RECIPROCIDADE

Ser responsável é dar novas respostas à vida

21:54 · 29.10.2011
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Nova perspectiva: uma visão multifacetada do ser sempre oferece um quadro mais rico em referências e critérios existentes na capacidade humana, talentos, aptidões e potenciais
Nova perspectiva: uma visão multifacetada do ser sempre oferece um quadro mais rico em referências e critérios existentes na capacidade humana, talentos, aptidões e potenciais ( Arquivo )
Bia Severino: dar o salto quântico e ir além dos medos, culpas e perdas
Bia Severino: dar o salto quântico e ir além dos medos, culpas e perdas ( Arquivo )
Quando a vida pára no mesmo ponto é hora de trazer novos modos de perguntar e novas respostas

Márcio chega em casa e a encontra toda bagunçada. Mais um dia em que os filhos adolescentes deixam o rastro do caos n o ar. A bronca é praxe, embora não traga resultado prático. O desânimo o domina nestes momentos que, com frequência, se repetem. Só não é maior do que a culpa de não conseguir fazer nada além de assumir cargas de responsabilidades dos outros (no trabalho, em casa, com amigos e parentes), sem dar conta das de sua própria vida.

O psicólogo e especialista em ciências cognitivas e membro da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas, Fernando Elias José, revela que as pessoas produzem pensamentos, a partir de suas crenças. Quando esses pensamentos, recorrentes, são negativos, isso as deixam com sentimentos cada vez piores sem conseguirem alterar nada em sua realidade. E ainda acabam por criar um quadro não apreciável, que muitas vezes tende a se repetir. Alguns até complicam mais, como os pensamentos que levam a atitudes de esquiva, procrastinação e coerção.

Conforme Fernando José, estes comportamentos são os que alimentam as negatividades (os psicólogos denominam de profecias auto-realizadoras), e vêm acompanhados de frases que sucedem eventos como: "eu não falei que não ia dar certo?".

As pessoas nem se dão conta que de tanto falarem e pensarem sobre determinados assuntos, de forma negativa e com sentimentos carregados, estão profetizando, ou seja, levando a situação não desejada a se concretizar. Tais pensamentos ganham proporções exageradas e sem fundamento no dia a dia.

Fugir do contato

A esquiva é a situação em que a pessoa foge do contato com outras e fica criando seus próprios pensamentos, ensina. Foge porque pensa e crê que ninguém é bom o suficiente para ajudá-la.

Já a procrastinação é o ato de não tomar decisões. Conforme o dito popular, é a pessoa habituada a "empurrar as coisas por fazer com a barriga". Isso resulta em acúmulo desnecessário de ansiedade, o qual prejudica a condução da própria vida.

Pressionar, colocar sua força sobre outra pessoa com o objetivo de induzi-la, intimidá-la ou ameaçá-la a fazer o que se quer também é outro comportamento comum e improdutivo. Quem não se depara com alguém frio e distante, sem enxergar em que pontos contribuiu para que o outro ficasse dessa maneira?

Desenvolver a auto-percepção é essencial para parar de culpar os outros por seus próprios problemas. E por tudo o que sua própria maneira de pensar, sentir e agir cria ao seu redor.

A chave para uma vida satisfatória e de realizações está em uma palavra extensa, mas com um significado bastante profundo. Auto-responsabilidade, conforme o coach, escritor e palestrante Paulo Vieira, autor de um pequeno livro com este título (JCS Editora), está na essência da transformação da vida.

Vieira escreve que o desenvolvimento da dimensão emocional (denominada pelo psicólogo Daniel Goleman de "inteligência") é essencial para que as pessoas assumam sua capacidade de liderança. Liderar, justifica, não é dominar e sim desenvolver aptidões emocionais necessárias à arte de persuadir e criar condições de motivação, levando as pessoas a colaborarem para o alcance de um objetivo comum. Em síntese, com o QE apropriado, cada um se torna um líder capaz de construir redes de trabalho, confiança, realizações e talentos que, no conjunto, constituem sabedoria e poder.

"As emoções são uma parte essencial e inseparável daquilo que somos e do modo como nos relacionamos com os outros e com o mundo", registra Vieira, reforçando que elas não podem nem devem ser ignoradas ou deixadas de lado. Isto faz parte de uma visão multifacetada do ser que oferece um quadro mais rico em referências e critérios existentes na capacidade humana, talentos, aptidões e no potencial de cada um para o êxito em tudo aquilo que for empreender. No recorte da vida de Márcio, perpassando a educação de seus filhos e a criação de um lar harmonioso, cada um se respeitando e oferecendo reciprocidade, ao assumir suas responsabilidades.

A opinião do especialista

Em busca dos tesouros

Um dia desses, me vi impaciente com as queixas das pessoas. Ao sentir meu desconforto, fui buscar em meu interior o que se passava. Quando criança, todas as vezes que me queixava de algo, minha mãe sempre dizia: "Você não tem do que reclamar, pois tem uma família, casa, comida, escola, amor, uma vida muito boa. E é muito saudável. Pare com isso!"

Neste episódio, percebi que a queixa nunca me tinha sido permitida. O resultado é que ia atrás de soluções mágicas, pagando um preço alto por isso, sem assumir minha auto-responsabilidade pelas situações e, quase sempre, mesmo sem expressar minhas queixas, entrava no papel de vítima.

Descobrir a importância da auto-responsabilidade fez toda diferença; aceitá-la, varreu do mapa um padrão conhecido de auto-piedade, resignação, aceitação passiva, ressentimentos latentes contra as injustiças e o famoso jogo masoquista de repisar as "queixas contra a vida". O questionamento para desvendar isso foi: em que ponto ainda me faltava clareza sobre mim mesma? Assumi a responsabilidade e pude ir para uma nova posição, abrindo mão das soluções mágicas e assumindo meu poder de fazer novas escolhas. Consegui dar um passo além.

Deparamo-nos com situações pequenas e simples da vida, mas cheias de significado. E o interessante é que com os aprendizados, percebemos que em cima de cada pergunta que nos fazemos e à nossa vida, temos um grande tesouro a encontrar. E a agradecer.

Maria Isabel Telles do Carmo
Facilitadora do Pathwork, e Helper em formação

Amar e agradecer são as melhores soluções

Identificar um problema dentro de si já é um passo para solucioná-lo. No entanto, a abordagem cognitiva muitas vezes não é suficiente para dar conta de inúmeras outras questões, já que o mundo é bastante complexo e hoje começa a ser visto como uma grande teia da vida. Chegar à base de seus pensamentos e modificá-los nem sempre resulta em conta matemática exata, solucionando os problemas.

No caso de se alcançar a percepção da auto-responsabilidade, conforme a psicóloga Bia Severino, é importante se recuar e, em seguida, ir um pouco mais além. Única brasileira autorizada a aplicar uma abordagem criada pelo médico norte-americano John Demartini, o Processo Quântico, Bia explica que a auto-responsabilidade pressupõe a existência de uma via de mão dupla: responsabilidade e irresponsabilidade. Um fluxo e um contra-fluxo .

Normalmente, se confunde os conceitos e se emprega as dualidades de forma equivocada, valorizando o positivo e ignorando (ou rejeitando) o negativo. Isso, explica Bia Severino, nunca resulta em uma solução adequada às situações, haja visto que as polaridades necessitam umas das outras para haver a unidade - o que no Processo Quântico é o objetivo a ser alcançado, enfim, o Ponto Zero, ou equilíbrio entre as cargas.

No caso de Márcio (ao lado), a responsabilidade que mantinha com os outros de forma excessiva o levava, sem conseguir enxergar e nem se dar conta, a ser bastante irresponsável consigo e sua própria vida.

A percepção das pessoas passa a ser corrigida e adequada, mediante os pressupostos do Processo Quântico. Assim, se modifica um padrão habitual de deixar velada (invisível) uma das polaridades, quando a outra se torna evidente. Normalmente, as pessoas assumem postos e passam a representar papéis para agradar a outros, serem aceitas e aprovadas. E esta "persona" é apenas uma máscara, uma simulação, não representando o todo que cada ser é. Bia Severino esclarece que há um Eu maior em cada um de nós que engloba tudo, sem excluir nada. No entanto, socialmente, como aceitar a parte que sente inveja, ciúmes, raiva, tristeza, rancor? Estas são emoções negadas, porque ditas ruins e rejeitadas. E somente observadas nos outros.

O que tem sucedido, e que as pessoas podem utilizar como uma própria ferramenta para o desenvolvimento de sua auto-percepção, é que tudo em nosso redor, pessoas e coisas, refletem aspectos nossos, embora sejam julgados como bons ou maus, positivos ou negativos.

Bia Severino ensina que quando se tenta alcançar um objetivo e não há resultados, normalmente há um tipo de auto-sabotagem devido a presença dessa corrente de tensão do "ou", uma tentativa de se excluir algum aspecto pessoal "sombrio" ou não aceito. Procurar este aspecto e reintegrá-lo é a tarefa a ser realizada. Os recursos visam ultrapassar a consciência de "pecado" e de "certo ou errado", incluindo os sentimentos e emoções rejeitados, que levam as pessoas a tentarem tirá-los da linha de percepção.

Bia Severino realiza o Processo Quântico há mais de 10 anos, quando foi levada a conhecer o método desenvolvido pelo Dr. Demartini. O que chamou sua atenção, na época, foi poder solucionar problemas dissolvendo emoções carregadas, como culpa, medo e perdas, em apenas duas horas. "Percebia que, na psicoterapia comum, quando passamos tempos solucionando uma culpa, assim que é resolvida, outra aparece".

Com um livro publicado sobre o Processo Quântico ("A Chave para uma Vida Melhor", Editora Scortecci), Bia diz que o trunfo do processo é o colapso. Por entender que tudo se constitui de cargas vibratórias, no trabalho, ao se mexer nas polaridades que formam o próprio campo magnético o qual sustenta o quadro mental e emocional, ao zerar as cargas vibratórias, o salto quântico se torna possível.

Neste ponto, o silêncio se instala. Problemas diversos se constituem como coágulos energéticos instalados a partir do sobe e desce da psique e das emoções. Ao se silenciar a mente, se chega a mente cósmica, quando se alcança o ponto central que é o coração, centro do amor e da gratidão. Quando se ganha este estado, não há mais sofrimento. Só amor.

ROSE MARY BEZERRA
REDATORA


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