ESTRESSE

Sem tensão na escola

20:01 · 12.12.2009
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Apesar de estabelecer uma forte relação com a família, o estresse infantil também pode ser desencadeado na escola, entendida como um espaço importante de socialização e, por isso, de tensão. Clima de competições, tarefas excessivas e cobranças, relação com colegas e com os professores também podem criar situações desfavoráveis para as crianças.

A psicopedagoga Ana Ásia Almeida explica que a metodologia, o espaço físico a relação professor-aluno podem ser pontos de tensão. Isso porque, na faixa etária entre cinco e 13 anos, principalmente após o período de alfabetização, aumentam as cobranças pelos resultados satisfatórios e, se a metodologia adotada impulsionar essa competição, pode criar situações desgastantes para a criança.

"Notas, quadros de honra, medalhas podem ser estressantes para uma criança. Entre sete e nove anos de idade ainda não existe maturidade para viver essa competição", explica, acrescentando que, apesar de algumas famílias gostarem desse tipo de oferta, se não houver um suporte para a criança, pode desencadear frustração e baixa estima. Outro ponto destacado pela psicopedagoga, é a questão do espaço físico. Ela ressalta que toda criança necessita de tempo e espaços para brincar, se sentir livre, correr e explorar os lugares e situações. "Brincar proporciona um melhor processo de aquisição cognitiva", explica.

Algumas atitudes, como encher os filhos de atividades, visando que ele seja "melhor em tudo" e se prepare melhor para o futuro, conforme a psicopedagoga Heloisa Maria Câmara de Sena, mestre em Psicologia Social e da Personalidade, acontecem numa tentativa dos pais tentarem satisfazer seus desejos transferindo responsabilidades para as crianças. "Vemos, com muita frequência, pais que matriculam seus filhos na educação infantil, já preocupados com o tempo do vestibular. Essa preocupação não existia antes, as crianças e os pais, talvez porque as mães estivessem mais em casa, eram mais livres", comenta.

Cognição

Além disso, Heloisa Câmara explica que é na primeira fase da infância quando a personalidade se solidifica e preservar isso é muito importante para um desenvolvimento saudável do ser humano. "Por maior que seja a capacidade cognitiva, se a criança não estiver bem emocionalmente, ela não aprende. O desenvolvimento cognitivo e emocional caminham juntos. O processo de aprendizagem envolve muitas dificuldades, e se a criança tiver em casa um porto seguro, no sentido de acolher, de estar ao lado, ela vai se deparar com essas dificuldades e superá-las", disse.

Dentro dessa lógica, a mãe de duas meninas - Mariana, de seis anos, e Carolina, de três anos- pedagoga Renata Régis Bezerra Silva busca fazer com que as filhas tenham "o seu tempo", deixando-as brincar bastante, ao invés de preencher o dia com atividades extracurriculares.

Renata relata que percebe situações estressantes no comportamento das filhas quando elas estão cansadas. "Quando saem da rotina, dormem tarde, fazem muitas atividades, ela s ficam estressadas. Para combater isso, procuro deixá-las sem muitas obrigações, com muito tempo para brincar e exercer a fantasia", disse Renata.

Professor-aluno

Outro ponto que pode ser estímulo para o estresse, conforme a psicopedagoga Ana Ásia Almeida, é a relação entre professor e aluno, considerada um pilar na aprendizagem. "Da mesma forma que pais estressados geram crianças estressadas, com os professores acontece da mesma forma", destaca.

Manter um olhar atento sobre os professores, não só como profissionais, mas como seres humanos, conforme a também psicopedagoga Heloisa Maria Câmara de Sena, é importante para que as dificuldades emocionais sejam cuidadas e não gerem problemas em sala de aula.

"É importante que as escolas tenham essa percepção e invistam na comunicação, integração em todos os sentidos para que os profissionais se sintam bem. O educador precisa estar bem se conhecer melhor para que não leve questões pessoais para a criança. Precisa estar livre", finaliza Heloisa Câmara.

*JOÃO VICENTE MENESCAL

"As famílias tratam suas crianças como adultos em miniaturas"

Como as crianças são atingidas pelo estresse?

Da mesma forma que os adultos, as crianças também sofrem com situações estressantes. O que mais observamos é que existem muitas cobranças em torno dela e uma pressão pelo seu bom desempenho em casa e na escola. Se observarmos, há duas décadas atrás, ainda nem se pesquisava sobre o assunto, pois as pessoas tinham uma vida muito mais tranquila. Não é só a pressão pelo sucesso, mas também a rapidez com que as coisas acontecem na sociedade e consequentemente na vida da criança. Precisamos de tempo para nos perceber e, com a criança, é do mesmo jeito.

A dinâmica familiar interfere nesse processo?

As famílias, muitas vezes, tratam suas crianças como adultos em miniaturas, fazendo muitas cobranças para serem bons alunos, bem comportados, melhores em tudo. Preenchem o dia inteiro das crianças com atividades, como línguas, esportes, aulas extras e não se dão conta da importância de ser criança mesmo, de brincar de não ter grandes responsabilidades.

Os pais estão alerta a esse problema da sociedade moderna?

Existem dois tipos de pais: aqueles que conseguem dar atenção de qualidade ao seu filho e aqueles que não conseguem. Os filhos que têm melhor assistência dos seus pais conseguem diluir o estresse com o suporte que recebem. Já os pais que, por algum motivo, não conseguem estar mais próximos, criam uma relação de troca e não de diálogo com seus filhos.

Os pais sobrecarregados não se percebem como sujeitos e também não percebem seus filhos. Um exemplo foi o caso daquela mãe que esqueceu o filho dentro do carro em São Paulo. Ela já estava tão engolida pela correria da rotina que, quando teve uma alteração, não teve tempo de elaborar isso e esqueceu o filho dentro do carro. A falta do espaço para o diálogo e conversa, convivência como brincar, dar banho, alimentar, afasta os filhos dos pais e é nesse espaço que se formam laços afetivos que vão se prolongar pelo resto da vida. É quando os filhos entendem que os pais são seu porto seguro.

Como a criança demonstra que está estressada?

A mudança de comportamento é um dos principais indícios. Pode acontecer de ela ficar mais reservada, sem querer conversar; mais choro; insegurança; tristeza; problemas na escola; surgimento de dores, como de cabeça e barriga; irritações. Assim como os adultos, as crianças também demonstram ficar estressadas, mas diferentemente deles, elas não verbalizam esse sentimento.

Quando os pais devem procurar ajuda profissional?

Alterações de comportamento são sinais de alerta de alguma situação desfavorável. Quando as próprias crianças e seus pais não conseguem lidar com essa mudança e já não encontram formas de fazer uma intervenção que resulte no retorno à normalidade é preciso buscar ajuda de um profissional, que vai atuar como um mediador dessa situação e auxiliá-los a superar a fase problemática.

Psicólogo*

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