Saúde e Doença

Somatizar: quando corpo e mente adoecem

22:20 · 28.05.2011
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Márcia Holanda, cardiologista: "o desamparo psíquico acaba detonando o órgão da emoção: o coração
Márcia Holanda, cardiologista: "o desamparo psíquico acaba detonando o órgão da emoção: o coração ( FOTO: ARQUIVO )
ESCUTA TODA DOENÇA TEM UMA FALA, UMA PARTICULARIDADE E, COMO TAL, PRECISA SER ENTENDIDA (DECIFRADA) PELO MÉDICO

É comum confundir os sintomas das doenças psicossomáticas?

No caso da hipertensão arterial também há o fator biológico (alteração no endotélio das artérias), assim como o genético. Isso é comum ocorrer acima dos 40 anos; tem uma íntima ligação com a personalidade do indivíduo, ou seja, o fator emocional também pode desencadear a hipertensão. Não posso separar doenças só psicossomáticas ou apenas orgânicas, pois estão ligadas. Um portador de psoríase tem um histórico que afeta muito sua psique. Se costuma chamar a asma de um "choro do pulmão", pois é desencadeada pelo fator alergênico e emocional.

De que forma o corpo responde?

Vai depender muito da personalidade de cada um. Na Psicologia temos as personalidades, A, B e agora a D (a depressão), que está muito ligada às doenças cardiovasculares. A do tipo A é a daquele paciente que quer fazer mil coisas em um minuto; característica que está muito ligada aos pacientes que enfartam, que detêm muito poder, que ocupam cargos de muita responsabilidade. As pessoas que são muito deprimidas (negativas) desenvolvem muito câncer. O hipertenso tem a afetividade dele muito para dentro e ele expressa isso na pressão arterial alta. O coronariano que enfartou é aquele superpoderoso que quer controlar todo mundo. Quando ele enfarta, não é só porque obstruiu uma artéria; a psique também veio abaixo. Toda doença tem uma fala, uma simbologia para expressar. Não é só um uma bactéria ou uma placa de gordura, porque senão todo mundo ficaria doente. Às vezes se está num contexto de tuberculose e não pega tuberculose enquanto outra, sim. Para a doença se instalar no corpo, existem algumas vulnerabilidades (imunidade baixa ou um fator psicológico que está na história de vida da pessoa).

Quais são as dificuldades para identificar tais sintomas?

A saúde mental do paciente ainda é uma coisa que não é colocada em evidência na prática médica, pois há discriminação entre a saúde mental e a corporal. Tirar uma licença porque enfartou é uma coisa; é bem outra porque estar deprimido. Quer queira, quer não, a sociedade ainda impõe isso às pessoas. Muitas vezes a gente tem que interpretar, o que exige uma certa maturidade até do próprio médico. E o médico é conduzido na faculdade para uma visão muito corporal, a não ser os que farão Psiquiatria. Mas a medicina é muito corpo (que se pode fazer pesquisa, estatísticas e medidas). O que é subjetivo não pode fazer a mesma referência de uma medida corporal. Existe dificuldade por parte das instituições e das pessoas (em formação médica) de se inteirar disso. O estudante de medicina teria que ser analisado durante o curso, que coloca muito em confronto a vida e a morte (e ele não tem essa percepção). Não se entra no curso valorizando a vida, mas sim evitando a morte.

O que mudou nos últimos anos na prática médica?

Mudou muito pouco, mas já mudou. Tenho 32 anos de formada. Quando fui ao meu primeiro congresso de cardiologia, não se falava nada de depressão, síndrome do pânico e coração. Hoje já contamos com sessões dentro do congresso em que vão psiquiatras para uma mesa junto com os cardiologistas debaterem a depressão e a doença cardiovascular. Mas ainda é muito pouco. Poderíamos estar mais amparados nesse tema. Se coloca uma mesa, quem vai pra lá? Apenas as pessoas mais sensíveis que estão vendo que o paciente não é apenas um coração, mas uma pessoa que traz um coração doente.

Falta aos profissionais escutar mais o paciente?

Falta. Primeiro porque nós temos um sistema político que impõe ao médico atender muitos pacientes em um determinado tempo. Segundo, as nossas universidades não dão essa capacitação para o estudante. Porque tem que vir desde o primeiro ano da faculdade. Há pessoas que são mais sensíveis para enxergar esse setor, e outras não. Opera e pronto. O paciente vai ficar curado. É uma visão bem mecânica. E o resto? Porque uma pessoa se opera do câncer e forma outro? Não é só questão de metástase. Câncer e depressão estão intimamente ligados.

Quais doenças psiquiátricas se relacionam às psicossomáticas?

Normalmente a depressão está muito em cena porque hoje o mundo individualiza muito a pessoa. Falta aquela coisa afetiva do olhar, do toque. As pessoas estão rodeadas de gente, mas estão sozinhas. Quanto mais só uma pessoa fica, mais vulnerável está a desenvolver uma doença. Hoje encontramos várias pessoas que tem síndrome do pânico na cardiologia. Porque nela, a manifestação mais florida é uma taquicardia, a sensação de que vai morrer. Esse paciente vai esbarrar numa emergência de cardiologia, e passa muito tempo para que os cardiologistas (sem capacitação) percebam que a manifestação corporal é psicológica. Fazem todos os exames e dá tudo normal. E o paciente continua em crise, com falta de ar, sudorese, achando que vai morrer. Vai para vários médicos. Mas esse paciente tem - sim - alguma coisa; tem uma patologia funcional. Se começa a conversar, pois é importante essa relação médico-paciente. É uma coisa do ato médico que não pode desaparecer, senão não se terá o feeling de detectar doenças psicossomáticas. Esse desamparo psíquico que percebemos acaba detonando no órgão da emoção: o coração. E a gente não tem um medicamento que vai moldar isso. O que vai ajudar é a fala, a percepção. Claro que vai ter que fazer um tratamento conjugado. Terá que tratar o psicológico e o sintoma que está no corpo. Não podemos deixar esse paciente com taquicardia. Não se pode medicalizar tudo, nem psicologizar tudo. Tem que haver bom senso, pois temos uma vida em nossas mãos.

A obesidade também está relacionada à somatização?

Muito. Quando se estuda as doenças psicossomáticas, uma das mesas e das aulas que colocamos nos congressos são os distúrbios alimentares (anorexia, a bulimia e, às vezes, um intermediário entre as duas). E hoje, o boom da obesidade, que está no mundo todo. Porque o ato de comer, não é só um ato fisiológico. O nosso corpo funciona a partir da nossa mente. O obeso não é só um distúrbio glandular, de tireoide, físico. Quando a gente começa a tratar o obeso, se vê a depressão e a angústia quando esses pacientes começam a falar. Eles normalmente não se alimentam por uma necessidade fisiológica, porque estão com fome (física), mas porque estão com fome psíquica, que é a fome da angústia, da depressão, da ansiedade, da carência. O único animal que se alimenta também por prazer é o ser humano. Se o homem comesse só por estar com fome, ele nunca ficaria obeso. Ele usa a comida como uma fonte de impedir essa angústia dele. A comida vai "tapar" alguma coisa, um buraco que está dentro dele e que reflete no emocional. Na obesidade se enxerga muito a questão psicossomática, tema tratado no último Congresso Brasileiro de Obesidade e Síndrome Metabólica, em São Paulo. O assunto também envolve a cirurgia bariátrica. Vejo na minha prática as pessoas que fazem essa cirurgia ficam magros, mas todos deprimidos e não querem ser acompanhados pelo psiquiatra, porque se sentem mal, discriminados. Resolveu o problema físico, mas não o da cabeça. E ela não vai acompanhar a velocidade da perda do peso e da nova condição física. Essa dor psíquica vai demorar a sair. Primeiro, porque não tem um remédio, pois os antidepressivos, ansiolíticos ajudam, mas não curam. É preciso um trabalho terapêutico.


FIQUE POR DENTRO

Psiquê e soma

A história da psicossomática começa com a própria história da medicina. Hipócrates - Pai da Medicina - avaliava o paciente não só em relação à doença em si, mas via a pessoa dentro do contexto da doença, do ambiente onde ele estava morando e das pessoas que conviviam com ele. "Então, quando se adoece, não é simplesmente o corpo que adoece; adoecemos por inteiro (corpo e mente). E essa doença vai se contextualizar e refletir no nosso comportamento, no trabalho e no convívio familiar", afirma Dra. Márcia Holanda, presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática (Regional Ceará).

Dentro do contexto médico, somos tanto psiquê, quanto corpo, que é o soma. Há algumas doenças que se caracterizam bem como psicossomáticas. A hipertensão arterial, a asma brônquica, o câncer, a úlcera gástrica, a psoríase, a dermatite, que são desencadeadas ou muito afloradas pelo efeito psicológico.

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