psicossomática

Sob pressão, o coração somatiza e adoece

00:00 · 22.10.2013
Como a cardiologia psicossomática trata as várias funções do coração no processo de adoecimento

A ansiedade, o estresse, o humor e a depressão afetam o corpo como um todo, e isso inclui também a mente. Com uma visão integrada do organismo, a cardiologia traz um viés psicossomático ao considerar que o coração, além de órgão físico, também se caracteriza como um órgão simbólico, irrigado de emoções. É daí que o coração consolida seu papel essencial no processo de adoecimento.

Segundo a cardiologista Márcia Holanda, com formação psicossomática, coordenadora do Departamento de Cardiogeriatria da Sociedade Brasileira de Cardiologia há 34 anos e da Câmara Técnica de Cardiologia (Crenece), quando se adoece o corpo inteiro fica doente também. “Se for um adoecimento mental, haverá uma representação física disso. Já quando adoece o corpo, a mente também irá sofrer em resposta. Essa ligação corpo e mente, mente e corpo são vias de mão dupla”, enfatiza a médica.

O coração é o órgão que se responsabiliza pelo bombeamento de 7.200 litros de sangue diários, num ritmo de 70 batimentos por minuto. Quando ele bate muito rápido, surge a taquicardia; quando bate lentamente, há a braquicardia; e quando bate de forma anárquica, surge a arritmia.

Sensação de quase-morte

Por esses aspectos que a cardiologia psicossomática se avalia não somente o histórico clínico do paciente, mas também é investigado o histórico psíquico, o contexto em que vive, a forma como se relaciona, a personalidade, os hábitos, o humor, a autoestima, entre outras impressões. “A função psicossomática está muito aflorada nas doenças cardiovasculares. Existem meandros do perfil psicológico que deflagram essas doenças”, ressalta Márcia Holanda.

Além da obesidade, do colesterol alto, do tabagismo entre outros fatores de risco que contribuem para doenças no coração, mas fatores emocionais também podem refletir problemas fisiológicos. Tontura, vômito, taquicardia, nausea, sensação de quase-morte e palidez são sintomas corporais que podem ser consequência da síndrome do pânico.

“O ataque de pânico é como uma situação extrema de desamparo, é um grau de ansiedade máximo e o sistema cardiovascular é muito atingido nesse contexto. Muitas vezes, a pessoa não sabe o que tem e, apesar dos exames indicarem que está tudo normal, o problema persiste. Por isso, os médicos precisam valorizar o psíquico”, destaca a médica.

Quando psicológico

Já a depressão, apesar de ser um quadro psicológico, é fator independente para doenças cardiovasculares. Dra. Márcia Holanda revela que existem dois tipos de personalidade dentro desse contexto.

O tipo A é característico do paciente coronariano, representado por uma pessoa competitiva, trabalhador compulsivo, que tem o estresse e a ansiedade como sensações que fazem parte de sua rotina.

Já o tipo B, é o sujeito que é deprimido. “Por ser um fator independente, a pessoa pode se sair bem em todos os exames que, mesmo assim, é preciso pensar nela como um provável doente coronariano. A depressão vai provocar uma cascata de inflamação no organismo, a imunidade do indivíduo baixa e muda tudo”, alerta.

Relação médico-paciente

Manter o diálogo com o paciente é essencial no processo de prevenção. Para verificar se é uma depressão hereditária (endógena) ou reativa (decorrente de um trauma vivido) e, só assim, direcionar o tratamento da maneira correta.

“Os pacientes de infarto que chegam na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) apresentam probabilidade de desenvolver depressão em 45% dos casos. Como um cardiologista, vendo o paciente deprimido, não vai fazer nada? Tem que medicar. Se o cardiologista não está habilitado para isso, deve-se chamar o psiquiatra”.

Padrão psicossomático

O tratamento é composto pela combinação de antidepressivo, ansiolítico e terapia. A cardiologista Márcia Holanda explica que pode proceder nos casos de depressão reativa ao infarto, por exemplo, porque está capacitada para usar medicamentos dentro do padrão psicossomático, porém, nos casos psiquiátricos, ela enfatiza que o paciente precisa ser encaminhado ao profissional responsável.

“Se eu pego um paciente com depressão endógena, é um quadro psiquiátrico, mas a depressão reativa ao infarto ou ao pânico, considero-o um paciente psicossomático que necessita de tratamento psicológico, cardiológico e psiquiátrico”, esclarece. Além de medicamentos, atividade física e alimentação saudável se tornam exigências.

FIQUE POR DENTRO

O coração nos faz refletir sobre o dar e receber

“O coração não trabalha sozinho, além de estar numa relação direta com o sistema circulatório, também está de mãos dadas com o cérebro”, afirma o psiquiatra e criador da Terapia Comunitária Integrativa, Adalberto de Paula Barreto. Em seu livro “Quando a boca cala, os órgãos falam - Desvendando as linguagens dos sintomas” (Editora LCR), confirma ser o órgão responsável pelo equilíbrio do nosso corpo físico com o corpo social “e simboliza o nosso esforço, nosso amor, determinação e envolvimento com tudo que fazemos”.

A riqueza simbólica do coração é expressa por meio de várias expressões que fazem parte de nosso cotidiano. Para descrever coragem: “Fulano tem o coração na barriga”, ou seja, ele tem força para enfrentar as adversidades porque sabe unir emoção (coração) e a força vital (do ventre). Sinceridade: “Falar com o coração” ou ainda “Abrir seu coração a alguém”. Generosidade: “Ter o coração na mão” ou “Ter o coração de ouro”. Emoção: “Ele tem um grande coração ou “Tem coração de pedra”.

A sensibilidade do coração torna-lhe capaz de responder a qualquer demanda, seja de esforço físico (fisiológico) ou emocional (psicológico), afirma Adalberto Barreto. “Os problemas cardíacos convidam-nos a refletir sobre como estamos vivendo as mágoas, os ressentimentos, os ódios, em detrimento do amor, da compaixão e do perdão. Assim como o coração leva alimentos materiais para cada célula do corpo, também leva emoções negativas”.

Vicky Nóbrega
Especial para o Vida

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