Alimentação

Substituir evita carência nutricional

02:27 · 04.12.2011
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Os cuidados na alimentação dos alérgicos são essenciais. A dra. Francisca Xavier alerta que é preciso, para qualquer indivíduo com tais características, estar atento aos rótulos dos produtos e ser orientado por um alergologista e um nutricionista devido ao risco de deficiências nutricionais pela exclusão de alimentos e para que sejam identificados os perigos de reações devido a presença disfarçada de substâncias alergênicas.

Deve-se, por exemplo, aprender a reconhecer nomes que indicam a presença da proteína do leite de vaca - caseína, caseinato, lactoalbumina, soro de leite -, uma vez que é comum que os rótulos não estejam bem claros quanto aos ingredientes utilizados na formulação do produto.

Ingerir alimentos de origem desconhecida é sempre um perigo para os alérgicos. "Por isso, ao se alimentar fora de casa, é preciso ter alguns cuidados, como alertar aos atendentes dos estabelecimentos quanto ao potencial de gravidade de sua reação alérgica, ter o cuidado de perguntar a eles sobre os ingredientes da contidos na refeição, sempre levar consigo os medicamentos antialérgicos e, no caso da ceia de Natal e Ano Novo, opte por levar um prato seguro que possa ser apreciado por todos", aconselha a professora Ana Mary Jorge. Além disso, é importante estar continuamente se informando sobre o assunto, discutindo com o médico, lendo em sites e conscientizando familiares.

Terapia nutricional

A nutricionista explica ainda que os pilares do tratamento da alergia alimentar envolvem a exclusão dos alimentos que contenham as proteínas alergênicas e a prescrição de uma dieta substitutiva que atenda a todas as necessidades nutricionais dos pacientes. "Deve-se proporcionar a supressão da inflamação, retirando-se o estímulo antigênico determinado pelas proteínas da dieta responsáveis pelo processo alérgico", recomenda.

Quando os processos alérgicos se dão em crianças (ainda amamentando ou não), muitas mães ficam em dúvida. Como substituir o leite de vaca? É possível optar pelo leite de soja? Segundo a dra. Francisca Xavier, a soja é o substituto natural para crianças após os seis meses. "No caso das mais novas ou lactentes que também apresentam alergia à soja, existem fórmulas especiais que são fornecidas pela Secretaria de Saúde do Estado", informa.

As fórmulas extensamente hidrolisadas ou de aminoácidos garantem o sucesso do tratamento. A professora Ana Mary enfatiza ainda que, no caso de lactentes em aleitamento natural, este deve ser mantido e a mãe deve ser orientada para iniciar a uma dieta de restrição.

Atualmente há muitas opções para aqueles que apresentam alergias e intolerâncias alimentares, principalmente ao glúten, à lactose e à clara de ovo. É possível encontrar no mercado produtos como pães, bolos, bebidas e biscoitos que usam substitutos a esses alimentos (no caso do trigo pode ser usada farinha de arroz, milho, mandioca, aveia, centeio, cevada e malte), provando que, nesses casos, pode-se ter uma alimentação praticamente normal.

A exclusão de alimentos da dieta não é tarefa fácil, e a exposição acidental ocorre com certa frequência. De acordo com recomendações da ASBAI, indivíduos com alergia alimentar grave (reação anafilática) devem portar braceletes ou cartões que os identifiquem, para que cuidados médicos sejam imediatamente tomados. As reações leves desaparecem espontaneamente ou respondem aos anti-histamínicos (antialérgicos). Pacientes com histórico de reações graves devem ser orientados a portar medicamentos específicos.

Entrevista

Ana Mary Viana Jorge *

Os recém nascidos e lactentes estão mais vulneráveis às alergias?

Eles apresentam um maior risco de sensibilização se receber proteínas de leite de vaca ou outras proteínas intactas. Isso ocorre por: imaturidade digestiva (o recém nascido tem menor acidez gástrica e não digere bem a proteína do leite), hipersensibilidade da mucosa intestinal (permite a absorção de imunoglobulinas intactas que chegam do leite materno) e imaturidade imunológica (pode considerar essas proteínas como corpos estranhos). Nesta fase, há a produção diminuída de anticorpos, favorecendo a penetração de alérgenos e a ocorrência da alergia.

A exposição ao leite de vaca nos primeiros meses é, então, um fator para as alergias?

Sim. Pequenas doses de leite de vaca nos primeiros dias de vida, fato que ocorre frequentemente nas maternidades, é um fator significativo. A amamentação é bastante eficiente na prevenção à alergia ao leite de vaca e também para o desenvolvimento da tolerância oral aos alimentos. Diante disso, torna-se imprescindível esclarecer e conscientizar as gestantes sobre a importância do aleitamento materno exclusivo até o final do primeiro semestre de vida e evitar o uso desnecessário de fórmulas lácteas nas maternidades.

Quais medidas as mães podem tomar quando o aleitamento materno não for possível?

O uso de uma fórmula com proteínas extensamente hidrolisadas ou uma fórmula de aminoácidos são consideradas as melhores alternativas dietéticas, não sensibilizando o lactente jovem com proteínas intactas do leite de vaca. Quanto mais hidrolisada a proteína, maior será o seu grau de alergenicidade.

Que medidas preventivas podem ser aplicadas em lactentes?

A manutenção do aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade, retardando-se a introdução precoce de alimentos sólidos. Não há indicação de dietas restritivas hipoalergênicas para grávidas no último trimestre de gestação, com exceção do amendoim. Em caso de necessidade de utilizar a fórmula infantil durante o período de aleitamento, a Academia Americana de Pediatria recomenda o uso de fórmulas hipoalergênicas. O leite de vaca deve ser introduzido após o 1º ano de vida, o ovo após o 2º, o amendoim, as nozes e os peixes, após o 3º. A Sociedade Europeia de Alergia e Imunologia Pediátrica recomenda observação cuidadosa na introdução de alimentos considerados potencialmente alergênicos a partir da interrupção do aleitamento materno exclusivo e recomenda o uso de fórmulas hipoalergênicas ou hidrolisados como medida preventiva em situações onde o aleitamento não ocorre mais de forma exclusiva.

Professora de Nutrição da Unifor

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