TRÂNSITO

Sem o direito de ir e vir

06:19 · 03.04.2011
O professor João Paulo Lima sabe bem o quanto é difícil ser desrespeitado em filas de bancos e supermercado, especialmente no trânsito
O professor João Paulo Lima sabe bem o quanto é difícil ser desrespeitado em filas de bancos e supermercado, especialmente no trânsito ( FOTO: ALEX COSTA )
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Segundo o psiquiatra George de Castro, o que ocorre nas ruas é uma verdadeira briga pelo espaço, que hoje tornou-se pequeno demais para acomodar uma frota que cresce a cada dia. "Os ônibus disputam com as topiques, com os taxistas, e os demais motoristas. Outra preocupação são as motos, que têm crescido assustadoramente em todos os centros urbanos", informa o especialista.

A necessidade de chegar rápido ao destino e as cobranças sociais só aumentam essa competição e, consequentemente, o estresse do motorista, também ligado. Dr. George Castro reconhece que a situação também se deve às ações dos órgãos do estado. "Eles têm agredido o condutor com a má conservação e sinalização das vias, além de empregarem uma política voltada apenas para multar, ao invés de investirem em blitz educativas".

Educação cidadã

Desempenhamos os mais diversos papéis na sociedade, porém, as características próprias de cada indivíduo não mudam. A relação com o carro não é diferente, pois dirigir é mais um papel social que desempenhamos e, segundo Wagner Queiroz, transferimos para o veículo o que somos e como nos comportamos na vida real. Caso se trate de uma pessoa organizada e cuidadosa, assim também será seu comportamento em relação ao trânsito. Do mesmo jeito pode ocorrer com os estressados e mal-educados. "Algumas pessoas podem passar para a direção questões mal resolvidas e reprimidas que acabam se externando na forma de agressividade", argumenta o psicólogo.

Além do estresse, más condições das vias públicas e falta de fiscalização por parte das autoridades de trânsito, um fator talvez seja o mais importante para ocasionar tanta agressividade: a falta de educação cidadã. Não só os próprios condutores sofrem com a ausência de respeito e cuidado com o próximo, como também idosos, gestantes, portadores de deficiência física e os pedestres em geral.

O professor de língua espanhola, João Paulo Lima, que têm necessidades físicas desde os 12 anos, após um osteosarcoma (tumor ósseo) no joelho direito, sabe o quanto é difícil ser respeitado não só em filas de bancos e supermercados, mas principalmente no trânsito de Fortaleza. "Antes, ao precisar recorrer ao transporte público para me locomover, o desrespeito aos espaços reservados a pessoas especiais era frequente. Inúmeras eram as vezes em que ignoravam minha entrada no ônibus ou simplesmente eu tinha de pedir o assento, às vezes concedido com bastante insatisfação", informa.

Atualmente conduzindo o próprio automóvel, João Paulo continua a conviver com a falta de educação dos cidadãos, que invadem as vagas preferenciais nos estacionamentos de espaços públicos e privados.

"A situação se repete de outra forma. É o antigo assento (no transporte coletivo) que ocupavam em meu lugar. Às vezes o motorista desce do carro, retira o cone e estaciona sem nem mesmo estar acompanhado de um idoso, grávida ou deficiente físico. Trata-se de uma cultura de pouca cidadania e de pouco respeito ao outro", esclarece o professor.

Conforme o Dr. George de Castro, o que se pode notar é que as pessoas não estão acostumadas a ter sensibilidade e acabam não se importando com o bem estar do outro, mas apenas consigo mesmas.

Estresse

A atitude egoista é reproduzida em diferentes situações do cotidiano da maioria das pessoas. É por isso - e pelo estresse emocional - que motoristas de ônibus costumam não parar para idosos ou deficientes físicos - ou dirigem em alta velocidade.

Os carros desrespeitam sinais de trânsito e intimidam pedestres. "A formação para exercer a a condução de veículos no Estado é boa. O problema é mais uma questão de educação pessoal, e não no âmbito do trânsito. O que falta também é o combate prático e concreto por parte das autoridades", conclui o psiquiatra George de Castro.

Fique por dentro

Pânico ao dirigir

O simples fato de segurar a direção de um automóvel pode provocar tremores, taquicardia, sudorese e secura na boca em algumas pessoas. Acham que o carro está no controle, têm sensação de pouco espaço, dificuldades em estacionar, manobrar ou mudar de faixa. Há um medo constante de que os demais carros avancem e de que ocorra algum acidente. Esses indivíduos, em sua maioria mulheres (95%), entre 30 e 48 anos, habilitadas (95%) e com veículo próprio (85%), são vítimas do pânico de dirigir. Há dois motivos que podem desencadear o problema: medos arraigados, trazidos da história de vida pessoal repassados por figuras parentais ou de grande influência, ou devido a medos circunstanciais motivados por envolvimento em acidentes de trânsito. O trabalho de um psicólogo, nesses casos, se torna essencial. Ele desempenha o papel de ajudar no resgate da autoestima e confiança dessas pessoas ao conduzirem, estimulando-as aos poucos a voltar a ter uma vida normal.

A opinião do especialista

Falta mobilidade

Maria Elisabeth Pinheiro Moreira

O Código de Trânsito Brasileiro (CTB - 1997), entre muitas inovações, introduziu o conceito da municipalização do trânsito. Dessa forma, o trânsito da cidade passou a ser de responsabilidade dos Municípios, através da criação de Órgãos Executivos Municipais de Trânsito. As prefeituras tornaram-se então responsáveis pelo planejamento, projeto, operação, fiscalização e educação do trânsito, no perímetro urbano e nas rodovias municipais.

Analisando o trânsito na cidade de Fortaleza, após a implantação do CTB, os problemas de mobilidade da população continuam se agravando, devido principalmente ao aumento do fluxo de veículos e, consequentemente, em função da não implantação de um sistema viário básico, como proposto no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (1992) para melhor disciplinar melhor as viagens de curtas, médias e longas distâncias. Diante deste contexto, todos perguntam: O que fazer para mudar desta situação?

Para uma gestão adequada de trânsito, o Poder Público Municipal deve organizar-se em várias frentes para estruturar as bases do trânsito (planejamento, projeto, operação, fiscalização e educação), investindo recursos para o desenvolvimento das atividades técnicas/administrativas. Fortaleza necessita de uma Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes, onde todos os órgãos/entidades, que atuem nesta área, fiquem subordinados a uma administração superior, para que todos trabalhem de forma integrada dentro de suas competências.

Para o "planejamento" é preciso criar um órgão que atue no desenvolvimento urbano da cidade, identificando como, quando, e para onde a cidade deve crescer, fazendo cumprir o que as legislações determinam. Para o "projeto", uma equipe de profissionais qualificados, pertencentes a um quadro permanente, para que possam acompanhar como a cidade se desenvolve, e assim identificar as causas e as consequências dos reais problemas de mobilidade e acessibilidade da população. Na "operação", aplicação de equipamentos, técnicas, processos e métodos que sejam compatíveis com as necessidades de deslocamentos dos usuários do sistema.

No quesito "fiscalização", a integração dos poderes municipal, estadual e federal que atuam na manutenção da ordem pública, a exemplo do extinto Batalhão de Trânsito da Policia Militar de Ceará (BPTRAN). E pela "educação", é essencial instituir parcerias com entidades de ensino públicas e privadas para que haja uma maior abrangência das ações a serem implantadas nesta área. Com tais determinações iniciais, realmente se pode construir ambientes para se tentar minimizar e eliminar os problemas de trânsito de Fortaleza.

Professora do Departamento de Engenharia de Trânsito da Universidade Federal do Ceará (UFC)

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