ESTUDO

Sexualidade é essencial para a compreensão do ser humano

20:25 · 30.07.2011
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A psicoterapeuta e sexóloga Elza Dias coordena o Atash- Ambulatório em Sexualidade Humana do Hospital em Saúde Mental de Messejana
A psicoterapeuta e sexóloga Elza Dias coordena o Atash- Ambulatório em Sexualidade Humana do Hospital em Saúde Mental de Messejana ( FOTO: KID JÚNIOR )
Proposta visa realizar o estudo da sexualidade na ótica dos valores, preconceitos, mitos, tabus e ansiedades

As disfunções sexuais têm uma estatística elevada: no homem, a disfunção erétil, enquanto na mulher prevalecem as disfunções do orgasmo. Mesmo assim, a sexualidade permanece ausente nos currículos acadêmicos, deixando muitos dos profissionais sem recursos para atender a essa grande demanda. Tal condição levou a médica Elza Dias (em parceria com a psicóloga Arlene Lima) a elaborarem um curso de estudos básicos e oficinas de gênero. Confira detalhes na entrevista concedida ao Viva.

Qual a importância do estudo da sexualidade para a compreensão do ser humano?

O ser humano age e interage a partir da percepção de si mesmo e do meio circundante. Esse agir e interagir humano está diretamente relacionado à condição de ser sexuado, dividido em dois gêneros, masculino e feminino. Essa é a importância do estudo da sexualidade como fator indispensável à compreensão da complexidade que nos coloca no ápice da evolução da vida.

O que diferencia os termos identidade e orientação sexual?

Identidade de gênero refere-se a como cada pessoa se percebe enquanto homem ou mulher e tem por referencial inicial o sexo biológico. Mas a biologia não define o gênero pois a identidade é resultante da intersecção entre a cultura e a natureza, daí as variantes no tempo e história da humanidade. Leonardo Boff resume bem quando diz: Gênero é um modo particular de ser no mundo e se estrutura na interseção do biológico com o sociocultural. Já a orientação sexual diz da direção do desejo sexual que pode ser homossexual, heterossexual ou bissexual. Esta distinção é importante pois um desejo homossexual não significa alteração na sensação subjetiva de pertencer a um gênero ou outro.

Quais os tabus que a sociedade se depara quanto à sexualidade, identidade e orientação sexual?

Somos uma cultura homofóbica com todas as manifestações violentas que um preconceito pode manifestar, desde a agressão física a pessoas com orientação sexual homoerótica até as discriminações mais sutis, porém não menos cruéis, como a rejeição dentro da família. A sexualidade feminina ainda é tabu. As mulheres que optam, por exemplo, por serem mães solteiras, são discriminadas, uma vez que a sociedade aponta que o casamento seria condição para a maternidade; as divorciadas ainda são olhadas de esguelha; a idosa que namora idem. O olhar sobre a sexualidade feminina tem como referencial a mulher jovem, heterossexual e procriadora.

Quais os problemas relativos à sexualidade com os quais os profissionais têm se deparado?

As disfunções sexuais têm uma estatística alta. No homem há uma prevalência de disfunção erétil e, na mulher, as disfunções do orgasmo. Como problemas novos, temos a dependência de homens ao uso de medicações para ereção, apontando para uma insegurança masculina em relação ao desempenho sexual.

Outra preocupação é com o crescente número de pessoas - homens e mulheres - com compulsão sexual. Parece, também, haver um aumento da pedofilia.

Como são classificados os transtornos da sexualidade ou disfunções sexuais?

Em medicina classificamos os transtornos sexuais como disfunções sexuais. Dizem respeito a alguma alteração da resposta sexual, seja no desejo, na excitação ou no orgasmo; os transtornos da preferência sexual - as parafilias e os transtornos da identidade de gênero. As parafilias são caracterizadas por fantasias ou comportamentos sexuais que envolvem objetos, atividades e ou situações incomuns. Exibicionismo e pedofilia são exemplos de parafilia já o transexualismo é um transtorno de identidade de gênero.

Como homens e mulheres encaram a sexualidade? Isso mudou nos últimos anos? Por quê?

Os homens são muito ligados ao sexo pelo sexo em si, já a mulher associa, via de regra, o sexo com afeto; então a mesma situação sexual vivida entre um homem e uma mulher pode ter significados diferentes. Com a liberação dos comportamentos sexuais, onde percebemos que os códigos de conduta estão borrados, difusos, pouco claros, a "guerra dos sexos" tomou feições de um jogo esquisito, onde cada um dos parceiros é regido por regras diferentes. Daí sobra confusão, desencontros e sofrimento.

Quais as consequên-cias que as mudanças dos papéis sexuais (sociais) trouxeram para homens e mulheres? Como se refletem na sociedade?

Papel sexual é como a pessoa expressa sua identidade de gênero. E, por razões históricas, sociais, econômicas, o desempenho dos papéis sofreu uma ruptura rápida e esse movimento ainda não se estabilizou. Isso gera muita ansiedade, que origina diversas neuroses. No entanto, a tecnologia da anticoncepção e da concepção desvinculou o sexo da procriação e a humanidade, pela primeira vez, pode dedicar-se à busca prazerosa e amorosa através da sexualidade. Mas estamos pouco preparados para isso.

A orientação sexual (dos gêneros), antes velada, ultimamente tem sido bastante debatida, em especial nos meios de comunicação. Por que temos essa sensação de que tudo aconteceu tão rapidamente?

Se pensarmos na luta dos homossexuais por fazer valer os seus direitos, veremos que essa aparente rapidez é um equívoco. Há pouco tivemos o reconhecimento da união homossexual estável, mas essa vitória foi fruto de um esforço de décadas. A mídia apenas coloca em evidência o que já existe e o faz, sabemos, apoiada em pesquisas de opinião que validam essa exposição.

Quais as consequências disso em relação ao contexto social?

São as que percebemos: o assunto começa a ser debatido entre as pessoas, deixa de ser segredo. Isso é bom, democrático. Prós e contras encontram o espaço para debate, favorecendo o amadurecimento social. Como todas as questões polêmicas - aborto, divórcio, a Justiça passa a reconhecer o direito individual de existir e de viver conforme seu livre arbítrio.

Quais as consequências disso em relação aos preconceitos?

O preconceito, de qualquer natureza, só é abolido com a educação. A questão é que os responsáveis (Estado e família) continuam se omitindo na formação das pessoas. Ainda não somos uma cultura educada sexualmente, pois ainda há muita desinformação e ignorância.

Na sua opinião as pessoas se sentem mais à vontade para assumirem sua sexualidade?

Hoje se pratica mais sexo, porém sem o discernimento necessário ao equilíbrio psicoemocional. Em decorrência, pessoas se machucam e são machucadas. Percebo o incremento do sofrimento no exercício da sexualidade e afetividade, pois os referenciais internos de comportamento ligados ao duplo padrão moral sexual ainda persistem na mente das pessoas.

O que precisa ser mudado na forma como o tema é debatido?

Insisto na urgência de pensarmos sobre a educação sexual, formal e informal. Um povo educado é livre e senhor de sua autonomia para fazer escolhas em sua vida pessoal. Os jovens estão iniciando a prática sexual sem discernimento do que seria apropriado para ele. Há um aumento nas estatísticas de gravidez não programada, de doenças sexualmente transmissíveis, de transtornos da sexualidade.

Como é o papel do profissional de saúde - médicos, psicólogos - nessa transição de papéis e de valores em relação à sexualidade?

Médicos e psicólogos são diuturnamente procurados para aconselhamento ou terapia das queixas sexuais. No entanto, a formação desses profissionais é falha no que se refere à sexualidade. São, ainda, exceções as faculdades que têm em sua grade curricular o estudo da dimensão sexual humana. Daí a importância de uma atualização dos profissionais nessa área.

Qual a motivação para iniciativas como essas que propõe?

Contribuo com a formação de médicos residentes em psiquiatria no Hospital de Saúde Mental em Messejana, onde ministro um curso de estudos básicos da sexualidade e coordeno, junto com um psiquiatra, Dr. David Martins, um ambulatório em atendimento em sexualidade humana, o ATASH. Essas atividades no âmbito hospitalar são uma tentativa de suprir a carência na formação de médicos em relação ao estudo da sexualidade. Pretendo, com a ajuda da psicóloga Arlene Lima, estender essa proposta para outros profissionais da área de saúde. As oficinas de gênero, dirigidas ao público adulto em geral, são uma proposta visando facilitar a reflexão sobre as questões de gênero.


MAIS INFORMAÇÕES

Curso "Estudos Básicos da Sexualidade" (40 horas/aula), aulas aos sábados (a partir do dia 6 de agosto). No Centiser (R. José Odernes Figueiredo, 231 - Joaquim Távora);

Oficinas de Gênero (15horas/aula). Grupo Masculino: nos dias 9 e 23/agosto, 6 e 20/setembro, 4 e 18/outubro; Grupo Feminino: nos dias 16 e 30 de agosto, 13 e 27 de setembro, 11 e 25 de outubro.

Local: Centiser (R. José Odernes Figueiredo, 231 - Joaquim Távora), Fones: (85) 3283.2121/3088.3163


GIOVANNA SAMPAIO
EDITORA

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