninguém esperaria que fosse aumentar tão rapidamente", afirma Dra. Luiza Arlant.

De acordo com o Dr. Renato Kfouri, esse fenômeno aconteceu pois a vacina garante um tempo menor de imunidade, entre seis e oito anos. Já a proteção natural do organismo, após se recuperar de uma coqueluche, é eficaz até 15 anos depois de contrair a doença. "Mesmo tendo sido vacinado quando lactente, no primeiro ano de vida, o indivíduo vai perdendo a proteção. Atualmente, ninguém mais teve essa infecção natural, porque a vacina já é aplicada há muitos anos. Chegamos num momento em que a vacina que os jovens e adultos tomaram há alguns anos começou a perder o efeito", informa o médico.

Em 2011, até o mês de agosto foram confirmadas 593 pessoas com a doença no Brasil. 76% desses casos acometeram crianças com menos de um ano de idade. Destes, 16 chegaram a ser fatais. Nesse ano houveram dois surtos da doença, um em Feira de Santana (Bahia) e outro em Mundaú (Alagoas), com 87 e 53 casos suspeitos, respectivamente.

Tosse comprida

A coqueluche é causada pela bactéria Bordetella pertussis, transmitida via aérea, e que se aloja nas regiões do nariz e da faringe. A traqueia e os brônquios, órgãos que funcionam como canais de passagem do ar para os pulmões, possuem cílios que ajudam a eliminar as impurezas do que é inspirado, como se fossem pequenas vassouras. O microrganismo produz uma toxina que paralisa esses cílios, dificultando a eliminação das secreções respiratórias.

Dessa forma, o indivíduo desenvolve uma tosse súbita incontrolável, podendo tossir de cinco a dez vezes em uma única expiração. O quadro é conhecido entre os médicos como tosse paroxística e, na coqueluche, dura em média três a quatro semanas, daí a doença também ser conhecida popularmente como ´tosse comprida´. A coqueluche se caracteriza ainda por um ruído na respiração, semelhante a um guincho, causado pela dificuldade na inspiração do ar, além de vômitos depois da tosse.

Como o esforço das tosses contínuas é muito grande, principalmente para as crianças, que possuem uma estrutura corporal mais frágil, é comum também o rompimento de vasos sanguíneos, causando hemorragias em locais como os olhos e o cérebro, outro grande perigo.

Além disso, a interrupção da filtragem das impurezas do ar causa o acúmulo de secreção que pode propiciar complicações secundárias como a pneumonia, correndo-se o risco de provocar paradas respiratórias.

Imunização

Atualmente, o calendário de vacinação no Brasil prevê a administração da vacina tríplice bacteriana em três doses. A primeira no bebê com dois meses de vida, a segunda aos quatro meses e a última aos seis meses. Mesmo assim, as crianças nessa faixa etária são as principais atingidas pela coqueluche. Dr. Renato Kfouri explica que o fenômeno acontece pois os pequenos só passam a adquirir a imunidade completa após receber as três doses.

Enquanto a criança não está devidamente protegida, o contato com os adultos contaminados é a forma mais comum de contágio. Por isso os médicos recomendam que os pais, irmãos e demais familiares reforcem a vacina logo após o nascimento de uma criança. O problema maior, segundo destaca o Dr. Renato Kfouri, é que, no Brasil, a vacina de coqueluche é aplicada apenas em crianças. Nos adolescentes e adultos, a imunização fornecida pelo sistema público de saúde protege apenas contra a difteria e o tétano.

A vacinação dos adultos é tão importante que uma nova vacina (Adacel Quadra) tem como alvo esses possíveis transmissores, a fim de evitar o contágio da doença na população infantil. Além da coqueluche, a vacina também protege contra o tétano, a difteria e a poliomielite. Por enquanto, está disponível apenas em clínicas de vacinação particulares, com custo aproximado de R$100,00 por dose, que prolonga a imunidade por até dez anos, sendo necessária a reaplicação depois desse período.

"A coqueluche ainda é um dos grandes problemas de saúde pública em todas as cidades, domicílios e classes socioeconômicas. O único e mais eficiente método de prevenção é a vacinação. Por maior que seja o cuidado dos pais, a imunização de toda a família é importante para garantir a saúde dos pequenos", conclui a Dra. Luiza Arlant.

Crescimento

16 vezes foi o índice de aumento de casos de coqueluche nos Estados Unidos em pessoas com mais de 20 anos de idade, nas últimas duas décadas, segundo estudo publicado em 2011.

Casulo de proteção

Em 2001, foi criado o Grupo de Iniciativa Global para o combate à Coqueluche (Global Pertussis Initiative - GPI), para analisar os locais de incidência da doença, aumentar a conscientização da coqueluche como um mal que pode ser prevenido e que precisa de uma maior atenção da saúde pública, além de pensar em novas maneiras de evitá-la. O GPI conta com 37 especialistas multidisciplinares (de 17 países, inclusive do Brasil). Dentre as colaborações do grupo, destaca-se a estratégia ´coccon´. Em inglês, o termo significa casulo, indicando que deve-se construir uma área de proteção ao bebê com a recomendação principal da vacinação da criança, das mães que não foram previamente imunizadas, tão logo tenham o bebê, dos familiares e dos profissionais de saúde que convivem com ela.

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