LUDICIDADE

Sons da saúde

23:41 · 21.05.2011
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A psicóloga Ré Campos, desenvolveu junto com outros profissionais o projeto Som Saúde e, nos últimos dois anos, 22 instrumentos de vidro tocados junto à Orquestra Vidros Mágicos
A psicóloga Ré Campos, desenvolveu junto com outros profissionais o projeto Som Saúde e, nos últimos dois anos, 22 instrumentos de vidro tocados junto à Orquestra Vidros Mágicos ( Foto: Arquivo )
Psicóloga usa canto e percussão de modo lúdico com pacientes internados e cria orquestra de vidros

Desde menina, no interior do Piauí, a psicóloga Ré Campos corria para brincar com os vagalumes, colocando-os dentro de potinhos de vidro, tão logo as luzes da cidade se apagavam. Ela se encantava com aquele pisca-pisca que a natureza dava à sua imaginação.

Aos 13 anos, os irmãos chegaram em casa com um violão, mas foi ela a única a aprender a tocar e, mais adiante, se familiarizar com o cavaquinho. A música entrou, dessa forma, em sua vida. Anos depois, já como psicóloga, criou com outros profissionais o projeto Som Saúde, de musicoterapia, que já completa 10 anos, o qual conduz pacientes hospitalizados a entrarem em contato, em grupo, com a música.

O projeto continua funcionando no Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará e, também, no Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS), próximo à UFC e Hospital de Saúde Mental de Messejana.

Percussão

O som e a música trazem cada um de volta à sua essência, diz a psicóloga e musicista. No projeto, os pacientes hospitalizados são convidados a participarem de um momento musical, em uma sala específica. Assim que se agrupam, Ré Campos e seus ajudantes iniciam a atividade com os sons. Pedem aos participantes para escolherem um dos instrumentos de percussão expostos. Ré sugere, então, um a um que indiquem a música que lhe seja significativa, para acompanharem cantando e tocando o instrumento escolhido.

“Em cada sessão, temos uma atividade diferente. Levamos cada um, por meio de uma conscientização, a perceber seu estado de ansiedade, tristeza, enfim, de como se encontra no momento que inicia a sessão e como se transforma, após nosso encontro com a música”.

A transformação das emoções dos pacientes para um estado mais elevado de bem estar é visível. Passam a falar e interagir mais uns com os outros, com sentimentos fraternos. Só de terem um espaço para falarem de seus medos (da doença, de morrer, do isolamento) já é um grande avanço e abertura para acolherem de volta a saúde.

Os sons podem ser empregados em um jogo, como faz o grupo de Sons Saúde, para recuperar a criatividade e outras dimensões da alma esquecidas e que, por isso mesmo, provocam desequilíbrios e doenças. É o que explica o musicólogo e psicólogo Peter Michael Hamel.

Em sua obra “O Autoconhecimento através da Música” (Editora Pensamento), registra que o uso da música e dos sons para entreter e curar atravessou várias culturas em todos os tempos. “A tarefa dos curandeiros ou xamãs consistia em dar aos doentes cânticos curativos, ao invés de remédios, para assim reconduzi-los à alma perdida. Os maus espíritos da enfermidade eram expulsos com matracas e outros instrumentos ruidosos, e uma batida do tambor acompanhava os toques de mão magnético-curativos”.

Memórias e luzes

O musicólogo alemão admite que a capacidade terapêutica da música nasce de outro nível de consciência que não o mental e ordinário, sendo possível curar doenças com sons, atividade que os nativos sempre conseguiram, bem como os gregos e curandeiros de outros povos antigos.

Peter Hamel cita o estudioso Aleks Pontvik, que publicou obra sobre a cura pela música. Pontvik relata o emprego de uma orquestra, no final do século XIX, para tratamento de doentes “dos nervos”. Noutra, em Nápoles (Itália), a fundação de um hospício contratou músicos com a perspectiva terapêuticas, só para citar alguns exemplos.

Carregando os vagalumes da infância em sua memória e o prazer do contato lúdico com os sons, usados também de forma terapêutica, Ré Campos foi impulsionada a elaborar instrumentos transparentes de vidro dos quais sons interessantes podem ser retirados.

Revisitou, desse modo, seus jogos infantis surgindo daí a ideia de criar uma orquestra com instrumentos de vidro, que fascinam.

Foram oito meses para concluir os 22 instrumentos que formam a orquestra, idealizados e montados por ela. O pau-de-chuva, carrilhão e cítara encomendou a um vidraceiro. Transformou jarros e aquários em timbales, tabla, udu, repique; afinou taças com água e, o toque final foi colocar circuitos de luz em todos eles. Então, convidou amigos músicos e terapeutas para compor um grupo. O resultado retoma a magia das luzes e sons.

O repertório (composições da própria psicóloga) transita por diversos estilos, até onde o vidro alcançar, do samba ao reggae, passando pelo tango, rock ,forró. O grupo foi batizado de Orquestra Vidros Mágicos composto por 12 músicos, sete com os 22 instrumentos de vidro, Ré como vocalista e quatro na harmonia (Ana Cristina Kichler, Camila Grangeiro, Mara Rúbia, Márcio Carvalhal, Juliano Sousa, Yzy Câmara e Moema Oliveira). No teclado: Jobson Sousa; flauta transversal Patrick Mesquita, Cajón Rodrigo Santos e violão Adriano Caçula e Ré Campos).

Nesses dois anos de criação, a orquestra já fez várias apresentações e lança em junho seu primeiro CD e DVD, em um show. Já conta com inúmeros acessos no You tube, tocando o Hino Nacional. O grupo deseja que as pessoas experimentem a música de outra forma, não apenas auditiva, mas também visualizando cada música através da transparência dos vidros no lúdico das cores. Foi o jeito encontrado de mostrar às pessoas “a mágica da soma: visão, audição e sonho!”, conclui Ré Campos.

Fique por dentro

Música: arte e ciência

Musicoterapia é o campo da Medicina que estuda o complexo som-serhumano-som, a fim de utilizar o movimento, o som e a música com o objetivo de abrir canais de comunicação no homem para produzir efeitos terapêuticos, psicoprofiláticos e reabilitação no mesmo e na sociedade. Os profissionais procuram explorar a relação entre emoção e a música dentro do processo terapêutico, conforme Rolando Benenzon, em sua obra de referência “Teoria da Musicoterapia” (Summus). Indica os fenômenos acústicos e de movimento como favorecedores do fenômeno musical, enquanto arte e ciência.

Percussão

Instrumentos de percussão de vidro criados:
Xequerê;
Pau- de- Chuva;
Carrilhão;
Agogô e reco-reco;
Bongô e ganzá;
Chocalho;
Tamborim;
Udu e tabla;
Derbak;
Cítara

Rose Mary Bezerra
Redatora

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