SAÚDE

Sexo é prazer responsável

13:11 · 06.03.2011
José Machado Moura Jr, diretor Médico da Astellas Farma Brasil, destaca a ação de novas drogas antifúngicas
José Machado Moura Jr, diretor Médico da Astellas Farma Brasil, destaca a ação de novas drogas antifúngicas ( )
( )
Um relatório publicado no ano passado pelo Programa das Nações Unidas para HIV/Aids (UNAIDS) sinalizou que as novas infecções pelo HIV caíram quase 20% nos últimos 10 anos . Também que os óbitos relacionados à Aids diminuíram em quase 20%.

Outras informações relevantes são de que, entre jovens dos 15 países mais severamente afetados, a taxa de novas infecções pelo HIV caiu em mais de 25%, principalmente após medidas de prevenção e esclarecimento sobre adoção de práticas seguras e responsáveis da sexualidade.

Apesar de se encontrar na dianteira no tocante aos tratamentos de pessoas vivendo com HIV e na educação sexual em escolas e trabalhos sociais de prevenção, o Brasil ainda conta com uma população resistente ao uso da camisinha: apenas quatro em cada dez brasileiros usam preservativos e, metade deles, não sabe se é ou não portador do vírus HIV, segundo este relatório.

Transversalidade

A questão das DST´s/Aids é bastante complexa, exigindo mais do que informações médicas com respeito a dados da saúde do brasileiro, informa a assistente social Cícera de Andrade Pontes, uma das articuladoras regionais da Coordenação Municipal de DSTs/Aids. Requer transversalidade para lidar com aspectos bastante distintos do comportamento humano frente aos relacionamentos e à sexualidade, a fim de se poder "enfrentar os desafios, em um diálogo entre as diversas áreas e instituições".

Ela justifica, citando além da saúde, as áreas de educação, assistência social, direitos humanos, políticas públicas para mulheres, políticas públicas para a juventude, diversidade sexual, raça e etnia da criança e adolescente, entre outras. Estas últimas envolvidas devido à grande incidência do HIV em jovens, principalmente, entre garotas.

Na realidade, tem sido tecida uma verdadeira "rede" para fazer frente a esta diversidade de situações complexas. Cícera explica que todas as secretarias municipais envolvidas no processo, bem como os equipamentos, dialogam juntos n o Gabinete da Prefeita Luiziane Lins.

Outros elementos que saltam à atenção são as vulnerabilidades femininas diante dessa problemática. Na realidade, não se trata apenas de vulnerabilidade física (que, na realidade, com as múltiplas possibilidades de infecções e recorrências, é um fato concreto), mesmo porque, o HIV passa agora também por um debate amplo sobre a questão de gênero, com a rápida feminização do contágio.

Vulnerabilidades

Outra assistente social que atua na área de prevenção da Coordenação Municipal de DSTs/Aids e Hepatites Virais da Secretaria de Saúde de Fortaleza, Iolanda Santos, revela que Fortaleza está, no momento, atravessando um processo de implementação do Plano de Enfrentamento à Feminização da Aids.

Ele ocorre em conjunto com os Distritos de Saúde de todas as SERs e com o movimento social, em uma tentativa, segundo ela, de "concretizar ações pautadas no Plano de Ações e Metas da Coordenação Municipal de DST Aids e Hepatites Virais, da Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza".

Uma campanha do Ministério da Saúde para o Carnaval deste ano destaca o uso do preservativo masculino e feminino para a a prevenção de todas as DSTs, incluindo o papiloma vírus humano (HPV). Com mais de 200 tipos diferentes,este vírus é conhecido como parente do HIV, sendo capaz de provocar lesões na pele ou mucosas de homens e mulheres. Trata-se de um problema que também passa pelo sistema imunológico da pessoa infectada, e embora a contaminação pelo HPV possa vir a ter cura, alguns tipos do vírus apresentam alto risco de provocar lesões pré-cancerosas.

Atualmente já se relaciona o câncer no colo do útero, ou cervical, como possivelmente desencadeado por alguns subtipos de HPV. Segundo tumor mais frequente na população feminina (atrás apenas do câncer de mama) e quarta maior causa de mortes de mulheres por câncer no Brasil, a maneira melhor de combatê-lo é pela prevenção.

A indicação médica para evitar sua proliferação (e dos diversos tipos) é seu rastreamento, com a coleta periódica do exame citopatológico do colo do útero (Papanicolau). O diagnóstico precoce é uma das estratégias nacionais ou regionalizadas de prevenção à doença. Embora, para alguns tipos de HPV, já haja uma vacina que confere proteção por, pelo menos, 42 meses em 94% das mulheres.

Além da vacina, outra forma de prevenção são os preservativos. Um novo preservativo feminino, recém-lançado no mercado, estará disponível em breve nas farmácias. O Della foi elaborado com material distinto (não é de látex) e preenche uma lacuna importante de prevenção dando maior autonomia à mulher.

A sexóloga Rose Villela diz que a rejeição quanto ao uso da camisinha feminina deve ser ultrapassada, pois antes de ser popularizado o preservativo masculino, tal atitude era comum.

Exames periódicos

Iolanda Santos esclarece às mulheres sobre os 92Centros de Saúde da Família distribuídos por Fortaleza, os quais fazem dispensação de preservativos masculinos para toda população, com orientação adequada. Já as camisinhas femininas são dispensadas de acordo com a solicitação das SERs.

São mais caras e oferecidas em menor quantidade, destinadas mais às as mulheres que estão em condição de maior vulnerabilidade, ou seja, as profissionais do sexo, mulheres que são vítimas de abuso sexual e que não conseguem convencer o seu parceiro do uso do mesmo. Admite não haver dispensação do mesmo como o preservativo masculino.

Como Cícera, Iolanda revela a preocupação com a transmissão vertical do HIV (da mãe soropositiva - às vezes, sequer sem saber - para o bebê, realidade que vem sendo bem frequente com o aumento do número de casos de mulheres soropositivas.

Destaca, sobretudo, ser importante a realização do exame anti-HIV, sífilis e Hepatites virais, no pré-natal, a fim de evitar a transmissão vertical. "Em relação à prevenção das jovens mulheres, realizamos importante trabalho, através do Projeto Saúde e Prevenção nas Escolas (SPE), que tematiza , com jovens, várias questões, não só em relação à importância do uso do preservativo, mas a questões relacionadas à gravidez na adolescência, Direitos Humanos, homofobia, violências, gênero e outros temas correlatos", diz.

As assistentes sociais indicam que todas pessoas em geral e, principalmente, mulheres que tenham vida sexual ativa, sem o uso de preservativo e, ainda, pessoas que fazem uso compartilhado de agulhas ou seringas, devem procurar saber qual a sua sorologia para o HIV. Os interessados podem procurar os Centros de Saúde da Família, com aconselhamento pré e pós-teste

No Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) Carlos Ribeiro é feito o teste-rápido HIV e os testes de sífilis, Hepatite B e C, com aconselhamento pré e pós-teste. Fone: (85) 3283.4556

Feminina

Como usar a camisinha feminina:

Rasgar a embalagem para baixo; segurar a argola interna entre o polegar e o dedo indicador, comprimindo os lados para formar uma ponta.

Depois, inserir a camisinha (pode ser feita em várias posições). Comprimir os lados da argola interna para formar uma ponta, empurrando-a com o dedo.

Quando a argola estiver no fundo do canal vaginal, deve-se verificar se o preservativo está uniforme e não torcido.

Manter a argola externa aberta para a penetração. E, para tirar a camisinha, segurar e torcer a argola externa para não deixar escapar o sêmen.

Remover o preservativo delicadamente e descartar. Deve-se sempre usar uma nova camisinha em cada relação sexual. E nunca usar camisinha masculina e feminina ao mesmo tempo.

Entrevista
Preservativo mal usado pode veicular o vírus do papiloma humano

A que se deve o crescimento do número de jovens, principalmente as mulheres, infectados com o HPV?

Basicamente, devido a dois fatores fundamentais: liberdade sexual excessivamente descontrolada nos jovens de hoje, assim como o descaso com o uso do preservativo.

Quais os sintomas que alertam para o problema?

O despreparo da juventude para enfrentar tal situação e o hábito do uso crescente de bebidas alcoólicas e drogas.

Muitas pessoas ainda resistem ao uso da camisinha. O preservativo é ainda o meio de prevenção mais eficaz? Por quê?

O preservativo mal usado também poderá veicular o HPV. Leva-se em conta que este vírus é transmitido através do contato com a pele. Portanto, o segmento do pênis que não está coberto pela camisinha, ao friccionar a pele do outro parceiro (a), favorece a transmissão. Daí, a facílima contaminação da base do pênis, da vagina ou das nádegas, quando de encontro ao púbis ou às paredes das mesmas.

No caso de os parceiros se recusarem a usar preservativo, as camisinhas femininas são uma medida segura?

Sem nenhuma dúvida, até porque, a camisinha feminina, por ser mais ampla em sua parte terminal, protege melhor.

No caso da mulher estar infectada com o HPV, é recomendado que o parceiro também realize exames? O que deve ser feito?

É perfeitamente óbvio! Ele poderá também estar contaminado com outros subtipos virais, aumentando, assim, o problema. O parceiro deverá ser encaminhado a um médico capacitado a cuidar de seu caso, o que exige formalmente o uso do colposcópio, sem o qual, os resultados serão incompletos.

Murilo Porto Siqueira
Ginecologista, fitopatologista, sexólogo, responsável pelo Ambulatório de DST do Instituto do Câncer do Ceará (ICC)

A opinião do especialista
Desafios às DSTs/Aids

Quando falamos em prevenção às DST e Aids na população feminina, inúmeros são os desafios para que consigamos impactar e conseguir um resultado satisfatório, colaborando para que as mesmas consigam lançar mão do uso do preservativo.

Dentre esses desafios, temos a desigualdade de gênero, a questão cultural, a dificuldade de negociar o preservativo com o parceiro, o mito do amor romântico, no qual a ideia sobre fidelidade e sobre amor são vistos como formas de prevenção. Tudo isso faz com que as mulheres não percebam sua vulnerabilidade ao HIV e outras DSTs, abrindo mão do uso do preservativo, além da dificuldade, em alguns casos, de acessar os serviços de saúde.

Na década de 1980, quando surgiram os primeiros casos de Aids, os registros eram de 15 homens infectados com o HIV para um caso de mulher. Atualmente, temos dois casos de homens para um caso em mulher. Hoje, em mulheres jovens, o número de casos de Aids é maior entre as meninas do que nos meninos. De acordo com o Boletim Epidemiológico de 2010, os casos de Aids em homens e mulheres jovens, de 13 a 19 anos, de 1980 até junho de 2010, corresponderam a um total de 12.693 .

Nessa faixa etária, o número de casos de Aids é maior entre as mulheres: oito casos em meninos para cada 10 em meninas. Nas demais faixas etárias, os casos entre homens ainda são superiores, o que denominamos de juvenização do HIV.

Um trabalho de prevenção voltado para as mulheres, antes de mais nada, deve levar em conta toda uma diversidade de mulheres e de práticas sexuais que as mesmas realizam, ou seja, desde sua idade e orientação sexual, até entre mulheres, a relação homossexual deverá acontecer de forma protegida, bem como toda e qualquer relação sexual (seja oral, anal ou vaginal).

Infelizmente, ainda não temos um insumo de prevenção para mulheres que fazem sexo com mulheres. Sendo assim, nas atividades de prevenção, estamos sempre fortalecendo a importância do uso da barreira de látex, que pode ser adaptada com um preservativo masculino.

É interessante sabermos que a informação de qualidade - embora só a mesma não dê conta - é uma grande aliada para o trabalho de prevenção à Aids e outras DSTs. Vale lembrar que a Hepatite B é também uma DST, com vacina disponível gratuitamente em todos os postos de saúde, destinada a alguns públicos mais vulneráveis, como adolescentes e jovens até 24 anos, profissionais do sexo, profissionais de saúde, manicures e catadores(as) de lixo.

Iolanda Santos
Assistente Social da Coordenação Municipal de DST/Aids (Regional 2)

ROSE MARY BEZERRA
REDATORA

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.