SABEDORIA

Sintomas sinalizam caminho da saúde

22:58 · 13.02.2010
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CORPO E PSIQUE AGEM DE FORMA A CONDUZIR A MUDANÇAS E CRIAR UMA VIDA MUITO MAIS SIGNIFICATIVA

O aparecimento de dores e sintomas, normalmente, levam as pessoas a não enxergarem e se distanciarem dos aspectos saudáveis de seu ser. O processo de adoecer nem sempre é negativo como se crê. Tampouco, a saúde significa ausência de doença.

Médicos e psicoterapeutas que seguem uma linha mais humanista observam o adoecer de forma um pouco distinta da convencional. Isso porque, quando alguém adoece, normalmente gostaria de entender o significado daquela dor, indisposição ou mal-estar. Como critica o psicólogo Raul Monteiro, porém, muitas vezes os profissionais da Psicologia são indicados por médicos, mas nem sempre os pacientes comparecem.

Isso o motivou a refletir sobre a resistência das pessoas, que costumam entregar apenas nas mãos do profissional de saúde a responsabilidade por diminuir suas dores renitentes, além de sua cura. Segundo ele, um colega médico informou que as pessoas o procuravam com sintomas que, muitas vezes, não eram detectados em exames. Quando a tomografia não dava nada, ficavam perdidos.

Os dois especialistas constataram que os postos de saúde e os consultórios médicos se encontram sempre cheios de pessoas com os mais variados sintomas, uma "pandemia de sintomas". E se questionam, o que fazer quando os exames não encontram nada que justifique aquele quadro.

A Medicina Psicossomática começa a dar conta das causas "não físicas" das doenças. Para Monteiro, existe uma inteligência profunda por trás dos sintomas e compreendê-los pode ocasionar uma mudança bastante significativa na vida de cada um.

O psicólogo não faz apologia ao sofrimento, nem o reduz a meros sinais ou ilude os acometidos com problemas sérios com falsas soluções. Admite haver a possibilidade de transformar um viver e morrer desesperados em algo distinto, com sentimentos de realização e esperança.

O físico e hoje psicólogo analítico, Arnold Mindell, foi um dos que observaram a semelhança existente entre as vivências humanas mais sutis e a Física subatômica. Com vários de seus livros publicados no Brasil, depois de se formar no Instituto C. G. Jung, de Zurique, descobriu que os sintomas eram para o corpo o que os sonhos eram para a psique, ou seja, mensagens de uma parte desconhecida do próprio ser para seu eu cotidiano.

Monteiro revela que caso esta mensagem interior seja ignorada, acaba se desdobrando em uma escalada de doenças. Se os sinais não forem observados e compreendidos, o indivíduo pode chegar até à morte. "O aspecto extraordinário dessa descoberta é a constatação de que esta mensagem, uma vez reconhecida e integrada, leva a uma mudança na percepção da nossa doença e até de nós mesmos".

Acolher os sintomas

O psicólogo acha importante ressaltar a diferença entre o objetivo inicial, de quem apresenta algum tipo de sintoma, de querer se livrar do desconforto a qualquer custo, em oposição deste aspecto desconhecido que "enviou a mensagem/sintoma", por não ser compreendido, costuma ser relegado, como "secundário"

"Para alcançar seu objetivo primário - ficar livre do sintoma - a pessoa procura ajuda médica e, conscientemente ou não, usa a terminologia médica. O que não é mau, como nos explica Mindell, mas também não ajuda muito, uma vez que ela se baseia em conceitos patológicos e se destina a uma intervenção química. Ou o uso de remédios".

A parte desconhecida dos humanos - que ainda utilizam muito mais os recursos da mente racional - Arnold Mindell denominou de "Criador de Sonhos ou Mente Quântica". É esta dimensão que envia sinais (ou sintomas), com o intuito de reconectar cada um à sua própria natureza, a fim de que cumpra seu propósito maior, realizando-se como indivíduo, membro de sua comunidade e cidadão consciente do planeta que habita.

Elo entre sonhos e sintomas

Foi na década de 70 do século passado que Mindell descobriu a ligação - o elo vital - entre os sonhos e os sintomas corporais, semelhante ao "corpo onírico" ou entidade que é " sonho e corpo" e que, ao amplificar os sintomas corporais, trazem uma chave para se entender o significado daquela doença.

Quando a mensagem dessa "dimensão quântica" da mente, surge o dilema: o que fazer com ela? O psicólogo Raul Monteiro sugere, a partir desse novo entendimento, mudar a própria atitude diante dos sintomas, trocando o medo pela curiosidade. "Dessa forma, pode-se considerar a sinalização do corpo ou da mente como início de um processo - talvez congelado pelo próprio medo de mudar ou como o começo de um sonho, um potencial - esperando que a vivência que nele se encerra, desabroche", ensina.

Ao sentirmos uma dor (como uma dor de cabeça, por exemplo), nosso próprio corpo onírico já passa a estar funcionando no canal das sensações ( proprioceptivo). Indica, então, como primeiro passo, sentir o sintoma.

"Esqueça o que pensa, fique só na sensação. Neste momento, esqueça o que a Medicina diz e olhe o seu sintoma como se fosse a primeira vez em todos os tempos que está sentindo essa dor. Examine onde esta dor se origina: seja exato: ela começa aonde?"

Em seguida, Monteiro pede que se observe os detalhes, como temperatura e variações de frio e calor, verificando se a dor tem alguma geometria. Se irradia-se para algum ponto. "Não se mexa. Fique deitado na cama, para poder sentir seu sintoma e amplifique-o. Se for possível aumentar a dor, aumente-a! Não faça coisa alguma para aliviar seu desconforto, em vez disso, paralise-se e dê a esta dor a atenção que você daria a um animal raro, sem cair na armadilha de explicar ou evitar a dor", solicita.

O terceiro estágio desse trabalho se inicia por si. A vivência da dor sai do âmbito da sensação para a imagem, trazendo um possível sentido.

Mensagem

"Querer se livrar dos sintomas a qualquer custo por medo pode ser ainda mais prejudicial à própria saúde"
Raul Monteiro
Psicólogo clínico e organizacional do Instituto Janus de Consciência Global

Processivo

"A Liderança como Arte Marcial"
A. Mindell Janus
2009
206 pgs
R$ 40,00

traduzido pelo psicólogo cearense Raul Monteiro, Mindell tem nesta obra importante trabalho, com técnicas e estratégias específicas para a resolução de conflitos. Autor de 20 outros livros, incluindo O Ano I, O Caminho do Rio, Sitting in the Fire e The Deep Democracy of Open Forums (www.aamindell.net), o físico e analista junguiano traz i sua teoria e prática da liderança, na condução do que ele denomina de Democracia Profunda, que inclui todo o ser e seus grupos.

A dor pode levar à cura

Se a pessoa consegue manter contato com sua amplificação da dor por tempo suficiente, acontece algo bem interessante, segundo Mindell e Raul Monteiro. No limite da dor se dá uma troca de canais. A vivência da dor sai do âmbito da sensação de desconforto para surgir uma imagem ou som, que tem conteúdo valioso.

Neste momento, explica Monteiro, a tarefa de quem atravessou a dor consiste em amplificar o processo do seu sintoma neste novo canal - visual, auditivo ou de movimento, da mesma forma que ampliou sua propriocepção. Não importa como se lida com as visões, vozes ou movimentos. Desenvolver um segundo ponto de vista, uma imagem, um som ou um movimento que reflete o sintoma corporal que antes sentido traz um novo referencial.

"É como se soubesse, em outra linguagem, o que o corpo está fazendo. A conclusão do trabalho traz o bem-estar ou entendimento dos sintomas, que podem estar associados a algum conflito interno ou externo". Trabalhar conflitos, requer atitudes específicas. Recomenda a leitura da obra de Mildell traduzida por ele (A Liderança como Arte Marcial), sobre o Trabalho Processivo, ou Psicologia Orientada pelo Processo ( www.janus.org.br).

ROSE MARY BEZERRA
REDATORA

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