PREVENÇÃO

Superando a gagueira

19:41 · 19.12.2009
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QUANTO MAIS CEDO FOR TRATADA, MAIORES SÃO AS CHANCES DE SUPERAÇÃO DA GAGUEIRA

O indivíduo que tem gagueira sempre foi motivo de chacota e piada pela sociedade. Muito mais do que um problema emocional, a gagueira é uma doença reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e que, se for detectada e tratada de forma precoce, pode ajudar a mudar essa realidade.

Estima-se que 1% da população mundial sofra desse transtorno. No Brasil, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Fluência (IBF), ele afeta 5% dos habitantes, o equivalente a 9,5 milhões de pessoas. E 1% dos brasileiros gaguejam de forma permanente e há muito tempo.

Os primeiros sinais da gagueira acontecem durante a infância, por volta de dois anos e meio a três anos de idade, justamente quando acontece o desenvolvimento da fala.

A fonoaudióloga Lia Brasil Barroso, coordenadora do Curso de Fonoaudiologia da Universidade de Fortaleza (Unifor) explica que não existe uma causa definida para a gagueira e que fatores como hereditariedade e meio ambiente podem contribuir para o desenvolvimento do problema. De acordo com ela, já foi identificado um gene da gagueira, o que reforça os fatores hereditários para o surgimento do distúrbio. No entanto, a fonoaudióloga destaca que nem todas as pessoas que possuem o gene desenvolvem a gagueira, o que reforça também a questão ambiental, que envolve as condições em que o indivíduo vive.

"Existem estudos que mostram que a gagueira pode acontecer no primeiro filho, provavelmente pelo exagerado grau de exigência e atenção em torno dele ou ainda no último filho, que recebe menos atenção dos pais, aquele que se cria sozinho. Assim como a imitação da fala pela convivência com uma pessoa com o distúrbio, essas são demonstrações de como o meio ambiente pode influenciar na gagueira", destaca.

O fato, segundo Lia Brasil Barroso, é que sabe-se que o problema é causado pela falta de sincronia entre os dois hemisférios cerebrais e que o fator emocional sozinho não é determinante para o aparecimento da gagueira. "O fator emocional é agravante para quem tem predisposição genética para a gagueira, mas sozinho não causa o problema".

O importante, conforme a coordenadora do curso de Fonoaudiologia da Unifor, é fazer uma intervenção precoce, caso apareçam sintomas como repetições de início, bloqueios e prolongamentos por um período maior do que três meses entre 2 e 4 anos de idade. Lia Brasil alerta também que junto com essas manifestações podem acontecer tiques, como piscar de olhos, tremores, puxadas de cabeça acompanhando o ato da fala.

Linguagem

É comum as crianças enfrentarem períodos de disfluência, durante os quais elas repetem palavras não por serem gagas, mas, segundo ela, por estarem em fase de estruturação da linguagem. "Essas repetições são esporádicas e devem desaparecer com o passar do tempo. Quando a criança é gaga, as repetições são frequentes e tendem a se agravar, enquanto não houver tratamento", alerta.

Por conta da aquisição de linguagem nessa faixa etária é comum a criança apresentar manifestações de gagueira, repetindo palavras, tendo bloqueios. Se estes persistirem por mais de três meses, conforme Lia Brasil, é importante que os pais estejam alerta e busquem uma avaliação com um fonoaudiólogo. "A gagueira não tem cura, mas desde que se faça uma intervenção precoce é possível obtê-la em crianças. Intervenções tardias ajudam a pessoa gaga a obter uma melhor qualidade de vida, mas sem cura", explica.

Bloqueios, repetições e prolongamentos da fala com muita frequência podem ser indícios de gagueira e, conforme a fonoaudióloga é nessa hora que os pais devem procurar um profissional para avaliar a situação.

Lia Brasil Barroso explica que na avaliação o fonoaudiólogo vê a fluência da criança, linguagem, a motricidade oro-facial e a voz. Nas crianças acima de sete anos, a observação inclui também um exame audiológico. O tratamento, de acordo com Lia Brasil, inclui sessões de terapias individuais e em grupo com profissionais especializados. Um dos locais que dispõe de ambulatório para disfluência é o Núcleo de Atendimento Médico Integrado (Nami), da Universidade de Fortaleza (Unifor).

Mudança cerebral

O problema central na gagueira consiste em uma dificuldade do cérebro para sinalizar o término de um som ou uma sílaba e passar para o próximo. Desta forma, a pessoa consegue iniciar a palavra, mas fica "presa" em algum som ou sílaba (geralmente o primeiro) até que o cérebro consiga gerar o comando necessário para dar prosseguimento com o restante da palavra. Acredita-se, conforme o Instituto Brasileiro de Fluência (IBF), que as estruturas cerebrais envolvidas com a gagueira sejam os núcleos da base, os quais estão envolvidos com a automatização de tarefas, como dirigir, calcular, escrever, falar. Portanto, a dificuldade central na gagueira estaria em uma automatização deficiente dos movimentos de fala.

O IBF explica que existem pesquisas com neuroimagem funcional demonstrando que a terapia fonoaudiológica promove mudanças na maneira como o cérebro processa a fala. Isso significa que, após a terapia, algumas regiões cerebrais estão mais ativadas e outras menos ativadas.

As melhoras obtidas tanto na fluência da fala em si, como na forma de lidar com a gagueira, são decorrentes das mudanças funcionais no cérebro ocasionadas pelas técnicas de terapia fonoaudiológicas.

Abrangência

1% Da população mundial sofre com a gagueira. Os primeiros sintomas da disfluência aparecem durante a infância, entre dois anos e meio e quatro anos de idade

9,5 Milhões de pessoas no Brasil, conforme o Instituto Brasileiro de Fluência (IBF), são afetados pela gagueira, que se for tratada precocemente, ainda na infância, pode ser superada

Fique por dentro

Herança genética

Cerca de 55% das pessoas que gaguejam têm pais, irmãos, filhos, tios, primos, avós e ou
etos com gagueira, conforme dados do Instituto Brasileiro de Fluência (IBF). A tendência para a gagueira é transmitida por um gene que já foi mapeado. No entanto, nem todas as pessoas que têm o gene desenvolvem o distúrbio da gagueira. A manifestação do problema sempre dependerá da interação com o ambiente. A maior parte dos estudos genéticos indicam a possibilidade de a gagueira ser transmitida por herança poligênica ao invés de gene único, o que quer dizer que haveria alguns poucos genes responsáveis pela gagueira e não apenas um só. A genética influencia de modo marcante na tipologia da gagueira e as manifestações da disfunção entre parentes geralmente são semelhantes.

PAOLA VASCONCELOS
REPÓRTER

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