PREVENÇÃO

Tempo de tocar-se mais

20:07 · 07.05.2011
( )
Ao fazer o autoexame regularmente, aumentam as chances de ser familiarizar com a superfície normal da pele. Em geral, as técnicas de autoexame (mama, boca, testículos, tireóide) são de fácil execução
Ao fazer o autoexame regularmente, aumentam as chances de ser familiarizar com a superfície normal da pele. Em geral, as técnicas de autoexame (mama, boca, testículos, tireóide) são de fácil execução ( )
Conscientização sobre importância do autoexame amplia possibilidade do diagnóstico precoce e da cura

Com tanta correria, muitas vezes é difícil parar e cuidar da própria saúde. O estresse toma conta da mente e do corpo, que adoecem sem que percebamos. Nesse momento, o autoexame é uma forma eficaz de notar os sinais que o organismo nos dá. Sabendo identificá-los e interpretá-los, é possível prevenir doenças graves como o câncer.

Segundo a professora do curso de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor), dra. Maíza Colares de Carvalho, o auto-cuidado é essencial para a manutenção da saúde. Inicia-se com mudanças no estilo de vida como sair do sedentarismo, manter hábitos alimentares saudáveis e procurar o médico para uma avaliação clínica e laboratorial periódica. "Damos mais ênfase à medicina preventiva do que à curativa, devendo ser este o ponto a nortear tanto a conduta médica quanto a do paciente", descreve a médica.

Tabu no tocar

É somente a partir do conhecimento do próprio corpo, que é possível perceber se há algo errado com ele. Se antes o fato de se tocar era um grande tabu, nos últimos anos, com as diversas campanhas de conscientização, o trabalho preventivo dos médicos e o maior acesso da população ao serviço de saúde muita coisa mudou. "Apesar disso, o tabu ainda existe, principalmente nas classes menos favorecidas e em pessoas com maior faixa etária", diz Maíza de Carvalho. Quem recua diante de um autoexame é o medo diante da possibilidade de encontrar sinais de uma doença grave.

Esta é uma questão que vai mais além. O não saber tocar-se e desconhecer os mecanismos do próprio corpo são atitudes inerentes ao homem ocidental, destaca a cardiologista Márcia Holanda, presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática (Regional Ceará). "As pessoas não têm consciência sobre as reações do corpo; a maioria não é capaz de fazer esta conexão", atesta a médica que também coordena a Câmara Técnica de Cardiologia do Cremec.

Conforme o professor do curso de Medicina da Unifor, dr. Aglaerton Silva Pinheiro, o receio em tocar o próprio corpo ainda persiste principalmente na região genital. Os homens, em sua maioria, ainda não se cuidam como deveriam. As mulheres, ao contrário, procuram mais a assistência médica, o que explica o aumento na detecção dos casos de câncer de mama, que, no estágio inicial, possibilita grande chances de cura. "O autoexame da próstata, por exemplo, ainda é um tabu. Isso deve-se muito ao fato do homem brasileiro ser machista, principalmente o cearense", diz Dra. Márcia Holanda.

De acordo com a dra. Maíza de Carvalho, a observação de alterações e de manchas na pele podem alertar para um câncer. Além disso, deve-se estar atento ao surgimento de saliências na tireoide e nos gânglios da cadeia cervical, axilar ou inguinal. O autoexame da boca e dos testículos também é uma medida preventiva de extrema importância e deve ser realizada regularmente (veja quadro abaixo). O melhor disso é que não é preciso nada mais do que um espelho e as próprias mãos para detectar qualquer tipo de anormalidade.


FIQUE POR DENTRO 

Mente e corpo

A psicossomática é uma ciência interdisciplinar que integra diversas especialidades da medicina e da psicologia para estudar os efeitos de fatores sociais e psicológicos sobre processos orgânicos do corpo.

A palavra psicossomática, na visão dos profissionais de saúde que compreendem o ser humano de forma integral, não pode ser compreendida como um adjetivo para alguns sintomas, pois tanto a medicina quanto a psicologia perceberam que não existe separação ideal entre mente e corpo.

São componentes que transitam nos contextos sociais, familiares, profissionais, relacionais, emocionais; são expressos através de físicos e emocionais.


Sem medo

Tanto a dra. Maiza Carvalho quanto o dr. Aglaerton Silva alertam para que o autoexame não seja motivo de pânico para o paciente, uma vez que algumas alterações podem ser benignas. Examinar-se, entretanto, não pode deixar de ser uma ação esporádica, pois o diagnóstico precoce ainda é a principal ferramenta para a obtenção da cura.

A boa relação médico-paciente, na qual a informação e a credibilidade foram responsáveis por grandes mudanças nos últimos anos, é igualmente vista como uma aliada de peso. Para a dra. Maíza de Carvalho, é função da comunidade médica desmistificar uma série de mitos para que o medo ou a desinformação não sejam responsáveis pela negação do paciente em buscar orientação médica.

Médico-paciente

O receio em tocar-se ou buscar ajuda médica é uma questão que permeia praticamente todo o ciclo do adoecer. Mesmo consciente de que precisam fazer sua parte (autoexame), muitas pessoas se negam a colocar em prática. "Se o paciente não quer se tratar, não se consegue curar ninguém", enfatiza Dra. Márcia Holanda. Afinal, é importante se manter uma vida saudável, mas sem deixar de lado o aporte emocional.

Neste contexto, explica, muitas das doenças possuem um forte componente da psiquê. Em muitas patologias, o emocional age como um elemento que pode desencadear e/ou potencializar uma doença como a coronariana (infarto, angina), gastrite, úlcera, asma, psoríase e a obesidade. A médica cita como exemplo o caso de um paciente obeso, 42 anos, tipicamente ansioso com relato episódios de dor no peito. "Não podemos medicalizar tudo. Dentro deste perfil, tenho que observar sua história de vida, estabilizar o emocional e encaminhá-lo para a terapia", conclui.


A OPINIÃO DO ESPECIALISTA

Corpo como armadilha

Muitos de nós, ocidentais, temos uma relação estranha com o próprio corpo. As crenças sobre ele em nossa civilização, frequentemente dão conta de que o corpo é uma armadilha "contra" a mente e o espírito, o que denota uma cisão, como se esses aspectos tivessem de ser separados. O corpo como uma fonte de prazer e tentações, e portanto, não deveria ser escutado ou somente atendido se pudermos nos responsabilizar pelos "danos e perigos"daí decorrentes. Ainda paira sobre a cabeça a crença de que, sim, eles são muitos.

Grande parte das crenças vêm de religiões que há séculos perpetuam a noção de que o corpo é só um apetrecho pesado e provocador, em contraste com a espiritualidade - esta desejada, leve e pura - e somente após a morte enfim, nos desvencilharíamos dele. Enfim, o "descanso"eterno.

Outras correntes têm o corpo como a grande dádiva e instrumento para que, no planeta, possamos agir, escolher e seguir as tarefas de aprendizagem do espírito. Somente através dele aprendemos e registramos o que é preciso e prosseguimos tendo experiencias necessárias. Até mesmo através da doença, dependendo de como a encaremos e cuidemos.

O fato de não fazer os exames importantes regularmente, não faz com que doenças surjam, ou seja, elas estariam lá de qualquer forma e apenas não seriam detectadas a tempo para serem tratadas e curadas. Exame não gera doença. Esse nada mais é do que um pensamento infantil e persecutório determinado por crenças errôneas e ignorância - estas definitivamente, muito humanas e doentes. O médico, os exames e o cuidado que merecemos com o corpo são os verdadeiros aliados contra a fantasia e a sombra que por vezes nos ronda. Estas sim, são as verdadeiras inimigas.


Lívia Costa
Psicóloga Clínica.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.