Pés no chão

Técnica resgata o natural

00:04 · 30.04.2013
A expressão é a filosofia do Barefoot Running, técnica de corrida que exige treino e ganha adeptos pelo mundo

Correr com os pés descalços em intenso contato com a natureza para reconhecer o chão que se pisa. Essa é a filosofia do Barefoot ou Corrida Natural, técnica popularizada após o corredor etíope Abebe Bikila, correndo sem tênis, ganhar a medalha de ouro na maratona dos Jogos Olimpícos de 1960, em Roma (Itália). Com o feito, a corrida descalço incentivou muitos atletas e amantes do esporte a abandonar o tênis e partir em busca do resgate à naturalidade.

Valentina Gontijo adotou técnica e a filosofia da Barefoot Running há quatro anos
Maricelio Correia há três anos é praticante da modalidade
fotos: Kléber Alves Gonçalves

Para as crianças, correr é uma atividade espontânea, muitas vezes estimuladas pelo prazer no ato. Não importa se descalças ou não, a dor é algo raro de sentir. Isso porque a corrida é uma forma de se movimentar nessa fase da vida, de acordo com o fisioterapeuta Rafael Temóteo, especialista em Terapia Manual e Análise do Movimento Humano. "Na infância, o estímulo descalço é necessário, pois favorece o desenvolvimento do arco plantar, que funciona como um amortecedor natural do pé", explica.

O problema é que ao longo do crescimento, correr se torna cada vez mais arriscado, o que faz abolir o ato na maioria dos casos. O fisioterapeuta afirma que as dores iniciam ao crescermos, porque adotamos mais o lado competitivo do esporte, ao que, nem sempre, nosso corpo está preparado. "Nossa vida atual é cercada de situações que prejudicam nossa postura corporal, fator que possui forte influência na maneira de correr", acrescenta.

Corrida natural

Há quem acredite e pratique a corrida da maneira como fazíamos quando éramos crianças, descalços. A modalidade se tornou mais que isso, virou filosofia de vida com técnica, mecânica e estratégia.

Para o especialista em Medicina Tradicional Chinesa e praticante há sete anos, o educador físico Luciano Oliveira, o Barefoot promove a percepção do chão que se pisa, passa-se a ficar mais atento ao que se joga nele, à relação que há com ele, à ligação permanente entre o humano e a terra, expandindo o contato com a natureza e resgatando o que há de natural em nós. Quanto à técnica, antes de tudo, exige-se preparo físico. "Nunca desaprendemos a correr, é instinto de sobrevivência. Nós só deixamos de fazer e, como tudo que não praticamos, acabamos esquecendo. Com vontade e um bom treinador, isso pode ser resolvido", diz.

Além disso, Luciano Oliveira revela que a técnica facilita o entendimento do impacto e das relações do corpo com o ambiente, o tipo de terreno, o clima, a temperatura, e outros aspectos. "Por esses fatores, adquire-se consciência corporal, o fortalecimento de estruturas musculares e esqueléticas dos membros inferiores, oferecendo prazer em realizar a atividade de forma leve e descontraída", completa.

No entanto, o fisioterapeuta alerta que a corrida em si é um esporte de impacto e de repetição. "Algumas pesquisas afirmam que cerca de 50% dos praticantes de corrida se lesionam no período de um ano, sendo de certa forma um índice muito alto", destaca.

Ainda reforça que a desvantagem na corrida (com ou sem calçado) é representada pelas lesões. Aponta que deve-se olhar a corrida de modo geral e perceber que representa a junção de força, mecânica, alinhamento ósseo e flexibilidade. Cada um desses elementos desempenham funções importantes, pois caso um esteja desregulado pode acarretar sérios problemas devido à prática do esporte. Por isso, a importância do acompanhamento de um treinador.

"No caso da corrida descalço, é interessante que fique bem claro que esse tipo de atividade não é para todo mundo e precisa ser feito um treinamento específico para chegar a esse patamar", enfatiza o fisioterapeuta.

VICKY NÓBREGA
ESPECIAL PARA O VIDA

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