NEUROPELVEOLOGIA

Técnicas estimulam a região pélvica

04:22 · 13.11.2011
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Primeiro a divulgar a neuropelveologia no Brasil, dr. Nucélio Lemos julga necessária a criação de nova especialidade
Primeiro a divulgar a neuropelveologia no Brasil, dr. Nucélio Lemos julga necessária a criação de nova especialidade ( Divulgação )
O neuroestimulador possibilita melhora de pacientes com paralisia
O neuroestimulador possibilita melhora de pacientes com paralisia ( Divulgação )
Nervos lombares e sacrias, antes considerados áreas de difícil acesso, podem ser tratados com novas técnicas da medicina

Criada em 2003 pelo médico francês radicado na Suíça. Prof. Dr. Marc Possover, a neuropelveologia é uma área da medicina jovem e, por isso, ainda pouco conhecida.

Segundo primeiro especialista brasileiro e responsável por trazer as novas técnicas ao país no primeiro Ambulatório de Neuropelveologia do Brasil, na Universidade Federal de São Paulo, UNIFESP, Dr. Nucélio Lemos, "trata-se da união entre técnicas cirúrgicas ginecológicas e os princípios da neurocirurgia, trazendo esperança a diversos tipos de pacientes, incluindo aqueles que sofrem com dores crônicas nas pernas e região glútea, os paraplégicos, tetraplégicos, amputados com dores em membros fantasma, além de casos de incontinências urinária e anal e endometriose".

Tecnologias

A combinação de tecnologias como videolaparoscopia possibilita atingir regiões antes consideradas de difícil acesso. A partir daí, tem sido possível tratar uma série de problemas que acometem os nervos lombares e sacrais, responsáveis pelo controle das pernas, bexiga, reto, órgãos genitais, porção final do intestino, uretra e ânus.

O especialista afirma que os pacientes com esses tipos de dores crônicas geralmente são tratados sem um diagnóstico preciso, como se tivessem uma hérnia de disco ou uma ciatalgia (dor do nervo ciático). "Muitos dos sintomas podem ser causados por traumas de parto, varizes pélvicas causadas pela própria gestação, assim como fibrose decorrente de infecção ou cirurgias", explica.

Dentre os fatores que mais comprometem a qualidade de vida de paraplégicos ou tetraplégicos estão a disfunção de órgãos como bexiga e reto, atrofia das pernas e complicações como infecções urinárias de repetição, insuficiência renal, escaras de decúbito (úlceras na pele formadas pela imobilização prolongada), hipotensão (pressão arterial inferior ao normal) etc.

Para ajudar esses pacientes a ter melhor qualidade de vida, a neuroestimulação de raízes sacrais por meio do implante de neuropróteses, que já vinha sido utilizado, foi remodelado, incluindo técnicas mais modernas,, permitindo o implante por meio de laparoscopia, bem menos invasivo.

Por enquanto, todos os pacientes operados com esta técnica apresentaram controle da função urinária e da incontinência de fezes, ganho de massa muscular nos membros inferiores e a possibilidade de ficar de pé e até mesmo andar, com o auxílio de andador

Mulheres que sofrem com a endometriose também estão dentre os pacientes que podem ter a qualidade de vida melhorada. A doença costuma invadir ou comprimir os nervos pélvicos e essa infiltração ainda não é bem diagnosticada por meio da ressonância magnética nem da ultrassonografia.

"Por meio das técnicas diagnósticas e cirúrgicas da neuropelveologia é possível tratar por completo a endometriose que invade ou envolve os nervos", afirma o dr. Nucélio Lemos.

O médico explica ainda que muitas vezes a endometriose pode também lesionar os nervos pélvicos causando paralisia da bexiga e do reto, diminuindo a capacidade de eliminar urina e evacuar. "Em alguns destes casos de sequelas cirúrgicas, pode-se tentar implantar um neuroestimulador, para "sobrecarregar" as fibras nervosas remanescentes no intuito de devolver, pelo menos em parte, o controle sobre as funções urinária e evacuatória".

Além disso, tanto a remoção da endometriose remanescente quanto da fibrose e dos vasos neoformados sobre os nervos da pelve podem ser realizadas por meio de técnicas da neuropelveologia. "Obviamente que ela não é capaz de resolver completamente todos problemas citados, mas representa uma esperança e a solução de muitos casos", enfatiza.

Neuroestimuladores

Um dos grandes destaques na neuropelveologia é a possibilidade da implantação de neuroestimuladores na região abdominal e pélvica, que voltam a oferecer estímulos e controle aos nervos sacrais, devolvendo, por exemplo, o estímulo nervoso à bexiga, permitindo a retomada do controle urinário, o abandono do uso de cateteres e drástica redução na incidência de infecções urinárias.

"Também é possível, por meio da laparoscopia, diagnosticar e tratar de uma só vez, como no caso da endometriose. Por ser uma nova abordagem, muitos estudos ainda vêm sendo realizados para a descoberta de novas aplicações", diz o dr. Lemos, também responsável pela edição do site www.neurodisfuncao.med.br, que informa profissionais da medicina e o público em geral sobre novos procedimentos, casos já publicados e os avanços da área em todo o mundo.

Nova especialidade

Junto à neuropelveologia surge também a necessidade de uma nova especialidade na medicina: a cirurgia pélvica. De acordo com o dr. Nucélio Lemos, em breve esta deve ser uma especialidade reconhecida em todo o mundo. "Por enquanto, estabelece-se uma nova área de atuação na intersecção de diversas especialidades, como a ginecologia, urologia, neurologia, ortopedia, coloproctologia, dentre outras".

Assim como já ocorre em países como a França ou a Alemanha, é possível que no futuro, todas as áreas médicas adotem especialistas cirúrgicos. Desse modo, cirurgiões pélvicos (ginecologistas, urologistas ou coloproctologistas) capacitados em laparoscopia avançada que se capacitem no diagnóstico e na abordagem de lesões dos nervos pélvicos (conceitos da neurocirurgia), bem como neurocirurgiões que se capacitem em procedimentos laparoscópicos, poderão oferecer aos pacientes os benefícios da neuropelveologia.

ANAMÉLIA SAMPAIO
REPÓRTER

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