humor

Sociais, influenciáveis e humanos

02:31 · 27.11.2011
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A maioria das pessoas certamente já teve a sensação de ser contagiada pelo humor de alguém. Seja por aquele tio pessimista que tende a deixar todo mundo para baixo até nas confraternizações mais alegres, ou por aquele colega de trabalho que está sempre de bem com a vida e fazendo as pessoas rirem. Entretanto, isso não é apenas uma sensação. Sentimentos, estados de espírito, assim como comportamentos sofrem influências de nossas relações sociais e, por mais incrível que possa parecer, são realmente "contagiosos".

Segundo o professor do Curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor) e mestre em Análise do Comportamento pela PUC/São Paulo, Dumas Ferreira Gomes, é comum que, quando determinadas pessoas expressem seus sentimentos, isso possa produzir em nós sentimentos semelhantes. "Além disso, ao convivermos com pessoas ditas "felizes", podemos vir a aprender uma série de comportamentos delas, como a forma de encarar alguns eventos do dia a dia e, principalmente, a forma de lidar com os problemas, o que nos leva a agir e, consequentemente, a sentir de forma parecida".

Porém, ressalta que isso não ocorre pela influência direta do humor dessas pessoas, mas porque aprendemos a nos comportar de forma semelhante. E, como quem age como uma pessoa feliz tende a se sentir mais alegre, isso acaba ajudando a transmitir os mais diferentes estados de humor, seja de forma consciente ou inconsciente.

Como os humanos são por natureza seres sociais, a forma com que um grupo/cultura encara os fatos, de forma positiva ou negativa, irá afetar todos os que nela estiverem inseridos.

Para a terapeuta analítico-comportamental e profa. do curso de psicologia da Unifor, Denise de Lima Oliveira, essa tendência a "imitar" pessoas do nosso cotidiano ocorre, em verdade, quando observamos e percebemos que a ação do outro produz resultados "positivos" para ele. Esses benefícios são chamados pela psicologia analítico-comportamental de "reforçadores". "Uma pessoa bem humorada pode ser alvo de imitação justamente por, no meio em que vive, isso produzir mais consequências positivas do que uma pessoa mal humorada", afirma.

Reflexo na saúde

Essa característica inerente ao ser humano está ainda intimamente ligada à saúde. Não é à toa que vários profissionais atuam na Terapia do Riso levando alegria a tantos pacientes hospitalizados. Isso porque sorrir pode propiciar uma atitude mais otimista e, por isso, diminuir a sensação de estar doente e promover uma recuperação mais rápida e eficiente.

Por outro lado, conforme o prof. Dumas Gomes, se copiamos atitudes negativas, convivendo com pessoas mais ansiosas ou com padrão de comportamento mais submisso e passivo, por exemplo, podemos, a longo prazo, apresentar alterações fisiológicas que podem ser prejudiciais à saúde.

Os pessimistas possuem tendência a não reagir diante de situações difíceis, a não lutar para minimizar os problemas e produzir condições mais favoráveis para a sua vida, o que acaba sendo fundamental para a manutenção da saúde do corpo em geral.

Lembra do tio pessimista? E se você tiver de conviver todos os dias com ele? Ou pior, se o mesmo se aplica a sua mãe ou ao seu pai? Muitas vezes, quando essas características envolvem pessoas que significam muito para nós ou são muito influentes em nossa vida, é muito possível que se crie um ambiente "negativo", onde toda a família está exposta. "Num lar matriarcal em que a mãe detém todo o controle sobre o cotidiano dos demais membros da família, por exemplo, se essa mãe produzir uma condição de mal estar, todos serão afetados", informa Denise Oliveira.

Se a convivência é inevitável, é preciso aprender a diferenciar o que é fato e o que são regras criadas pelas pessoas com as quais lidamos. A partir disso, de acordo com a terapeuta comportamental, é preciso agir sobre o controle dos fatos e não do relato e das ações de outros.

Por outro lado, o prof. Dumas Gomes alerta que essa influência não é obrigatória. "Não é como se estivéssemos abertos a toda e qualquer influência que nos apareça. Na verdade, cada um de nós é influenciado por tendências específicas. Isso, logicamente, tem a ver com a história de vida de cada um".

Aprendizagem por imitação

Além dos sentimentos e estados de humor, também "imitamos" hábitos e comportamentos daqueles com os quais convivemos. E isso não se aplica apenas a seres humanos, sendo comum também nos animais. "A psicologia experimental há muito descobriu que uma das formas pela qual os animais aprendem a se comportar é através da observação. Um dos motivos para isso está na evolução das espécies. Provavelmente, indivíduos que eram capazes de aprender ao observar outros indivíduos teriam maior chance de sobrevivência do que aqueles que precisavam aprender sozinhos", afirma Dumas Gomes.

Em alguns casos, é possível que essa imitação funcione como uma forma de ser aceito em um grupo e, até mesmo de conseguir os tais "reforçadores" (atenção, reconhecimento, etc). Um bom exemplo disso são jovens que, ao passarem a integrar novos círculos de amizades, tendem a se vestir de forma parecida, frequentar os mesmos lugares, falar e agir de forma semelhante, o que não quer dizer que isso, necessariamente seja uma reação voluntária, uma vez que muitos nem se dão conta da influência que sofrem até serem chamados pejorativamente de "maria-vai-com-as-outras".

Embora quem espelhe características de outrem tenha, como objetivo (voluntário ou não) atrair benefícios para si, nem sempre isso acontece. À principio, conforme o psicólogo, não há nada de errado em copiar certos modelos. É uma forma de aprendizagem e tem várias vantagens. O problema aparece quando aquele comportamento aprendido traz prejuízos para o indivíduo ou para a sociedade. "Do ponto de vista da Análise do Comportamento, entretanto, mesmo quando um indivíduo tem um padrão de comportamento que traz alguns prejuízos para si, ele também traz alguma consequência importante (reforçador) que explica porque ele o faz", comenta o prof. Dumas.

Essas influências não vêm somente de pessoas com as quais convivemos. Todos os dias somos bombardeados por diversos tipos de informações. Algumas são absorvidas, outras não. Moda, hábitos alimentares, esportes. Cortamos o cabelo como os das atrizes famosas, resolvemos adotar a dieta do momento em grande parte porque alguém, famoso, ou não, nos "convenceu" de que seríamos beneficiados.

Para absorvermos essa influência, um fator é essencial: ter admiração. O importante são as consequências que traz para nós. "Se me comporto igual a um determinado ator de novela e isso só me traz prejuízos, com certeza vou parar de agir daquela maneira", finaliza o professor.

ANAMÉLIA SAMPAIO
REPÓRTER

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