TROCAS

Só vai brincar se comer tudo!

20:59 · 10.02.2011
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Especialistas criticam pais que utilizam o alimento como castigo ou recompensa

É comum se ouvir a frase: "Só mais duas colheradas de sopa ou então não vai ter brincadeira hoje". No desespero em fazer os filhos se alimentarem, quantos pais não os chantagearam ou fizeram promessas nunca cumpridas?

Usar os alimentos como "moeda de troca" não ajuda em nada na educação alimentar, afirma a nutricionista e coordenadora do Programa Interdisciplinar de Nutrição aos Transtornos Alimentares e Obesidade (Pronutra), Myrian Fragoso. Transtorno alimentar (TA) na primeira infância (de 0 a 6 anos) tem se tornado cada vez mais comum: falta de apetite, recusa alimentar, demora para comer ou extrema seletividade de alimentos são algumas das queixas frequentes.

Para a especialista que também coordena o setor de Nutrição do Núcleo de Atenção Médica Integrada (NAMI) da Universidade de Fortaleza (Unifor), a prática da compensação não é eficaz e faz com que as crianças não reconheçam a real importância de uma nutrição adequada.

"Para modificar o hábito é necessário que os pais parem com esse estímulo, buscando outras formas de exercer sua autoridade que não o alimento, o que é muito favorecido por uma boa dose de paciência e criatividade. Um comportamento alimentar saudável não é obtido através de rigor, e sim de carinho, confiança e, principalmente, de bons exemplos", recomenda a nutricionista Myrian Fragoso.

Formas de recusa

Na lista dos transtornos estão o comer seletivo, o comer restritivo e a recusa alimentar. A seletividade é caracterizada por uma alimentação muito limitada no que se refere à variedade. São indivíduos que geralmente consomem em torno de seis tipos de alimentos e oferecem resistência em ampliar seu repertório alimentar.

"Geralmente as crianças apresentam peso adequado, sem maiores complicações clínicas", frisa. O comer restritivo passa por uma ingestão alimentar bem abaixo da quantidade recomendada para crianças da mesma idade e sexo. Neste caso, é frequente o baixo peso e, dependendo da duração dos sintomas, o transtorno pode afetar também o crescimento.

Já a recusa se dá pela negação na ingestão de alimentos em determinadas situações. "É importante ressaltar que isso não está relacionado com medo de engordar, como acontece na anorexia nervosa, e sim, com um artifício da criança (ex: atitude de protesto ou oposição aos pais), bem como uma resposta emocional ao lidar com determinadas situações. Essas crianças podem apresentar baixo peso, mas, comumente, não desenvolvem maiores complicações.

Angústia diária

A recepcionista Tatiana Barbosa, 31, mãe de Cauã, 7, sofre diariamente com os hábitos nada saudáveis do filho que "briga" com as frutas, sucos e sopas que a mãe incansavelmente insiste em oferecer. Enquanto o garoto prefere hambúrgueres e doces, Tatiana quer ver o filho comendo de modo mais colorido e balanceado. "Não sou a primeira nem a última mãe que tem dificuldade com a alimentação dos filhos. É uma angústia diária. Tenho que ficar enganando, misturando poucas verduras em meio ao arroz. Não é que ele descobre a cenoura e cata tudo fora?", lamenta.

Segundo a nutricionista, essas birras podem ou não se consolidar em um transtorno, exigindo atenção médica em casos mais extremos. "Alguns comportamentos são comuns à faixa etária, sem necessariamente constituir um transtorno. Entretanto, quando se estendem por longos períodos de forma constante e passam a interferir no desenvolvimento intelectual, social e orgânico é necessário procurar o auxílio de especialistas. O tratamento deve envolver a criança, a família e a escola".

É criança que come de menos, outras que comem demais; que prefere brincar à comer; que só come na frente da televisão; só aceita fast-food ou doces. A lista de problemas aumenta quando o filho começa a ficar obeso, desnutrido, com carência de vitaminas e hábitos alimentares longe do ideal, problemas que vão, muitas vezes, acompanhá-lo até o fim da vida.

Para Myrian Fragoso, é importante perceber que a hora da refeição é um ato social, é o momento em que, teoricamente, a família se reúne. Entretanto, com o ritmo da vida moderna, a família está cada vez mais ausente, sempre presa a horários, que reduzem esse encontro tão rico a mais uma tarefa a ser executada de forma eficaz e, portanto, mais uma obrigação diária.

Valores

Ao longo do desenvolvimento da criança são agregados à comida valores emocionais, sociais, culturais, familiares (positivos ou negativos) que irão influenciar e refletir diretamente no comportamento alimentar. Até porque, argumenta Myrian Fragoso, o alimento é utilizado por eles como resposta aos estímulos que recebem do meio, ou seja, é uma forma de comunicação, que deve ser observada com atenção.

A nutricionista lembra que a educação alimentar deve acontecer o mais precocemente possível, já que hoje observa-se uma explosão de problemas de saúde nas crianças em decorrência de maus hábitos alimentares (obesidade, diabetes, colesterol elevado); problemas que até então se restringiam ao mundo adulto.

O comportamento alimentar é multidimensional, pois inclui, além dos componentes físicos (alimentos e os órgãos dos sentidos responsáveis pela capacidade de percepção sensorial), uma gama de disposições psíquicas e culturais.

Fique por dentro
Sem "aviãozinho"

Toda criança tem o direito de gostar ou não de alguns alimentos: respeite suas preferências ou oscilações do apetite. Tente apresentar novos alimentos sempre de forma atrativa; estabeleça horários para as refeições (que devem acontecer num ambiente tranquilo). Procure reunir a família durante as refeições, assim como não obrigar a criança a comer e usar o alimento como recompensa. Não use métodos de distração na hora da refeição (aviãozinho, TV, etc).

Não disfarce os alimentos e se esforce para estabelecer uma relação de confiança com a criança. Comece oferecendo pequenas porções - em texturas adequadas para a idade - até que a criança se acostume e aumente a quantidade ingerida de forma gradativa.

A opinião do especialista

Uma relação de prazer

As crianças nascem com uma relação fisiológica com a alimentação e, como todo mamífero, precisam do leite para sobreviver. Sentem quando estão com fome e quando saciadas recusam continuar comendo. Os pais, cuja preocupação com a sobrevivência de "sua cria" contemplam a questão da alimentação, só ficam tranquilos quando as crianças comem "tudo".

Então ouvimos os que dizem que "só pode o bombom quando comer tudo"; "só vai passear ou ganhar presente se comer tudo". Desta forma, nós pais fazemos com que as crianças percam o controle de sua saciedade. Sendo este processo tão importante, ele passa a ser reconhecido pelos filhos como um momento de troca e de "imposição das vontades".

As crianças com raiva não querem comer, ou comem escondido, ou só querem as coisas que os pais consideram inadequadas. Quando adolescentes, a dieta passa a ser um forma de expressão pois ele come "o que quer" já que não pode fazer "tudo o que quer".

Portanto, a alimentação deve ser um processo natural das famílias que se reúnem para comer e aquele momento é prazeroso e acolhedor. Elas precisam descobrir a questão social de se alimentar junto com sua família, do prazer e acolhimento da alimentação, tornando este momento uma celebração familiar.

Iniciando pela cumplicidade e descobertas da amamentação, o enlace da família com as refeições É muito importantes. Essa criança precisa pegar no alimento, cheirar, provar para que os mesmos se tornem familiares. Pesquisas mostram que as crianças devem ser expostas pelo menos 10 vezes ao mesmo sabor, até que se habituem com ele.

Hoje, quando vivemos numa vida agitada, as crianças comem sozinhas, em horas diferentes da família e, muitas vezes, onde não está nenhum membro da mesma. São retiradas das brincadeiras para comer e "obrigadas" a comer tudo que se oferece. A alimentação tem que ser um ritual. A criança tem que descobrir que é a hora de comer, mas de forma lúdica e cuja afetividade e segurança estejam presentes.

A educação alimentar é parte de um processo educacional completo e deve começar com a vida. As crianças nem sempre serão crianças e temos que garantir aos nossos futuros adultos uma vida longeva e sadia.

É tudo que os pais querem, mas ficamos presos nos conceitos de que a "sopinha é tão sem gosto, vamos colocar sal?", "qual o mal de comer um bombom ou outro", "criança precisa comer besteira" e por aí vai. Mas eu, nutricionista, muitas vezes me perguntava onde está escrito que no final de semana pode tudo, onde está escrito que aniversário que é uma coisa boa tem que ser regado a bolo, doce e refrigerante?

Onde está escrito que é muita maldade não dar salgadinhos industrializados, refrigerantes, enlatados e guloseimas para as crianças? Será que não é maldade maior oferecer esses alimentos em detrimento de frutas e verduras, e outras preparações mais saudáveis e depois torná-lo um adulto obeso ou com doenças cardiovasculares?

Dizer então, a estes adultos que precisam comer frutas e verduras e não podem mais comer as coisas que lhes ensinaram a vida toda. É muito comum, no consultório, adolescentes obesos dizendo que a "culpa" do peso é dos pais que deixavam comer tudo o que queriam.

Não quero dizer que tudo está relacionado com a família, mas grande parte está ligado a ela, sim. Precisamos tentar uma dieta variada, que permita a criança descobrir vários sabores em família, que se não sabe comer bem, se propõe a aprender juntos. A alimentação é um dos pilares da vida longa e saudável e se essa descoberta for feita desde o início não haverá dificuldades, ou mesmo diferença quando se for comer uma picanha, uma salada ou um mousse.

Todos os alimentos serão capazes de trazer prazer já que sempre fizeram parte da vida daquela criança. O rigor dos pais deve ser substituído por atenção e assim não gerar angústia ou ansiedade. Podemos criar uma geração mais saudável onde as crianças possam gostar de comer de tudo o

Carla Soraya Costa Maia
Nutricionista e coordenadora do curso de Nutrição da UECE

IVNA GIRÃO
REPÓRTER

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